27.6 C
Limeira

O filho que imita o pai: a fuga de Flávio Bolsonaro e a força da democracia brasileira

- PUBLICIDADE -spot_img

Precisa ler isso...

Israel Aparecido Gonçalves

Prof Israel Aparecido Gonçalves

Perder ou ganhar uma eleição faz parte do jogo democrático. Desde 1989, quando o Brasil voltou a eleger diretamente o presidente da República, os derrotados aceitaram o resultado e continuaram no país. Fernando Collor venceu Lula em 1989. Fernando Henrique Cardoso derrotou Lula em 1994 e em 1998. Lula venceu José Serra em 2002 e Geraldo Alckmin em 2006. Dilma Rousseff derrotou Serra em 2010 e Aécio Neves em 2014. Em 2018, Fernando Haddad perdeu para Jair Bolsonaro. Todos os derrotados permaneceram no Brasil, econheceram as urnas e seguiram fazendo política. Isso não é detalhe: é a essência da democracia.
A exceção começou com o bolsonarismo. Em 30 de dezembro de 2022, a um dia do fim do mandato, Jair Bolsonaro deixou o país rumo aos Estados Unidos, sem passar a faixa presidencial ao sucessor eleito. Enquanto ele estava na Flórida, seus apoiadores invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. Bolsonaro só voltou em 30 de março. Saiu pela porta dos fundos e deixou a conta para o país.
Agora, o filho imita o pai. No dia 25 de outubro, Lula protagonizou uma virada inédita: depois de terminar o primeiro turno atrás, venceu o segundo com 51,79% dos votos válidos, mais de 4,4 milhões de votos à frente de Flávio Bolsonaro, segundo o TSE. Dois dias depois, na terça-feira, 27 de outubro, o senador deixou o Brasil de forma sorrateira. Cruzou a fronteira com a Argentina à noite, embarcou em um jato particular em Puerto Iguazú, fez escala em Guayaquil, no Equador, e pousou em Miami, onde posou para fotos ao lado do
irmão Eduardo. Segundo a imprensa, entrou na Argentina com passaporte italiano, mesmo depois de o ministro Alexandre de Moraes ter determinado a entrega de seus passaportes, porque a Polícia Federal apontou risco de fuga.
Já nos Estados Unidos, divulgou uma carta em que dizia, sem apresentar provas, que a eleição tinha sido fraudada e se apresentava como “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. O documento foi reescrito mais de uma vez em poucas horas: em uma das versões, o brasão trazia o nome “Estados Unidos do Brazil”, usado no início da República. Na versão final, ele deixou de ser “presidente” e passou a se chamar “líder do Brasil”.
Mas que líder é esse, que precisa fugir do próprio país? Que líder é esse, que não consegue sequer liderar o próprio campo político? A autoproclamação não teve apoio nem dentro de casa. O líder da oposição no Senado, Rogério Marinho, afirmou que não há provas de fraude. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, disse não ter gostado da carta. Tarcísio de Freitas defendeu o respeito ao resultado das urnas. No exterior, mesmo líderes da direita, como Kast, no Chile, Peña, no Paraguai, e Noboa, no Equador, reconheceram a vitória de Lula.

E aqui está o paradoxo. O bolsonarismo perdeu a Presidência, mas não foi derrotado nas urnas como movimento. Flávio recebeu quase 60 milhões de votos. O PL elegeu 121 deputados federais, a maior bancada da Câmara, e 19 senadores, e a partir de 2027 terá 28 cadeiras no Senado, a maior bancada de um único partido na história da República. É um capital político robusto, que permitiria liderar uma oposição forte e legítima no Congresso. O “líder natural” desse campo, porém, escolheu a fuga.
Por quê? Não se foge de uma democracia; foge-se da Justiça. Flávio
Bolsonaro é investigado em três inquéritos da Polícia Federal, entre eles um por lavagem de dinheiro. Ainda não há condenação, e ele tem direito à defesa, como qualquer cidadão. Mas é exatamente aí que está a diferença: em uma democracia, quem se diz inocente se defende nos tribunais, não em um condomínio em Miami.
O Brasil vive em plena democracia. As urnas foram reconhecidas pelo TSE e por observadores internacionais, a oposição terá deputados, senadores e governadores eleitos, e o jogo político seguirá em 2027 como manda a Constituição. Quem não cabe nela é quem, ao perder, prefere fugir a reconhecer a derrota. O pai mostrou o caminho em 2022; o filho apenas o repetiu. A democracia brasileira, mais uma vez, mostrou-se maior do que eles.
Israel Aparecido Gonçalves é Doutor em Sociologia e Ciência Política pela Universidade Federa de Santa Catarina (UFSC) e Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Organizador da obra Sociologia e Direito vol. 06, 2026, editora Catarina de Alexandria.

Banner Publicitário

Descubra mais sobre NJ Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Mais notícias...

Deixe uma resposta

- PUBLICIDADE -spot_img

Ultimas Notícias