23.8 C
Limeira

O samba que não desfila

- PUBLICIDADE -spot_img

Precisa ler isso...

Banner Publicitário
Fernando Garayo- Jornalista- Ambientalista- Pós Graduando em Ciências Politícas

A extrema-direita acordou indignada. Não foi com a fome, não foi com o desemprego, não foi com a desigualdade. Foi com o samba. Mais especificamente, com o atrevimento da Acadêmica de Niterói em ousar fazer o impensável: homenagear Lula na avenida.

O argumento é sempre nobre, claro. Dizem que é “politização do carnaval”, como se a história do samba fosse um retiro espiritual neutro, sem suor, sem povo e, principalmente, sem política. Como se a avenida nunca tivesse contado a saga dos excluídos, dos trabalhadores, dos que apanharam e ainda assim sambaram.

Mas a revolta tem algo de mais profundo — e mais melancólico.

É o ciúme.

Porque, convenhamos, Bolsonaro não rende samba. Não rende enredo, não rende fantasia, não rende alegoria. Tente imaginar: um carro alegórico chamado “O Mito do Nada”, puxado por notas fiscais voando, cartões de vacina em branco e uma comissão de frente ensaiando passos descoordenados ao som de… silêncio. Não dá.

O samba pede narrativa. Pede conflito, queda, retorno, povo, contradição, suor, história. Pede alguém que tenha atravessado o Brasil real — o que passa fome, o que trabalha cedo, o que apanha da vida e ainda assim canta. Lula goste-se ou não dele, tem biografia que ocupa avenida inteira, daquelas que vão do barraco ao Planalto, com direito a lágrima, vaia, aplauso e refrão que gruda na cabeça.

Já Bolsonaro oferece o quê? Um enredo curto, repetitivo e sem poesia: cloroquina, cercadinho, motociata e um final em fuga. Não há metáfora possível que salve.

Talvez seja isso que doa. Não é o Lula na avenida. É a ausência do Bolsonaro nela. É perceber que há figuras que entram para os livros, para os sambas, para a memória coletiva — e outras que mal cabem numa charge de jornal.

O carnaval não é tribunal, mas é história cantada. E a história, essa danada, escolhe sozinha quem vira samba-enredo e quem vira rodapé.

No fim das contas, a extrema-direita não odeia a Acadêmica de Niterói. Odeia o espelho que o samba colocou na frente deles: alguns passam, outros desfilam. Alguns governam, outros viram história. E há aqueles que, por mais barulho que façam, não deixam nem saudade… nem samba.

Porque o samba, diferente do ódio precisa de alma.

 

Banner Publicitário

Descubra mais sobre NJ Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Mais notícias...

Deixe uma resposta

- PUBLICIDADE -spot_img

Ultimas Notícias