
Durante os quatro anos do governo Jair Bolsonaro, a cultura brasileira atravessou um de seus períodos mais sombrios desde a redemocratização. Não se tratou apenas de cortes orçamentários ou de desmonte institucional, mas de um projeto político deliberado de deslegitimação da produção cultural, tratada como inimiga ideológica. Artistas foram hostilizados, políticas públicas foram paralisadas, órgãos como a Ancine e a Funarte foram esvaziados, e o Ministério da Cultura chegou a ser extinto, rebaixado à condição de secretaria sem autonomia nem força política.
O discurso oficial foi de guerra cultural. O cinema nacional, historicamente responsável por projetar o Brasil no mundo, tornou-se alvo constante de ataques, censura indireta e perseguições administrativas. Editais foram suspensos, produções interrompidas, festivais perderam apoio e milhares de trabalhadores da cadeia cultural ficaram sem perspectivas. O resultado foi um apagão criativo imposto não pela falta de talento, mas pela ausência deliberada de políticas públicas e por um ambiente institucional de hostilidade.
O dano provocado foi também simbólico. A cultura, enquanto espelho da sociedade, foi substituída por uma narrativa moralista, autoritária e excludente, que tentou silenciar a diversidade, a crítica social e a memória histórica. O Brasil deixou de se reconhecer nas telas e nos palcos porque o Estado decidiu virar o rosto para sua própria complexidade.
A reconstrução desse cenário começa a se consolidar após o fim do bolsonarismo no poder. O recente sucesso do cinema brasileiro no cenário internacional não é obra do acaso, tampouco um “milagre de mercado”. Ele é fruto direto da retomada das políticas culturais, do restabelecimento do financiamento público e, sobretudo, da devolução da liberdade criativa aos artistas.
O filme O Agente Secreto tornou-se um símbolo dessa virada histórica ao ser indicado a quatro categorias do Oscar, um feito que recoloca o Brasil no centro do cinema mundial e evidencia a força técnica, narrativa e política da produção nacional. As indicações representam não apenas o reconhecimento de uma obra específica, mas de todo um setor que voltou a respirar depois de anos de asfixia institucional.
Já Ainda Estou Aqui alcançou um marco ainda mais expressivo ao conquistar o Oscar de Melhor Filme Internacional (Melhor Filme Estrangeiro). A vitória consagra uma obra que trata da memória, da ausência e das feridas abertas da história brasileira recente, transformando dor e silêncio em narrativa potente e universal. O prêmio simboliza o reencontro do Brasil com sua própria voz no cinema mundial.
Ambos os filmes demonstram que o país voltou a contar suas histórias com densidade estética, coragem política e relevância internacional — qualidades que nunca deixaram de existir, mas que haviam sido sufocadas por um projeto de poder que via a cultura como ameaça.
O reconhecimento internacional dessas produções vai além de estatuetas e tapetes vermelhos. Ele representa a retomada do papel da cultura como política de Estado e como instrumento de democracia, identidade e soberania simbólica. Onde antes houve perseguição, agora há reconstrução. Onde houve censura velada, agora há liberdade criativa.
O cinema brasileiro, que resistiu aos anos de abandono, retorna como prova concreta de que cultura não é gasto supérfluo, mas investimento estratégico. Depois de quatro anos de escuridão, o Brasil volta a se enxergar — e a ser reconhecido pelo mundo — através de suas próprias histórias.
Não podemos deixa que volte os anos de trevas que o Brasil viveu.
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