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Na avenida, nada é literal. Nunca foi.

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Fernando Garrayo- Jornalista- Ambientalista- Pós Graduando em Ciências Politícas

O desfile da Acadêmicos de Niterói passou como um desses sonhos que o Brasil insiste em sonhar acordado: colorido, exagerado, simbólico. Bastou o último carro cruzar a linha final para que começasse, fora do sambódromo, o desfile paralelo, o da indignação enlatada, pronta para consumo rápido nas redes sociais.

As tais “latinhas de conserva” viraram o fetiche da polêmica. Conservadores se sentiram ofendidos, como se a escola tivesse ido além do permitido, como se o carnaval tivesse, de repente, perdido o direito à metáfora. Fingiram não entender ou entenderam bem demais que ali não havia xingamento, mas alegoria. Não havia ataque pessoal, mas crítica política, dessas que o carnaval faz há décadas com plumas, papelão, ferro, tinta e imaginação.

A homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi lida por muitos como propaganda, quando, na verdade, foi narrativa. Carnaval não é panfleto: é teatro. E teatro popular, de rua, aberto, escancarado. Um grande palco a céu aberto onde o exagero é linguagem e o símbolo é regra. Quem exige literalidade do carnaval talvez nunca tenha entendido por que reis viram bobos, diabos dançam com santos e políticos se transformam em personagens maiores que a própria vida.

As latinhas, ali, não prendiam ninguém. Não silenciavam ninguém. Representavam ideias fechadas, discursos engessados, pensamentos conservados no tempo como comida que perde o frescor. Era uma imagem forte, provocadora, como deve ser. Carnaval que não provoca vira desfile de vitrine, não manifestação cultural.

O curioso é que os mesmos que gritam “censura” foram os primeiros a tentar censurar a escola. Os que pedem “liberdade de expressão” só a aceitam quando concordam com o enredo. Querem um carnaval neutro, asséptico, domesticado algo tão contraditório quanto um samba sem tamborim.

A Acadêmicos de Niterói fez o que o carnaval sempre fez: contou uma história a partir de um ponto de vista. E ponto de vista não é crime. É linguagem. É escolha estética. É política no sentido mais profundo da palavra: o debate sobre o que somos o que fomos e o que queremos ser.

Na avenida, o Brasil se olha no espelho e nem sempre gosta do reflexo. Mas quebrar o espelho nunca foi solução. O carnaval passa, a fantasia se guarda, mas a mensagem fica para quem aceita enxergar além da latinha e entende que, no maior teatro popular do país, tudo é símbolo, tudo é exagero e nada, absolutamente nada, é por acaso.

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