
A declaração do deputado Marcos Pereira — “Mas a população vai fazer lazer onde? O povo não tem dinheiro, infelizmente. Vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar. Pode ser o contrário. Ao invés de lazer, pode ser o mal. Qual é o lazer de um pobre numa comunidade? Ou num sertão lá do Nordeste?” — escancara um debate que o Brasil insiste em evitar: o acesso desigual ao lazer e à cultura.
A fala parte de uma premissa problemática. Ao associar pobreza à exposição inevitável a “drogas” e “jogos de azar”, o deputado corre o risco de reforçar um estigma histórico: o de que o pobre, quando não tem recursos, tende naturalmente ao “mal”. Essa visão ignora algo essencial — a imensa capacidade de organização cultural, esportiva e comunitária das periferias urbanas e do sertão nordestino.
Basta olhar para o que já existe. Nas comunidades, o lazer muitas vezes nasce da criatividade coletiva: futebol de várzea, batalhas de rima, festas populares, cultos religiosos, quadrilhas juninas, vaquejadas, rodas de samba, festas de padroeiro, mutirões culturais. O sertão nordestino, por exemplo, é berço de tradições riquíssimas que sobrevivem com poucos recursos, mas com muita identidade.
O problema não é a ausência de virtude nas comunidades pobres. O problema é a ausência histórica do Estado.
Lazer não é luxo, é política pública.
A Constituição brasileira garante o lazer como direito social. No entanto, o acesso a equipamentos públicos — praças bem cuidadas, quadras esportivas, bibliotecas, centros culturais, iluminação adequada — é profundamente desigual.
Quando não há políticas públicas estruturadas, abre-se espaço para alternativas precárias ou exploratórias. Jogos de azar proliferam onde faltam oportunidades. O tráfico recruta onde não há perspectiva. Mas isso não é destino; é consequência de abandono.
O debate, portanto, deveria ser outro:
- Onde estão os investimentos em cultura de base?
- Onde estão os centros esportivos nas periferias?
- Onde estão as bibliotecas itinerantes no sertão?
- Onde estão os editais acessíveis para artistas das comunidades?
Há também um tom paternalista na declaração. Perguntar “qual é o lazer de um pobre?” sugere que o pobre não produz cultura, não cria alternativas, não constrói sociabilidade. Isso ignora décadas de estudos sociológicos e a própria realidade brasileira.
O funk carioca, o rap, o forró eletrônico, o piseiro, o samba de raiz, o futebol de várzea — tudo isso nasceu em contextos populares. A cultura brasileira é, majoritariamente, forjada pelas classes populares.
Se a fala do deputado pretende defender alguma política específica — como restrições a jogos ou apostas, por exemplo — ela poderia ter sido formulada de outra maneira. Ao invés de apresentar a pobreza como sinônimo de vulnerabilidade moral, seria mais responsável reconhecer que vulnerabilidade social exige investimento público, não estigmatização.
O lazer não é um detalhe. Ele é instrumento de prevenção à violência, de saúde mental, de convivência comunitária. Onde há quadra iluminada, há menos esquina dominada. Onde há biblioteca, há menos abandono escolar. Onde há cultura, há pertencimento.
A pergunta não deveria ser “qual é o lazer de um pobre?”, mas sim: por que o Estado ainda oferece tão pouco a quem mais precisa?
O Brasil não precisa de uma visão que associe pobreza ao “mal”. Precisa de políticas públicas que garantam dignidade, acesso e oportunidade. Porque o problema nunca foi à falta de capacidade das comunidades — sempre foi à falta de prioridade política.
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