29.7 C
Limeira

A hora da democracia: esquerda e direita democrática precisam se unir contra o avanço da extrema-direita

- PUBLICIDADE -spot_img

Precisa ler isso...

Banner Publicitário

Por Fernando Garayo

Fernando Garayo-Jornalista- Cientista Politico

Chegou o momento de a esquerda e a direita tradicional deixarem de lado suas diferenças ideológicas e compreenderem que existe algo muito maior do que qualquer partido, candidatura ou projeto de poder: a defesa da democracia brasileira, da soberania nacional, da Constituição Federal e da liberdade de todos os cidadãos.

O Brasil vive um momento em que a sociedade precisa refletir sobre o futuro que deseja construir. De um lado, temos as divergências legítimas de uma democracia, na qual diferentes correntes políticas disputam ideias, apresentam propostas e defendem projetos distintos para o país. De outro, temos o desafio de preservar as instituições democráticas diante de práticas autoritárias associadas a setores da extrema-direita bolsonarista.

É justamente nesse cenário que surge uma pergunta fundamental: até que ponto as diferenças entre esquerda e direita podem ser maiores do que o compromisso comum com a democracia?

A resposta precisa ser clara: nenhuma divergência econômica, social ou ideológica deveria impedir a união de forças democráticas quando estão em jogo às regras fundamentais que garantem a liberdade de todos.

A democracia é maior do que os partidos

À esquerda e a direita tradicional possuem diferenças profundas. Divergem sobre o papel do Estado, a economia, os direitos sociais, a distribuição de renda e as políticas públicas. Essas divergências fazem parte da vida democrática e precisam continuar existindo.

Entretanto, há princípios que devem estar acima dessas disputas: o respeito ao resultado das eleições, a independência dos Poderes, a liberdade de imprensa, o direito à oposição, a igualdade perante a lei e a proteção dos direitos fundamentais.

Uma direita comprometida com a democracia não precisa concordar com a esquerda para reconhecer que a Constituição deve ser respeitada. Da mesma forma, a esquerda não precisa abandonar suas convicções para construir pontes com setores conservadores que defendem as instituições republicanas.

O que se propõe não é a criação de um pensamento político único, nem o desaparecimento das diferenças partidárias. Trata-se de uma convergência em torno de valores essenciais, capaz de preservar o espaço no qual todas essas diferenças podem ser debatidas sem ameaças, violência ou imposições autoritárias.

A democracia não exige que todos pensem iguais. Exige que ninguém tenha o poder de impedir os outros de pensar, falar e escolher livremente.

O perigo do autoritarismo

O bolsonarismo, especialmente em suas vertentes mais radicalizadas, colocou no centro do debate nacional questões que não podem ser ignoradas: os ataques às instituições, a desconfiança estimulada contra o sistema eleitoral, a hostilidade dirigida a adversários políticos e a tolerância de setores radicais com soluções autoritárias.

O episódio de 8 de janeiro de 2023, quando grupos invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília demonstrou de maneira concreta que a democracia brasileira não está imune as tentativas de ruptura institucional.

É importante distinguir o conjunto dos eleitores conservadores e de direita daqueles que defendem ou toleram práticas antidemocráticas. Nem todo eleitor de Jair Bolsonaro é fascista, assim como nem todo conservador apoia a ruptura institucional. Generalizações dessa natureza apenas aprofundam divisões e dificultam o diálogo necessário à defesa da República.

A questão central não é a posição de alguém no espectro ideológico, mas seu compromisso com as regras democráticas.

Quando um movimento político passa a tratar adversários como inimigos a serem eliminados, questiona a legitimidade das eleições sem apresentar provas suficientes ou admite a possibilidade de romper a ordem constitucional, é necessário que as forças democráticas reajam institucionalmente.

O fascismo, como fenômeno histórico, está associado à exaltação do líder, ao nacionalismo autoritário, à perseguição de opositores e à deslegitimação do pluralismo. Por isso, o uso dessa palavra no debate brasileiro exige análise de práticas e discursos concretos, e não apenas divergências ideológicas. É a partir dessa avaliação que se deve discutir a presença de características autoritárias em setores da extrema-direita.

A soberania brasileira não tem dono

A defesa da democracia está diretamente ligada à defesa da soberania nacional.

O Brasil é uma nação independente, com instituições próprias, uma Constituição elaborada por representantes eleitos e o direito de decidir seus rumos sem submissão a interesses estrangeiros.

A soberania não pertence a um presidente, a uma família política, a um partido ou a uma corrente ideológica. Pertence ao povo brasileiro.

Por isso, qualquer tentativa de subordinar as decisões nacionais a pressões externas que desrespeitem a autonomia do país precisa ser debatida à luz do interesse público, da Constituição e das relações internacionais.

Patriotismo não significa obedecer cegamente a um governante. Significa defender o país, suas instituições, seu território, sua população e sua capacidade de decidir democraticamente o próprio futuro.

Uma direita democrática pode defender uma política econômica liberal, valores conservadores e relações internacionais diferentes das propostas pela esquerda. Mas deve reconhecer que a independência nacional não pode ser colocada a serviço de um projeto pessoal de poder.

Da mesma forma, a esquerda deve compreender que a soberania não é patrimônio exclusivo de seu campo político. É um princípio republicano que deve unir brasileiros de diferentes convicções.

A Constituição como linha de defesa

A Constituição Federal de 1988 é o pacto que estabelece as regras fundamentais da convivência nacional. Ela assegura direitos individuais, liberdade de expressão, liberdade religiosa, participação política e mecanismos para limitar o poder do Estado.

Não é um documento pertencente à esquerda, à direita ou ao governo de ocasião. É a lei fundamental da República.

Seu artigo 1º estabelece que a República Federativa do Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito. O artigo 5º protege direitos e liberdades fundamentais. O artigo 17 assegura a liberdade de criação, fusão, incorporação e extinção de partidos políticos, respeitados os princípios constitucionais.

Esses dispositivos garantem que diferentes projetos políticos possam disputar o poder, mas dentro de limites que preservem os direitos de todos.

É justamente por isso que a defesa da Constituição deve ser um compromisso compartilhado. Quem deseja governar o Brasil precisa aceitar que o poder não é absoluto, que as instituições têm autonomia e que nenhum mandatário está acima da lei.

Uma democracia não se sustenta apenas pela realização periódica de eleições. Ela também depende do respeito aos resultados, da alternância de poder, da fiscalização dos governantes e da proteção das minorias.

Uma aliança democrática sem renunciar às diferenças

A união entre a esquerda e a direita democrática não significa que os dois campos devam se fundir em um único projeto de governo. Significa reconhecer a existência de uma agenda comum, indispensável à preservação do regime democrático.

Essa convergência pode começar pelo compromisso com cinco princípios fundamentais:

  1. Defesa das eleições livres: respeito ao voto popular e aos resultados legitimamente apurados.
  2. Respeito à Constituição: rejeição a golpes, rupturas institucionais e projetos de poder ilimitado.
  3. Defesa da soberania nacional: preservação da autonomia brasileira nas decisões internas e externas.
  4. Proteção das liberdades: garantia da liberdade de imprensa, de expressão, de religião, de organização política e de manifestação pacífica.
  5. Combate à violência política: rejeição à perseguição de adversários e à intimidação de cidadãos por suas opiniões.

Essa agenda não exige que um partido de esquerda abandone suas propostas sociais, nem que um partido de direita renuncie às suas convicções econômicas ou conservadoras. Exige apenas que todos reconheçam que nenhuma dessas propostas pode justificar a destruição das regras democráticas.

Uma aliança dessa natureza precisa ser construída com responsabilidade, transparência e respeito aos eleitores. Não pode servir apenas como um acordo de conveniência entre dirigentes políticos. Deve representar um compromisso público com as instituições e com os direitos da população.

O Brasil que queremos deixar para as próximas gerações

A história brasileira demonstra que a democracia não é uma conquista irreversível. O país conheceu períodos autoritários, censura perseguição política e restrições às liberdades. A experiência da ditadura militar, entre 1964 e 1985, permanece como um alerta sobre o preço que a sociedade paga quando o poder deixa de estar submetido ao controle democrático.

As novas gerações merecem viver em um país onde ninguém precise temer perseguição por sua opinião política, onde jornalistas possam investigar, professores possam ensinar, estudantes possam se manifestar e cidadãos possam votar sem intimidação.

Merece também um país em que os governantes sejam cobrados por seus resultados, as denúncias sejam investigadas com imparcialidade e a lei seja aplicada sem privilégios ou perseguições.

A democracia não pertence a uma pessoa. Não pertence a Lula, a Bolsonaro, a qualquer partido ou a qualquer família política. Pertence aos brasileiros.

É por isso que a defesa das instituições deve continuar mesmo quando o governo eleito não representa nossas preferências. O verdadeiro compromisso democrático é demonstrado não apenas quando nosso candidato vence, mas também quando aceitamos os limites do poder e reconhecemos o direito dos adversários de disputar eleições e governar dentro da Constituição.

A hora de escolher o lado da democracia

Chegou o momento de compreender que a disputa mais importante não é simplesmente entre esquerda e direita. É entre diferentes projetos políticos que devem conviver sob regras democráticas e qualquer tentativa de concentrar o poder, restringir liberdades ou enfraquecer as instituições que garantem essa convivência.

A esquerda tem responsabilidades. A direita democrática também. Ambas precisam superar ressentimentos, interesses eleitorais imediatos e disputas secundárias quando os princípios fundamentais da República estiverem em risco.

Isso não significa silenciar críticas, abandonar a fiscalização dos governos ou transformar adversários em aliados automáticos. Significa estabelecer limites inegociáveis para a disputa política.

A união necessária não é contra os eleitores conservadores, contra os religiosos ou contra quem pensa diferente. São contra práticas autoritárias, projetos de ruptura institucional e qualquer tentativa de destruir o pluralismo em nome de um líder ou de uma ideologia.

Pela nossa democracia. Pela nossa soberania. Pela nossa Constituição. Pela liberdade de imprensa e de expressão. Pelo direito de discordar, protestar, votar e escolher nossos governantes sem medo.

O Brasil precisa de uma frente democrática capaz de reunir todos aqueles que, independentemente de suas convicções, compreendem que a liberdade de um cidadão depende da liberdade de todos.

Porque, quando a democracia está ameaçada, não basta perguntar a qual partido pertencemos. É preciso perguntar quais princípios estamos dispostos a defender.

E a resposta deve ser uma só: nenhum projeto de poder está acima da Constituição, nenhum líder é maior do que a República e nenhum brasileiro deve abrir mão de sua liberdade para satisfazer a ambição política de quem quer governar sem limites.

A democracia é o nosso patrimônio comum. Defendê-la é uma responsabilidade de todos.

NJ Notícias — Pela democracia, pela soberania e pela liberdade.

 

Banner Publicitário

Descubra mais sobre NJ Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Mais notícias...

Deixe uma resposta

- PUBLICIDADE -spot_img

Ultimas Notícias