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Flávio presidente: o fim do sonho de Tarcísio para 2030

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Por Fernando Garayo

Fernando Garayo-Jornalista- Cientista Politico

Se Flávio Bolsonaro chegar ao Palácio do Planalto em 2027, uma coisa estará praticamente definida antes mesmo de seu governo começar: o projeto de Tarcísio de Freitas para disputar a Presidência da República em 2030 ficará seriamente comprometido.

E não é uma questão apenas eleitoral. É uma questão de poder. Tarcísio construiu, ao longo dos últimos anos, uma trajetória que o colocou como um dos principais nomes da direita brasileira para a sucessão presidencial. A reeleição em São Paulo, conquistada no primeiro turno com 62,65% dos votos válidos, reforçou essa condição. Analistas já apontavam o governador como um dos nomes mais fortes para 2030.

Mas existe um detalhe que pode mudar completamente esse roteiro: Flávio Bolsonaro.

Durante a campanha de 2026, o próprio Flávio tratou Tarcísio como um dos grandes nomes da direita para 2030. Ao mesmo tempo, porém, apresentou uma proposta que pode funcionar como uma espécie de seguro político para o bolsonarismo: acabar com a reeleição para presidente.

Se Flávio vencer a eleição e transformar essa promessa em realidade, Tarcísio poderá descobrir que aquilo que parecia ser uma ponte para o Planalto se transformou em uma barreira.

Imagine o cenário. Flávio Bolsonaro assume a Presidência em janeiro de 2027. Tarcísio inicia seu segundo mandato no governo de São Paulo. Ambos pertencem ao mesmo campo político. Ambos disputarão a liderança da direita. Ambos terão projetos nacionais, mas somente um estará sentado na cadeira presidencial.

E quem está no poder federal tem uma vantagem gigantesca sobre quem pretende chegar a ele. O presidente controla a agenda política nacional, influencia a formação das alianças, participa das grandes decisões econômicas, tem exposição permanente e dispõe de uma máquina política muito mais poderosa.

Tarcísio teria de construir uma candidatura presidencial contra um presidente do próprio campo político. Isso seria politicamente muito mais difícil do que disputar contra um adversário de outro espectro ideológico.

O problema ficaria ainda maior se Flávio conseguisse aprovar o fim da reeleição. Nesse caso, a direita poderia simplesmente fechar questão em torno da continuidade do projeto Bolsonaro.

E aí surge a pergunta incômoda: por que o bolsonarismo abandonaria o poder em 2030 depois de conquistar o Planalto em 2026?

Tarcísio não apenas se tornou um dos principais nomes da direita. Ele também ajudou diretamente na campanha de Flávio em São Paulo.

Depois de sua vitória para o segundo mandato, o governador deixou claro que sua prioridade naquele momento era ajudar Flávio a vencer a disputa presidencial.

Ou seja: Tarcísio pode estar ajudando a eleger o homem que, posteriormente, poderá ocupar justamente o espaço que ele imaginava ocupar.

É a velha lógica da política: às vezes, você ajuda alguém a subir a escada e só depois percebe que a escada terminava na porta que você queria atravessar.

O projeto Tarcísio 2030

Tarcísio venceria novamente São Paulo em 2026, consolidaria sua gestão, ampliaria sua liderança nacional e chegaria a 2030 como candidato natural da direita.

Essa hipótese chegou a ser discutida abertamente por setores do centro e da direita. O próprio governador admitiu, em agosto, que talvez disputasse a Presidência no futuro. Só que política não é uma linha reta. A eleição de Flávio pode alterar completamente esse mapa.

Se Flávio vencer, o sobrenome Bolsonaro continuará no centro do poder nacional. E, em política, poder produz poder. O presidente terá quatro anos para construir uma base, distribuir espaços, formar alianças e preparar sua sucessão. Tarcísio, por sua vez, terá de decidir entre ser protagonista ou permanecer como aliado.

O maior risco para Tarcísio: o maior risco talvez nem seja Flávio disputar novamente em 2030. O maior risco é o bolsonarismo entender que Tarcísio não precisa ser o sucessor porque o próprio grupo pode produzir outro nome. A direita brasileira possui outros governadores, senadores, deputados e lideranças capazes de disputar o Planalto.

Existe ainda uma questão fundamental: se Flávio se tornar presidente, a família Bolsonaro recuperará aquilo que perdeu com a derrota de Jair Bolsonaro em 2022: o controle direto da máquina federal. Nesse cenário, Tarcísio deixaria de ser o “herdeiro natural” da direita e passaria a ser apenas um dos possíveis sucessores.

A política tem memória e também tem cobrança

Tarcísio construiu sua carreira política dentro do campo bolsonarista, mas também tentou preservar uma imagem própria. Durante a eleição paulista, procurou apresentar-se como gestor, evitando transformar sua campanha em uma guerra ideológica permanente. Ainda assim, sua vitória o colocou definitivamente no radar nacional.

Agora, entretanto, terá de administrar uma equação delicada. Se Flávio vencer, Tarcísio precisará escolher entre fidelidade ao projeto Bolsonaro e construção de uma alternativa própria.

E quanto mais tempo permanecer subordinado politicamente ao presidente, menor poderá ser seu espaço para se apresentar como alternativa ao próprio grupo que governa o país.

A sucessão presidencial de 2030 começaria, portanto, no dia seguinte à posse de Flávio. E não seria uma sucessão tranquila.

Flávio pode enterrar 2030 de Tarcísio?

Não necessariamente. Mas pode colocar uma enorme pá de cal sobre aquilo que parecia ser o caminho natural de Tarcísio até o Planalto.

O governador ainda teria uma alternativa: construir uma liderança própria, ampliar sua interlocução com o centro, fortalecer sua imagem administrativa e mostrar que é mais do que um representante do bolsonarismo.

O problema é que isso exigiria uma ruptura ou pelo menos uma distância em relação ao grupo que o levou até onde está.

Para chegar ao Planalto, ele precisa deixar de ser apenas o candidato de Bolsonaro. Mas, se Flávio for presidente, romper com Bolsonaro poderá significar enfrentar justamente o grupo que estará no poder.

A eleição de Flávio, portanto, não mataria necessariamente a candidatura Tarcísio. Mas poderia enterrá-la como projeto natural da direita.

Tarcísio teria de reconstruí-la praticamente do zero. Existe uma última ironia nessa história. O homem que hoje sonha em ser presidente em 2030 poderá terminar seu segundo mandato em São Paulo percebendo que fez uma escolha que mudou o calendário da própria ambição.

Porque, na política, nem sempre aquele que você ajuda a chegar ao poder abre caminho para você. Às vezes, ele ocupa o caminho inteiro.

 

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