
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil CNBB lançou a Campanha da Fraternidade de 2026 com o tema “Fraternidade e Moradia”, trazendo para o centro do debate uma realidade que atravessa o cotidiano de milhões de brasileiros: a falta de teto digno, o crescimento das ocupações irregulares, a população em situação de rua e a desigualdade urbana que transforma o direito constitucional à moradia em privilégio.
Mal foi lançada e começou os ataques ao tema da campanha por parte dos ultraconservadores da Igreja Católica, grupos estes que defendem uma política de exclusão para manter o poder na sociedade com a exploração dos mais pobres.
Como ocorre com frequência nos últimos anos, a proposta pastoral da Igreja Católica — que nasce do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja — foi imediatamente atacada por setores conservadores, tanto dentro quanto fora da própria Igreja. Nas redes sociais, padres, influenciadores religiosos e leigos alinhados à extrema-direita passaram a classificar a campanha como “ato comunista”, “agenda partidária” ou “braço da esquerda”.
O roteiro é conhecido. Sempre que a Igreja decide olhar para os pobres, falar de direitos sociais ou denunciar estruturas de exclusão, parte dos chamados “católicos conservadores” reagem com indignação seletiva. Para esse grupo, o Evangelho parece caber apenas no altar, nunca na rua.
Moradia: direito humano não ideologia
A Campanha da Fraternidade não propõe partidos, candidatos ou ideologias. Ela reafirma algo elementar: moradia é um direito humano básico, reconhecido pela Constituição brasileira e pela própria tradição cristã. Desde a encíclica Rerum Novarum, passando por Populorum Progressio até Laudato Si’ e Fratelli Tutti, a Igreja Católica sempre defendeu que a dignidade humana exige teto, trabalho e pão.
O falecido papa Francisco foi claro ao afirmar que a exclusão urbana, a especulação imobiliária e o abandono dos pobres são pecados estruturais. Ainda assim, para setores conservadores, qualquer crítica ao modelo econômico ou à desigualdade social soa como ameaça ideológica.
Curiosamente, esses mesmos grupos raramente se mobilizam com a mesma fúria contra a corrupção, a violência policial nas periferias ou a fome. A indignação aparece seletiva e quase sempre direcionada contra pautas que desafiam o conforto das elites.
Fé sequestrada pela política
O que se vê é um processo de partidarização da fé, mas não por parte da CNBB. Quem transforma a Campanha da Fraternidade em disputa ideológica são aqueles que tentam submeter à religião a um projeto político conservador, onde a fé serve para manter privilégios e silenciar denúncias sociais.
Ao rotular a campanha como “comunista”, esses setores esvaziam o próprio cristianismo, reduzindo-o a um moralismo de costumes e apagando sua dimensão social. Esquecem — ou fingem esquecer — que Jesus nasceu sem teto, viveu como pobre e anunciou um Reino que confronta injustiças.
Uma Igreja que incomoda
A Campanha da Fraternidade incomoda justamente porque toca na ferida. Falar de moradia é falar de abandono do Estado, de concentração de renda, de cidades planejadas para poucos. É questionar um sistema que lucra com a miséria e empurra milhões para a margem.
Se isso é chamado de “comunismo”, talvez o problema não esteja na campanha, mas na distorção do que parte da Igreja passou a entender como fé. Uma fé que se recusa a ver o sofrimento do outro deixa de ser cristã para se tornar apenas ideológica.
No fim das contas, a Campanha da Fraternidade cumpre seu papel histórico: provocar, denunciar e lembrar que o Evangelho não é neutro diante da injustiça. E toda vez que isso acontece alguém grita “comunismo” — não por zelo religioso, mas por medo de mudança.
Dom Helder Câmara disse uma frase que foi cirúrgica aos conservadores, e que até os dias de atuais os incomoda.
“Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista”. Dom Helder Câmara.
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