Hoje estreamos aqui no njnoticias.com.br, um espaço dedicado à filosofia, onde vários autores vão filosofar de temas variados. Na estreia o jornalista e pós graduando em Ciência Políticas Fernando Garayo faz uma analise de quando um homem decide viver na solidão, como refugio de uma sociedade cansada. Boa leitura a todos.

Quando um homem começa a gostar da solidão, algo silencioso se desloca dentro dele. Não é, a princípio, um gesto de fuga do mundo, mas um afastamento quase imperceptível do ruído. A solidão deixa de ser ausência e passa a ser espaço. Um território onde ele não precisa representar papéis, justificar sentimentos ou responder às expectativas alheias. Nesse momento, o homem descobre que estar só não é o mesmo que estar vazio.
Gostar da solidão nasce, muitas vezes, do cansaço. Cansaço das máscaras sociais, das conversas automáticas, das relações mantidas por hábito e não por verdade. Ao se bastar sozinho, ele começa a experimentar uma forma de liberdade rara: a de existir sem plateia. Como escreveu Nietzsche, “o caminho para si mesmo passa pelo deserto” — e a solidão é esse deserto necessário, onde o homem confronta a própria voz sem intermediários.
As consequências dessa escolha são ambíguas. Por um lado, há um ganho profundo de autonomia interior. O homem solitário aprende a pensar sem pedir permissão, a sentir sem depender do olhar do outro. Desenvolve uma intimidade consigo mesmo que poucos alcançam. Ele passa a reconhecer seus limites, seus desejos reais e seus medos mais íntimos. A solidão, nesse sentido, funciona como um espelho honesto: não embeleza, não mente, não consola — apenas revela.
Por outro lado, há um risco sutil. Quando o homem se basta excessivamente, pode confundir autossuficiência com fechamento. A solidão que antes libertava pode endurecer. O mundo visto à distância, começa a parecer raso; as pessoas, previsíveis; os vínculos, cansativos. Surge então a tentação do isolamento como superioridade moral ou intelectual. É nesse ponto que a solidão deixa de ser escolha e se torna refúgio — não mais um espaço de crescimento, mas de defesa.
Gostar da solidão transforma também a forma como esse homem se relaciona. Ele já não busca o outro por carência, mas por afinidade. Não aceita relações que invadam seu silêncio sem oferecer profundidade. Isso o torna mais seletivo, mas também mais solitário. Poucos suportam alguém que não precisa ser preenchido. Poucos sabem compartilhar presença sem ruído.
No fundo, a solidão apreciada é uma forma de maturidade existencial. Ela ensina que ninguém pode viver por nós, pensar por nós ou sentir por nós. Mas também exige sabedoria para não esquecer que o humano se completa no encontro. O homem que aprende a gostar da solidão caminha numa linha fina: entre o autoconhecimento e o afastamento do mundo.
Talvez o sentido mais profundo dessa experiência seja este: a solidão não é o destino, mas o intervalo. Um lugar de preparação. Quem aprende a estar só aprende, também, a estar com o outro sem se perder. E só aquele que suporta a própria companhia é capaz de oferecer presença verdadeira quando decide, enfim, não estar mais sozinho.
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