
Ao judicializar o repasse à Acadêmicos de Niterói por causa de um enredo sobre Lula, deputados do Novo atacam a cultura, distorcem a Constituição e revelam intolerância travestida de legalidade.
Não nos enganemos: a ação movida por deputados do Partido Novo contra o repasse de cerca de R$ 1 milhão à escola de samba Acadêmicos de Niterói não é sobre zelo com o dinheiro público. É sobre medo da narrativa, medo da memória popular e medo da força simbólica do Carnaval.
Se o enredo exaltasse um empresário “vencedor”, um herói militar ou um político alinhado à direita, dificilmente haveria corrida aos tribunais. O problema não é o uso do recurso — é o nome Lula ecoando na avenida.
Os parlamentares se escondem atrás de palavras bonitas: impessoalidade, moralidade, legalidade. Mas princípios constitucionais não são armas ideológicas para censurar manifestações culturais. Usá-los assim é desonesto.
O Carnaval sempre foi financiado, direta ou indiretamente, com recursos públicos. Sempre contou histórias políticas. Sempre provocou. Nunca foi neutro — e não tem obrigação de ser. Exigir neutralidade da arte é o primeiro passo de qualquer projeto autoritário.
O Partido Novo se apresenta como defensor da liberdade. Mas, na prática, defende apenas a liberdade que lhe convém. Para a cultura, propõe intervenção estatal pesada. Para a arte popular, oferece tribunal, veto e intimidação.
É o liberalismo de fachada: Estado mínimo para direitos sociais, Estado máximo para controlar símbolos. O samba, pelo visto, incomoda mais do que privilégios fiscais, supersalários ou emendas bilionárias.
A Acadêmicos de Niterói não está fazendo campanha eleitoral. Está narrando uma trajetória que marcou o Brasil — gostem ou não seus adversários. Lula não é um personagem ficcional, mas um ator central da história recente do país. Apagá-lo do Carnaval é tentar apagar o povo que se reconhece nessa história.
Se essa lógica prosperar, o próximo passo será questionar livros, filmes, peças teatrais e músicas que mencionem políticos. A censura nunca começa grande. Começa “em nome da lei”.
A tentativa de calar um enredo revela uma elite política incapaz de conviver com a pluralidade cultural. Quando o Judiciário é acionado para silenciar o tamborim, não é a democracia que está sendo defendida — é o autoritarismo que está ensaiando seus passos.
O samba sobreviverá. Sempre sobreviveu. Já aqueles que tentam calá-lo ficarão registrados na história como os que tiveram medo da avenida.
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