Por Fernando Garayo

Há uma pergunta que atravessa a história da filosofia política como uma sombra: como uma sociedade que conhece a liberdade pode, um dia, aceitar a própria perda da liberdade?
A pergunta não nasceu no Brasil. Ela percorreu os escombros da Europa depois das duas grandes guerras, passou pelas experiências do nazismo e do stalinismo e encontrou na filósofa política Hannah Arendt uma de suas interpretações mais profundas.
Em Origens do Totalitarismo, publicado originalmente em 1951, Arendt procurou compreender como fenômenos políticos aparentemente distintos haviam produzido formas inéditas de dominação. O livro examina o antissemitismo, o imperialismo e, finalmente, o totalitarismo, concentrando-se especialmente no nazismo alemão e no stalinismo soviético.
Para Arendt, o totalitarismo não era simplesmente uma ditadura mais violenta. Era uma forma política diferente, capaz de transformar a própria percepção da realidade. Propaganda, ideologia, isolamento social, destruição da pluralidade e utilização sistemática do terror constituíam elementos de um sistema que procurava dominar não apenas o comportamento dos indivíduos, mas também sua capacidade de pensar e distinguir realidade de ficção.
É aqui que a filosofia encontra o Brasil contemporâneo.
Não porque o Brasil de 2026 seja uma Alemanha de 1933. Não é.
E Flávio Bolsonaro não pode ser simplesmente colocado na mesma categoria histórica de Hitler ou Stalin. Comparações dessa natureza, além de historicamente inadequadas, empobrecem a compreensão do fenômeno. O problema filosófico é outro.
É preciso reconhecer os mecanismos antes que eles se transformem em regime.
O totalitarismo não começa necessariamente com tanques nas ruas. A história ensina uma coisa desconfortável: regimes autoritários não precisam necessariamente chegar ao poder anunciando que pretendem acabar com a democracia. Algumas vezes, chegam falando em restaurá-la.
Essa questão ganhou atualidade no Brasil depois de declarações recentes de Flávio Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2026. Segundo reportagem publicada pelo The Guardian, o candidato afirmou que seria necessário “redemocratizar” o país e falou em utilizar a força política conquistada no Congresso para promover mudanças constitucionais. Analistas ouvidos pelo jornal interpretaram a linguagem como possível sinal de uma estratégia de transformação das instituições por dentro.
A palavra merece atenção: redemocratizar.
Uma democracia não pode ser propriedade de um governante. Ela pertence à sociedade, à Constituição, às instituições e à pluralidade política.
Quando alguém afirma que precisa “redemocratizar” uma democracia existente, a primeira pergunta filosófica deveria ser: redemocratizar significa ampliar a democracia ou redefinir quem terá o poder de dizer o que é democracia?
Essa diferença pode parecer apenas semântica. Não é.
De Platão a Montesquieu: o problema do poder
Muito antes de Arendt, Platão, em A República, já refletia sobre a degeneração dos regimes políticos. Para ele, a democracia poderia ser corroída quando a liberdade se transformasse em ausência de limites e quando líderes surgissem prometendo representar diretamente a vontade do povo contra as instituições.
Séculos depois, Montesquieu, em O Espírito das Leis, formulou uma das ideias fundamentais do constitucionalismo moderno: o poder precisa encontrar outro poder capaz de limitá-lo.
Daí nasce à separação entre Executivo, Legislativo e Judiciário.
Não se trata de burocracia. Trata-se de uma pergunta elementar: Quem controla quem controla o Estado?
A democracia não existe porque elegemos um presidente. Existe porque o presidente eleito também encontra limites.
Uma eleição entrega poder, mas não entrega poder absoluto.
Tocqueville e a liberdade que pode morrer pela própria sociedade, Alexis de Tocqueville, em A Democracia na América, percebeu outro problema: a democracia depende de costumes, instituições e associações civis capazes de impedir que a maioria transforme sua força num instrumento de esmagamento das minorias.
Uma democracia saudável precisa suportar o contraditório.
Precisa conviver com o adversário.
Precisa aceitar a imprensa crítica.
Precisa permitir oposição.
Precisa preservar a autonomia do Judiciário.
Precisa respeitar resultados eleitorais mesmo quando eles desagradam.
É justamente por isso que a democracia é mais difícil do que a ditadura.
A ditadura resolve o conflito eliminando o conflito.
A democracia precisa administrar o conflito sem eliminar o adversário.
Hannah Arendt e a fabricação de uma realidade paralela
É nesse ponto que Hannah Arendt permanece extraordinariamente atual.
Um dos elementos analisados por Arendt é a propaganda. Ela percebeu que regimes totalitários precisavam destruir a confiança das pessoas na realidade compartilhada.
Quando cada grupo passa a viver dentro de sua própria realidade, o espaço público desaparece. A mentira deixa de ser apenas uma mentira. Ela passa a ser uma arma política.
O problema contemporâneo tornou-se ainda mais complexo com as redes sociais, os algoritmos, a desinformação e a velocidade com que uma afirmação falsa pode atingir milhões de pessoas. Arendt escreveu antes da internet. Mas sua pergunta permanece: O que acontece com uma sociedade quando seus cidadãos deixam de compartilhar até mesmo os fatos básicos sobre o mundo em que vivem?
A resposta é inquietante: torna-se mais fácil transformar ressentimento em mobilização política.
Um estudo publicado pela Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF) sobre o totalitarismo e o Brasil chama atenção justamente para a permanência de elementos como desigualdade, ressentimento, simplificação da realidade, captura de reivindicações e incitação à violência como fatores que podem alimentar estratégias políticas extremistas.
O perigo brasileiro não é repetir 1933
O Brasil possui sua própria história.
Teve escravidão.
Teve República oligárquica.
Teve golpes.
Teve Estado Novo.
Teve ditadura militar.
Teve redemocratização.
Teve a Constituição de 1988.
Teve, mais recentemente, uma tentativa de ruptura institucional associada ao pós-eleição de 2022, cuja responsabilização alcançou o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros envolvidos, segundo decisões e registros amplamente divulgados.
Nesse contexto, qualquer projeto político que proponha alterar profundamente as instituições democráticas precisa ser examinado não apenas pelo discurso de campanha, mas por suas propostas concretas, antecedentes e relação com os mecanismos de controle do poder. Isso vale para qualquer candidato.
Mas, no caso de uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro, a discussão ganha uma dimensão particular porque o candidato pertence à mesma família política de Jair Bolsonaro e porque existem registros públicos de posições de Flávio relacionadas à ditadura militar, às Forças Armadas, às urnas eletrônicas e a outras pautas institucionais. Reportagem da Folha de S.Paulo recuperou posições expressas por Flávio em livro publicado em 2017, sobre Jair Bolsonaro é “Jair Messias Bolsonaro: Mito ou Verdade”. incluindo a negação de que 1964 tenha sido um golpe e elogios ao coronel Brilhante Ustra.
Isso não permite concluir automaticamente que um eventual governo seria totalitário.
Mas permite formular uma pergunta legítima:
O que aconteceria se um projeto político com essas referências encontrasse uma maioria parlamentar suficientemente ampla para alterar instituições, leis e mecanismos de controle?
Essa é a pergunta que uma democracia madura deveria fazer antes — e não depois — de entregar poder.
O verdadeiro teste não é vencer a eleição. Uma eleição é o começo do exercício do poder, não o fim da democracia. O verdadeiro teste de qualquer presidente eleito é sua relação com aqueles que podem dizer “não”.
O presidente aceita uma decisão judicial que considera errada?
Aceita uma imprensa que o critica?
Aceita uma oposição que o acusa?
Aceita manifestações contra seu governo?
Aceita instituições independentes?
Aceita perder uma votação no Congresso?
Aceita deixar o poder quando terminar seu mandato?
Aceita uma eleição cujo resultado lhe seja desfavorável?
Essas perguntas talvez sejam mais importantes do que qualquer discurso de campanha.
Porque, filosoficamente, a democracia não se mede apenas pela maneira como alguém chega ao poder. Mede-se principalmente pela maneira como exerce o poder e pela maneira como deixa o poder.
O autoritarismo do século XXI pode usar a Constituição
Essa talvez seja uma das maiores lições políticas do nosso tempo. O autoritarismo contemporâneo não precisa necessariamente abolir a Constituição no primeiro dia.
Pode tentar modificá-la.
Não precisa necessariamente fechar o Congresso.
Pode tentar submetê-lo.
Não precisa necessariamente extinguir o Judiciário.
Pode tentar ocupá-lo, enfraquecê-lo ou alterar sua composição.
Não precisa necessariamente proibir jornais.
Pode tentar desacreditá-los até que parte da sociedade deixe de acreditar em qualquer informação que contrarie seu grupo político.
É por isso que a expressão “democracia por dentro” é tão importante.
A democracia pode ser destruída por um golpe. Mas também pode ser lentamente esvaziada por decisões aparentemente legais, tomadas uma após outra, até que as instituições continuem existindo no papel, mas tenham perdido sua capacidade de limitar o poder.
Esse fenômeno tem sido estudado pela ciência política contemporânea em diferentes experiências internacionais.
É exatamente aqui que a reflexão de Arendt encontra autores posteriores.
Raymond Aron, em Democracia e Totalitarismo, examinou as diferenças entre regimes constitucionais e regimes totalitários.
Claude Lefort, em A Invenção Democrática, destacou uma característica essencial da democracia: o poder democrático não pertence definitivamente a ninguém. O lugar do poder permanece, em certo sentido, vazio e sujeito à disputa pública.
E George Orwell, em 1984, embora escritor e não filósofo acadêmico transformou em literatura uma das advertências políticas mais poderosas do século XX: quando o poder consegue controlar a linguagem e a memória, também pode tentar controlar aquilo que uma sociedade considera realidade.
O Brasil diante do espelho
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro não significaria, automaticamente, a instalação de um regime totalitário. Essa conclusão seria historicamente precipitada.
O Brasil continuaria tendo Constituição, Congresso, Judiciário, imprensa, eleições, governos estaduais e sociedade civil.
Mas uma vitória eleitoral poderia abrir uma nova etapa de disputa sobre essas instituições — especialmente diante das declarações e propostas que vêm sendo apresentadas na campanha de 2026 e das interpretações de analistas sobre seus possíveis efeitos.
Por isso, a pergunta fundamental não deveria ser apenas:
“Quem vai governar o Brasil”?
Deveria ser: “Quais limites o próximo governo aceitará para o próprio poder”?
Essa é uma pergunta mais profunda. Porque o perigo para uma democracia não está somente no homem que deseja poder absoluto.
Está também na sociedade que, cansada ressentida ou amedrontada, começa a acreditar que um homem forte seria mais eficiente do que instituições fortes.
Foi contra essa tentação que a filosofia política construiu séculos de reflexão.
Montesquieu ensinou que o poder precisa limitar o poder.
Tocqueville mostrou que a democracia depende de uma cultura de liberdade.
Orwell alertou para o controle da linguagem e da verdade.
Arendt mostrou como massas isoladas, propaganda, ideologia e destruição da realidade compartilhada podem preparar o terreno para formas extremas de dominação.
E a história brasileira acrescenta uma advertência própria: a democracia brasileira não caiu uma única vez. Ela já foi interrompida antes.
A pergunta mais importante para 2026 não seja se o Brasil corre o risco de repetir literalmente o século XX. Não correrá.
A história nunca se repete exatamente.
O perigo é outro: o século XXI pode inventar suas próprias formas de autoritarismo.
Uma democracia vigilante precisa reconhecê-las antes que recebam outro nome.
Como sugere a reflexão de Arendt, a liberdade não desaparece apenas quando alguém fecha uma porta. Começa a desaparecer quando uma sociedade deixa de perceber que alguém está construindo a porta.
Essa a maior lição de “As Origens do Totalitarismo”: o totalitarismo não deve ser estudado apenas para compreender como algumas democracias morreram no passado, mas para compreender quais condições podem permitir que a liberdade seja novamente colocada em perigo.
Deixo aqui uma dica de leitura para os leitores que deve ser estudado: “As Origens do Totalitarismo”, de Hannah Arendt.
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