
A pesquisa da bióloga Tatiana Sampaio sobre a polilaminina é mais do que uma promessa científica no campo da regeneração neural. Ela é, sobretudo, um símbolo de resistência. Resistência de pesquisadores, de universidades públicas e da própria ciência brasileira diante de um dos períodos mais hostis já enfrentados pelo conhecimento científico no país: os quatro anos do governo Jair Bolsonaro.
Desenvolvida no ambiente da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a pesquisa sobre a polilaminina avançou apesar de um cenário político marcado por cortes orçamentários, deslegitimação da ciência e ataques sistemáticos às instituições federais de ensino. Não se trata de uma crítica abstrata ou ideológica, mas de fatos amplamente documentados que ajudam a explicar por que projetos estratégicos para o país caminharam mais lentamente — e, em alguns casos, perderam oportunidades irreversíveis.
2019: o início do desmonte anunciado
Logo no primeiro ano do governo Bolsonaro, em 2019, a área da educação foi colocada no centro de uma cruzada política. O então Ministério da Educação anunciou cortes bilionários no orçamento das universidades federais, atingindo diretamente despesas básicas como manutenção de laboratórios, bolsas de pesquisa e pagamento de serviços essenciais. Reitores alertaram para o risco de paralisação de atividades, enquanto o discurso oficial insistia em retratar as universidades como espaços de “balbúrdia”.
Nesse mesmo período, programas fundamentais de fomento à pesquisa, como os mantidos pela CAPES e pelo CNPq, sofreram contingenciamentos severos. Bolsas foram cortadas, editais atrasaram e projetos científicos de longo prazo — como o da polilaminina — passaram a operar sob permanente instabilidade financeira.
O ataque ideológico às universidades
Mais do que os cortes, o governo Bolsonaro promoveu uma ofensiva discursiva contra o ensino superior público. Universidades federais foram tratadas como inimigas políticas, professores como “doutrinadores” e pesquisadores como privilegiados. Essa retórica não apenas fragilizou a imagem das instituições perante a sociedade, como criou um ambiente de insegurança institucional que afastou parcerias, investimentos e cooperações internacionais.
Projetos científicos não sobrevivem apenas de boas ideias; eles dependem de continuidade, previsibilidade e reconhecimento institucional. Quando o próprio governo questiona o valor da ciência, o recado para a comunidade acadêmica — e para o mundo — é claro: o conhecimento deixa de ser prioridade de Estado.
A pandemia e o auge do negacionismo
Se ainda restava alguma dúvida sobre a postura do governo Bolsonaro diante da ciência, ela foi dissipada durante a pandemia de COVID-19. O negacionismo científico deixou de ser retórica e se transformou em política pública. Houve ataques a pesquisadores, desprezo por evidências científicas, desinformação deliberada e um discurso sistemático contra especialistas e instituições de pesquisa.
Esse ambiente contaminou toda a estrutura científica nacional. Enquanto cientistas brasileiros produziam vacinas, estudos epidemiológicos e soluções tecnológicas, o governo federal sabotava a credibilidade da ciência. O resultado foi um atraso generalizado em investimentos, cooperações e reconhecimento internacional — um prejuízo que vai muito além da pandemia.
O custo real do obscurantismo
A própria trajetória da polilaminina revela o preço desse período. A perda de uma patente internacional por falta de recursos, a lentidão no avanço de pesquisas clínicas e a dificuldade de transformar descobertas científicas em políticas públicas de saúde não são acidentes isolados. São consequências diretas de escolhas políticas que trataram a ciência como gasto e não como investimento estratégico.
Ainda assim, a pesquisa resistiu. E isso só foi possível porque universidades públicas, mesmo atacadas e subfinanciadas, mantiveram-se como espaços de produção de conhecimento e compromisso social.
Uma lição que não pode ser ignorada
A história da polilaminina deveria servir de alerta definitivo: negacionismo mata o futuro. Ele não apenas atrasa descobertas, mas empurra o país para a dependência tecnológica, a perda de protagonismo científico e a submissão ao conhecimento produzido fora de suas fronteiras.
Valorizar a ciência não é uma opção ideológica; é uma escolha civilizatória. E os anos do governo Bolsonaro mostraram, com clareza suficiente, o que acontece quando um país escolhe caminhar na direção oposta.
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