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Editorial-NJNoticias: O altar não é palanque: Flávio Bolsonaro compra uma guerra com a Igreja Católica

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Editorial-Nj Noticias

Quando um candidato acusa uma conferência de bispos de conspirar eleitoralmente sem apresentar provas, não está apenas disputando votos. Está colocando em xeque o respeito às instituições religiosas e aprofundando uma divisão que interessa à política, mas não à fé.

A política brasileira acaba de ganhar mais um capítulo de sua perigosa mistura entre religião e poder. Desta vez, o protagonista é Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, que resolveu apontar o dedo para a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), acusando integrantes da entidade de ajudar o PT a disseminar uma suposta fake news envolvendo Nossa Senhora Aparecida.

Em ato de campanha, no domingo, 27 de setembro, Flávio afirmou que pessoas de dentro da CNBB teriam colaborado com a divulgação do boato de que ele pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. A acusação foi feita sem apresentação de provas, e a entidade reagiu publicamente, negando qualquer participação na elaboração ou divulgação de informações falsas.

O episódio não é pequeno. Tampouco pode ser tratado como mais uma discussão passageira das redes sociais.

Flávio Bolsonaro abriu um confronto político direto com a principal entidade representativa do episcopado católico brasileiro. E, ao envolver os bispos numa acusação dessa gravidade, ultrapassou uma linha que merece atenção de todos os brasileiros, católicos ou não.

A questão central já não é somente Nossa Senhora Aparecida. É o uso da religião como arma eleitoral, a responsabilidade de quem disputa a Presidência da República e o respeito que se deve a instituições que não estão subordinadas a partidos políticos.

Uma acusação grave exige provas

A CNBB não é um comitê eleitoral, não é diretório partidário e não existe para trabalhar a favor de Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato.

É uma instituição religiosa que reúne os bispos católicos do Brasil e que, ao longo de sua história, manifesta posições sobre questões sociais, direitos humanos, democracia, pobreza e dignidade humana.

Pode ser criticada. Pode ser questionada. Seus posicionamentos podem e devem ser debatidos numa sociedade democrática.

O que não se pode admitir como prática política normal é acusar uma instituição inteira de participar de uma conspiração eleitoral sem apresentar evidências que sustentem a afirmação.

A resposta da CNBB foi categórica: a entidade declarou que não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral. Também afirmou que não integra estruturas político-partidárias e repudiou a atribuição de envolvimento em desinformação sem fatos e provas.

A frase que encerra o posicionamento dos bispos deveria ser lembrada por todos os candidatos: a mentira não se combate com outra mentira.

Se houve fabricação de notícias falsas, que os responsáveis sejam identificados e respondam por seus atos. Mas que se apresentem provas. A gravidade de uma acusação não dispensa a obrigação de demonstrá-la.

A fé de milhões de brasileiros não pode ser transformada em instrumento de intimidação política.

Nossa Senhora não pertence a partido algum

Nossa Senhora Aparecida é a Padroeira do Brasil. Sua devoção atravessa gerações, regiões, classes sociais e diferentes posições políticas.

Para milhões de católicos, representa fé, esperança, proteção e identidade religiosa. Não é propriedade de candidato, partido ou grupo ideológico.

O próprio Flávio Bolsonaro negou que exista projeto de sua autoria para retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. A campanha teve de reagir à circulação do boato, que ganhou força nas redes sociais e provocou uma disputa religiosa durante a eleição.

Uma informação falsa não se torna verdadeira porque favorece um adversário. Da mesma forma, a existência de uma notícia falsa não autoriza um candidato a atribuir sua fabricação a uma instituição religiosa sem demonstrar a responsabilidade de seus integrantes.

Há, ainda, um dado histórico relevante: um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli, ligado ao campo evangélico e posteriormente integrante do governo Bolsonaro, propôs retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A proposta foi arquivada em 2008. Isso não comprova qualquer intenção atual de Flávio Bolsonaro, mas ajuda a explicar a origem de parte da controvérsia.

A história não pode ser apagada conforme a conveniência eleitoral de cada momento. A devoção católica não pode ser utilizada como escudo para impedir questionamentos legítimos sobre a relação entre religião e poder.

A guerra contra os bispos e o projeto de poder

O confronto com a CNBB não acontece num vazio político.

Nos últimos anos, setores do catolicismo brasileiro e lideranças religiosas manifestaram preocupação com a democracia, a defesa dos direitos humanos, a preservação ambiental e a utilização da religião em disputas eleitorais.

A manifestação dos bispos não é, por si só, prova de apoio a uma candidatura. Defender princípios democráticos não equivale a fazer campanha para um partido.

Quando uma liderança política trata a crítica religiosa como conspiração partidária, abre-se espaço para uma interpretação perigosa: a de que instituições religiosas só merecem respeito quando concordam com determinado projeto político.

Isso não é liberdade religiosa. É uma tentativa de estabelecer quem pode falar em nome da fé e quais posições religiosas seriam aceitáveis no debate público.

A Igreja Católica tem o direito de se manifestar sobre a vida nacional. Os bispos têm o direito de defender a democracia, a justiça social e a liberdade de consciência. E os católicos têm o direito de discordar de seus pastores sem serem tratados como inimigos da própria religião.

O que não cabe numa democracia é exigir silêncio das instituições religiosas quando suas posições contrariam interesses eleitorais.

A contradição de quem diz defender a fé

Flávio Bolsonaro afirma respeitar todas as religiões e, no entanto, acusa integrantes da principal entidade episcopal católica do país de participação numa articulação política sem apresentar provas publicamente.

No dia seguinte às acusações, em 28 de setembro, o candidato elogiou uma nota da CNBB, agradeceu o esclarecimento e afirmou que respeita todas as religiões. Questionado sobre eventual arrependimento pelas acusações anteriores, não respondeu diretamente.

Respeitar os católicos não significa apenas erguer uma imagem de Nossa Senhora durante um ato de campanha. Significa também respeitar seus bispos quando eles apresentam posições que desagradam a um candidato.

A fé não pode funcionar como figurino eleitoral: vestida durante a campanha, abandonada quando exige compromisso com a verdade.

E não se pode reivindicar a proteção dos símbolos religiosos enquanto se coloca sob suspeita, sem provas, a instituição que representa milhões de fiéis.

Uma guerra que pode deixar marcas profundas

Ao atacar publicamente a CNBB, Flávio Bolsonaro abriu uma crise que pode aprofundar o distanciamento entre sua candidatura e setores importantes da Igreja Católica brasileira.

É cedo para afirmar que esse confronto representa um rompimento definitivo de toda a Igreja Católica com o candidato. A Igreja não é um bloco político homogêneo, e os católicos têm posições diversas. Há setores conservadores que apoiam o bolsonarismo, assim como há religiosos e leigos que o criticam.

Mas o episódio estabelece um marco político: a relação entre a candidatura do PL e a representação institucional dos bispos foi colocada sob forte tensão.

O que está em jogo é muito maior do que uma disputa entre Flávio Bolsonaro e a CNBB. É a tentativa de transformar a religião em território eleitoral, onde a fé passa a ser medida pela fidelidade a um projeto de poder.

O Brasil é um país de maioria cristã, mas não pertence a uma igreja, a um pastor, a um bispo ou a um candidato. A Constituição garante liberdade religiosa e estabelece a separação entre Estado e religião.

Nenhum candidato tem o direito de reivindicar exclusividade sobre Deus. Nenhum partido pode exigir que os símbolos sagrados sejam utilizados em sua campanha. E nenhuma instituição religiosa deve ser obrigada a silenciar diante de acusações políticas.

O altar não é palanque. A fé não é propriedade de partido. E Nossa Senhora Aparecida não precisa de autorização de candidato algum para continuar sendo a padroeira dos brasileiros.

Se Flávio Bolsonaro deseja governar o Brasil, precisa compreender que a Presidência da República não é uma extensão de sua família, de seu partido ou de qualquer grupo religioso.

A democracia exige respeito à divergência, responsabilidade nas palavras e compromisso com a verdade.

Atacar a CNBB sem provas pode render manchetes e mobilizar militantes. Mas não constrói diálogo com os católicos nem fortalece a liberdade religiosa.

O Brasil não precisa de uma guerra entre cristãos. Precisa de uma democracia em que católicos, evangélicos, pessoas de outras religiões e cidadãos sem religião possam conviver sem que a fé seja transformada em instrumento de poder.

Porque, quando a política tenta se apropriar de Deus, quem corre o risco de perder não é apenas a Igreja. É a própria democracia.

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