Reportagem: Fernando Garayo

Brasília – O veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos dispositivos que permitiriam supersalários na Câmara dos Deputados, no Senado Federal e no Tribunal de Contas da União (TCU) inaugurou uma nova frente de desgaste entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional. Ao mesmo tempo, a decisão reforça um discurso caro ao governo: o combate a privilégios no topo do funcionalismo público.
O veto barrou mecanismos como a chamada licença compensatória — benefício que poderia ser convertido em indenização em dinheiro e que, na prática, abriria caminho para rendimentos acima do teto constitucional, hoje atrelado ao salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Reação no Congresso
A decisão foi recebida com irritação nos bastidores do Legislativo. Parlamentares avaliam que o presidente “desidratou” acordos costurados internamente, sobretudo com as mesas diretoras da Câmara e do Senado. Há pressão para que os vetos sejam derrubados em sessão conjunta do Congresso, algo que exigiria maioria absoluta de deputados e senadores.
Líderes governistas, no entanto, admitem que o custo político de derrubar o veto é alto, especialmente diante da forte rejeição popular aos chamados “penduricalhos”. A leitura no Planalto é que poucos parlamentares estarão dispostos a assumir publicamente a defesa de salários que poderiam ultrapassar R$ 70 mil ou R$ 80 mil mensais.
Cálculo político do Planalto
No entorno de Lula, o veto é visto como uma decisão estratégica, não apenas fiscal. Em um momento de cobrança social por austeridade, o presidente buscou se diferenciar do Congresso e reforçar a imagem de defensor do teto constitucional.
O governo argumenta que permitir supersalários comprometeria a Lei de Responsabilidade Fiscal e criaria despesas permanentes sem lastro orçamentário. Mas, nos bastidores, auxiliares reconhecem que o gesto também dialoga diretamente com a opinião pública — especialmente com eleitores das classes média e trabalhadora.
Impacto eleitoral em 2026
O episódio tende a ganhar peso no debate eleitoral. Aliados do presidente avaliam que o veto pode ser explorado como símbolo de enfrentamento aos privilégios das elites do Estado, em contraste com pautas de ajuste que historicamente recaem sobre os mais pobres.
Já a oposição tenta construir a narrativa de que o governo faz discurso moralizante enquanto mantém alianças com o chamado “centrão”. Ainda assim, pesquisas internas indicam que o tema dos supersalários é um dos raros pontos de consenso na sociedade, com rejeição ampla e transversal.
Risco de derrota do veto
Apesar da pressão, a derrubada do veto é considerada difícil. Parlamentares avaliam que o tema pode gerar desgaste individual, sobretudo em um ambiente de redes sociais e fiscalização constante da imprensa. A tendência, hoje, é que os vetos sejam mantidos, ainda que à custa de mais um atrito entre Executivo e Legislativo.
Sinalização institucional
Ao vetar os dispositivos, Lula também envia um recado direto a órgãos de controle, tribunais e ao próprio Congresso: o teto constitucional não pode ser contornado por benefícios indiretos. A decisão se soma a outras iniciativas recentes do governo e do STF que tentam limitar gratificações e indenizações fora do salário-base.
Em resumo
O veto aos supersalários:
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Reforça o discurso de combate a privilégios
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Cria atrito com o Congresso, mas com baixo custo popular
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Dificulta a derrubada do veto por pressão da opinião pública
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Deve ser explorado politicamente nas eleições de 2026.

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