
O feminicídio no Brasil há muito deixou de ser uma tragédia restrita às margens da sociedade. Ele atravessa classes sociais, níveis educacionais e, cada vez mais, rompe uma das últimas fronteiras simbólicas de proteção institucional: as próprias forças de segurança. O caso envolvendo o tenente coronel Geraldo Leite Rosa Neto, acusado de matar sua esposa também policial militar Gisele Alves Santana, expõe de forma brutal essa contradição.
A polícia, que deveria ser a linha de frente no combate à violência contra a mulher, revela-se, em episódios como esse, também um espaço onde essa mesma violência se reproduz. Não se trata apenas de um crime isolado, fruto de um descontrole individual. É um sintoma de algo mais profundo: a permanência de uma cultura patriarcal e autoritária que, em certos contextos, encontra abrigo dentro das instituições armadas.
O caso ganha ainda mais gravidade por envolver uma mulher que, em tese, possuía treinamento, acesso a mecanismos de defesa e conhecimento dos riscos. Ainda assim, foi vítima. Isso desmonta um argumento recorrente de que o feminicídio está ligado apenas à vulnerabilidade social ou à falta de informação. Aqui, o que se evidencia é que o problema não está apenas na vítima — está no agressor e, sobretudo, na estrutura que o cerca.
Dentro das corporações policiais, há uma cultura historicamente marcada pela hierarquia rígida, pelo corporativismo e, muitas vezes, pela dificuldade em lidar com denúncias internas. Mulheres policiais frequentemente relatam assédio, desvalorização e medo de denunciar colegas ou superiores. Quando o agressor ocupa uma posição de comando, como no caso de um coronel, o silêncio tende a ser ainda mais profundo.
Isso levanta uma questão incômoda: quantos sinais foram ignorados? Quantas oportunidades de intervenção foram perdidas? E mais — existe preparo real dentro das instituições policiais para lidar com casos de violência doméstica entre seus próprios membros?
O Brasil possui uma legislação considerada avançada no combate à violência contra a mulher, como a Lei Maria da Penha. No entanto, a eficácia da lei depende diretamente da sua aplicação — e essa aplicação falha quando esbarra em estruturas que protegem seus próprios integrantes.
Quando o feminicídio chega à polícia, ele não apenas choca — ele revela. Revela que o problema é estrutural, que atravessa instituições e que não será resolvido apenas com leis, mas com mudanças profundas na cultura organizacional, na formação dos agentes e na coragem de romper o pacto de silêncio.
Mais do que punir após o crime, é necessário prevenir antes. Isso implica criar mecanismos independentes de denúncia dentro das corporações, garantir proteção às vítimas — mesmo quando o agressor veste farda — e, principalmente, reconhecer que ninguém está acima da lei.
O feminicídio, quando cometido por aqueles que deveriam combatê-lo, não é apenas uma tragédia pessoal. É uma falha institucional. E ignorá-la é permitir que ela se repita.
Descubra mais sobre NJ Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.






