Reportagem Fernando Garayo

Senador fugiu após derrota nas eleições e descumprimento de determinação do STF para entrega de passaportes. Informações sobre a criação de um possível “governo paralelo” precisam ser esclarecidas publicamente.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado na disputa presidencial de 2026 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), chegou aos Estados Unidos nesta terça-feira (27), segundo informações confirmadas por um aliado à reportagem do UOL. A fuga ocorreu após uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a entrega dos passaportes do parlamentar à Polícia Federal.
A chegada de Flávio ao território norte-americano foi noticiada pelo UOL, que informou ter recebido a confirmação de um aliado do senador. A agência Reuters também noticiou a viagem com base em informações de um aliado próximo do parlamentar e de uma fonte do governo dos Estados Unidos. O trajeto utilizado para deixar o Brasil, entretanto, não havia sido esclarecido publicamente pelas fontes consultadas.
Ordem judicial descumprida
A viagem aconteceu depois que Flávio não cumpriu o prazo estabelecido para entregar seus passaportes à Polícia Federal. A determinação de Moraes foi tomada no âmbito de uma investigação que apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz. Os investigados negam irregularidades.
Na véspera da viagem, Flávio havia afirmado, em vídeo divulgado nas redes sociais, que entregaria os documentos e permaneceria no Brasil para organizar a oposição ao governo Lula.
A saída do país, portanto, contradiz a declaração pública feita pelo próprio senador na segunda-feira (26). A defesa de Flávio não havia respondido imediatamente aos pedidos de manifestação da Reuters sobre a viagem.
Dos Estados Unidos, uma nova estratégia política?
A ida de Flávio para os Estados Unidos abre uma nova etapa na disputa política após as eleições. O senador havia anunciado que pretendia organizar a oposição ao governo reeleito, mas sua transferência para o exterior levanta dúvidas sobre como essa articulação será conduzida.
Informações atribuídas a aliados sobre a possibilidade de organizar um chamado “governo paralelo” a partir dos Estados Unidos exigem esclarecimento. Até que haja confirmação documental, declaração pública do próprio senador ou apuração independente que detalhe a proposta, não é possível tratar a existência de um plano formal dessa natureza como fato comprovado.
Caso se confirme uma estratégia para coordenar a oposição a partir do exterior, será necessário distinguir a atuação política de um grupo oposicionista — atividade que pode ocorrer dentro dos limites legais — de qualquer tentativa de se apresentar como autoridade governamental sem legitimidade constitucional.
O Brasil possui instituições, regras constitucionais e procedimentos próprios para a formação e o exercício do governo. A oposição parlamentar, por sua vez, tem legitimidade para fiscalizar a administração pública, apresentar propostas e contestar decisões pelos meios legais.
A relação com Donald Trump
A escolha dos Estados Unidos como destino também chama atenção pelo histórico de aproximação política da família Bolsonaro com o presidente norte-americano Donald Trump. O irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, já se encontrava nos Estados Unidos, e aliados da família mantêm relações com setores conservadores da política norte-americana.
A eventual articulação de uma oposição brasileira em território estrangeiro pode gerar questionamentos diplomáticos, especialmente se houver pedidos de apoio externo para contestar decisões das instituições brasileiras. Entretanto, não há confirmação, nas informações consultadas, de que o governo Trump tenha assumido compromisso de apoiar um eventual governo paralelo de Flávio Bolsonaro.
Democracia, soberania e respeito às instituições.
A chegada do senador aos Estados Unidos acontece em um momento de tensão política, após a derrota eleitoral e o descumprimento da ordem judicial relacionada aos passaportes.
O episódio coloca em discussão os limites da atuação política no exterior, o cumprimento de decisões judiciais e a responsabilidade de lideranças que pretendem representar parcelas da população brasileira.
Flávio Bolsonaro ainda precisa esclarecer publicamente os motivos da viagem, a forma como deixou o país e quais são seus planos para a oposição. Também cabe às autoridades competentes esclarecer eventuais consequências jurídicas do descumprimento da determinação judicial.
Em uma democracia, a oposição tem espaço legítimo para atuar, criticar e disputar projetos políticos. Mas a disputa pelo poder deve respeitar a Constituição, a soberania nacional e as regras que garantem a legitimidade das instituições.
Fontes: UOL, reportagem de Mariana Sanches, Natália Portinari e Janaína Figueiredo, atualizada em 27 de outubro de 2026; Reuters, reportagem de Ricardo Brito e Gram Slattery, publicada em 27 de outubro de 2026.
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