Reportagem especial | NJ Notícias

O monitoramento de bispos católicos durante o governo Jair Bolsonaro reacende um alerta sobre o futuro da Igreja Católica no Brasil e a relação entre o poder político e a liberdade religiosa. Com as eleições presidenciais de 2026 no horizonte, o episódio envolvendo a chamada Abin Paralela levanta questionamentos sobre o que pode acontecer com instituições religiosas que não se submetam às orientações políticas de um eventual governo alinhado ao bolsonarismo.
O caso é particularmente relevante diante da possibilidade de Flávio Bolsonaro chegar à Presidência da República. A questão não envolve apenas divergências ideológicas entre setores da Igreja e a direita brasileira, mas a preservação da autonomia das instituições religiosas, da liberdade de expressão e do direito constitucional de criticar os governantes.
O histórico de vigilância de religiosos críticos ao governo anterior constitui um elemento concreto para esse debate.
- A Igreja Católica na mira do poder político
Em junho de 2025, reportagens de O Globo, CBN e Metrópoles revelaram informações extraídas das investigações da Polícia Federal sobre a utilização clandestina da Agência Brasileira de Inteligência durante o governo Bolsonaro.
Segundo a PF, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), então chefiado pelo general Augusto Heleno, solicitou à Abin a elaboração de perfis de 152 bispos católicos que haviam assinado, em julho de 2020, a chamada “Carta ao Povo de Deus”.
A carta expressava preocupação com a condução do país durante a pandemia de Covid-19, apontando problemas na saúde pública, na economia, na educação e na preservação dos direitos fundamentais.
Os bispos exerceram um direito legítimo: o de se manifestar sobre os rumos do Brasil. Entretanto, conforme as apurações da Polícia Federal, a estrutura de inteligência do Estado foi acionada para levantar informações sobre religiosos que haviam criticado o governo federal.
O episódio, investigado como parte do esquema conhecido como Abin Paralela, colocou a Igreja Católica diante de uma situação que ultrapassa as divergências políticas e religiosas: a possibilidade de utilização de recursos públicos de inteligência para vigiar cidadãos e instituições por suas posições críticas ao governo.
A gravidade do caso está justamente nisso. Não se tratava de uma investigação sobre crimes praticados pelos bispos, mas de levantamentos motivados pela manifestação pública de suas posições políticas e sociais, conforme os elementos divulgados pela PF.
- Flávio Bolsonaro e o futuro da relação com a Igreja
A candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, em 2026, recoloca esse histórico no centro do debate nacional.
É necessário fazer uma distinção: não há, nas informações apresentadas, comprovação de que Flávio tenha ordenado à vigilância dos bispos, nem de que pretenda repetir as ações atribuídas ao governo de seu pai. Também não se pode afirmar que uma eventual vitória eleitoral resultaria automaticamente em perseguição à Igreja Católica.
Mas existe uma questão legítima para o debate público: quais garantias de autonomia, liberdade religiosa e respeito às instituições seriam oferecidas a uma Igreja que, em determinados momentos, se opõe às políticas de um governo?
O histórico da Abin Paralela torna essa pergunta especialmente relevante.
Em setembro de 2026, Flávio intensificou o uso de referências religiosas em sua campanha e associou sua possível chegada ao Planalto a um propósito de Deus para o Brasil. Também declarou que, caso eleito, pretende promover mudanças na composição do Supremo Tribunal Federal.
Em discurso de campanha, afirmou que um de seus primeiros atos seria declarar que o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo. A declaração, por si só, não comprova intenção de restringir a liberdade de outras religiões. Contudo, abre espaço para uma discussão sobre a separação entre convicção religiosa pessoal, discurso eleitoral e os deveres constitucionais de um presidente de todos os brasileiros.
A preocupação da Igreja Católica não deve ser interpretada como uma disputa entre católicos e evangélicos. O problema surge quando qualquer grupo religioso ou político pretende transformar suas convicções particulares em obrigação para toda a sociedade.
O Estado brasileiro é laico. A Constituição protege a liberdade de consciência e de crença e impede que o poder público estabeleça uma religião oficial.
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro não alteraria esses princípios constitucionais. O que merece atenção é a maneira como um futuro governo trataria as instituições que defendem sua aplicação, inclusive quando suas manifestações contrariam interesses do Executivo.
- Quando a Igreja critica o governo, quem protege os bispos?
A história recente mostra que a tensão entre setores do bolsonarismo e a Igreja Católica não se limita à pandemia.
Em 2026, a campanha presidencial passou a incorporar referências religiosas de maneira mais intensa. A disputa em torno de Nossa Senhora Aparecida também ganhou espaço, depois da circulação de informações sobre uma suposta intenção de Flávio Bolsonaro de retirar o título de Padroeira do Brasil da Santa.
O próprio senador negou a existência de qualquer projeto nesse sentido. A proposta legislativa mencionada nas publicações era de 2007 e havia sido arquivada no ano seguinte.
É importante separar a desinformação dos fatos comprovados. A existência de um projeto antigo, arquivado, não prova que o candidato pretenda retomá-lo. Tampouco se pode atribuir ao candidato toda manifestação de seus apoiadores.
Entretanto, a controvérsia demonstra como símbolos religiosos podem ser utilizados na disputa política e eleitoral.
A CNBB, por sua vez, reafirmou em sua mensagem para as eleições de 2026 que a Igreja não indica candidatos nem partidos, mas defende a participação consciente dos cidadãos, a dignidade humana e o bem comum.
Essa posição é fundamental para compreender a autonomia da instituição. A Igreja não precisa apoiar determinado candidato para defender princípios constitucionais, denunciar injustiças ou criticar decisões governamentais.
E nenhum governo deveria interpretar essas manifestações como atos de oposição que justifiquem vigilância estatal.
- A democracia não pode escolher quais religiosos têm direito à palavra
O caso dos 152 bispos monitorados pela Abin durante o governo Bolsonaro deixa uma pergunta que precisa ser respondida pelas forças políticas que disputam o comando do país: a liberdade religiosa vale também para os religiosos que criticam o governo?
A resposta constitucional é inequívoca. Católicos, evangélicos, espíritas, religiões de matriz africana e pessoas sem religião possuem os mesmos direitos fundamentais.
A liberdade religiosa não se resume à possibilidade de frequentar templos ou realizar cerimônias. Ela também compreende o direito de expressar posições sobre a sociedade, denunciar violações de direitos e participar do debate público, respeitados os limites legais aplicáveis a todos.
Uma Igreja submetida ao silêncio por pressão política deixa de exercer plenamente sua autonomia. E uma estrutura de inteligência utilizada para identificar críticos do governo ameaça não apenas os bispos, mas qualquer cidadão que discorde dos ocupantes do poder.
A eventual eleição de Flávio Bolsonaro, portanto, deve ser analisada à luz de compromissos verificáveis com a Constituição, com a liberdade religiosa e com a proibição de uso político dos órgãos de Estado — não por suposições sobre suas intenções pessoais.
O histórico de seu pai e as investigações sobre a Abin Paralela são fatos relevantes para essa avaliação pública. As garantias que Flávio apresentaria para impedir a repetição de práticas semelhantes também constituem uma questão legítima a ser respondida durante a campanha.
Conclusão: a liberdade da Igreja não pode depender de quem ocupa o Planalto
O Brasil não pode aceitar que a liberdade de uma instituição religiosa dependa de sua proximidade com o presidente da República.
A Igreja Católica tem o direito de criticar governos. Os evangélicos têm o mesmo direito. E qualquer governo eleito democraticamente tem o dever de respeitar essa liberdade, mesmo quando as críticas partem de instituições que discordam de suas políticas.
O episódio dos 152 bispos monitorados durante o governo Jair Bolsonaro permanece como um alerta institucional. A investigação da Polícia Federal exige esclarecimento e responsabilização conforme a lei, e o país precisam de garantias para que estruturas de inteligência jamais sejam empregadas contra críticos políticos ou religiosos.
O perigo para a Igreja Católica não está simplesmente na eleição de um candidato evangélico, conservador ou de direita. Está na possibilidade de que qualquer governo, independentemente de sua orientação ideológica ou religiosa, confunda poder político com autoridade sobre a consciência dos cidadãos.
A fé pertence aos fiéis. O Estado pertence a todos os brasileiros. E nenhum presidente tem o direito de transformar a divergência religiosa ou política em motivo para perseguição.
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