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Jesus, o chicote e o Pix de Deus.

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Por Fernando Garayo

Há uma cena nos Evangelhos que deveria ser exibida em telão, com som Dolby Surround, em toda igreja que transforma o púlpito em palanque e o altar em balcão de negócios.

Jesus entra no Templo.

E encontra vendedores.

Cambistas.

Dinheiro.

Comércio.

Mercadoria.

E então acontece uma coisa curiosa: o homem que pregava amor, perdão, misericórdia e a outra face resolve derrubar mesas.

Em João, a cena é ainda mais contundente: Jesus faz um chicote de cordas, expulsa os comerciantes, vira as mesas e espalha o dinheiro dos cambistas.

Calma, pastor.

Não precisa esconder o chicote.

A reflexão vem depois.

Porque talvez o detalhe mais importante da história não seja a violência da cena.

Seja contra quem Jesus se indignou.

Ele não entrou no Templo procurando a prostituta para humilhar.

Não foi atrás do pecador para lhe dar sermão.

Não perseguiu o cobrador de impostos para transformar sua vida num espetáculo.

Ele encontrou comércio dentro da casa de oração e resolveu acabar com a feira.

Mateus registra que Jesus expulsou vendedores, derrubou mesas de cambistas e denunciou a transformação da casa de oração em “covil de ladrões”.

Ou seja: aparentemente, naquela ocasião, Jesus estava menos preocupado com o pecador do que com quem fazia dinheiro em nome de Deus.

E aí começa a parte desagradável.

Porque, se Jesus resolvesse fazer hoje uma visita a alguns templos brasileiros, talvez precisasse contratar uma empresa de mudanças.

Não faltariam mesas.

E muito menos dinheiro.

O milagre da multiplicação… Da arrecadação

Antigamente havia cambista.

Hoje há maquininha.

Antigamente havia vendedor de pombas.

Hoje há cartão, PIX, boleto, carnê, contribuição, campanha, propósito, envelope e, dependendo do endereço, uma verdadeira engenharia financeira celestial.

É o capitalismo com trilha sonora gospel.

Você dá aqui e recebe ali.

Plante uma semente.

Faça um sacrifício.

Contribua.

Determine.

Profetize.

E, se a bênção não chegar, talvez seja porque você não teve fé suficiente.

Nunca porque a promessa era boa demais para ser verdade.

É um modelo comercial extraordinário.

A única coisa que ainda falta é o SAC celestial:

“A bênção não chegou? Digite 1 para renovar a oferta.”

Deus virou cabo eleitoral?

Mas existe algo ainda mais interessante.

Quando o dinheiro produzido pela fé começa a gerar poder, a história muda de patamar.

O templo deixa de ser apenas templo.

O pastor deixa de ser apenas pastor.

O fiel deixa de ser apenas fiel.

E surge o eleitor.

Pronto. Temos a fórmula perfeita:

fé + dinheiro + televisão + redes sociais + política = poder.

E aí aparece a pergunta que ninguém gosta de fazer:

quando o pastor pede voto em nome de Deus, quem está falando: Deus ou o pastor?

Porque uma coisa é o cidadão dizer:

“Minha fé influencia minhas escolhas políticas.”

Perfeitamente legítimo.

Outra coisa é alguém afirmar:

“Deus escolheu este candidato.”

Aí complica.

Porque, se Deus realmente passou a fazer campanha eleitoral, alguém precisa nos informar o número do título de eleitor celestial.

O candidato ungido

No Brasil, assistimos nos últimos anos à aproximação entre setores religiosos e projetos políticos específicos.

Um dos exemplos mais evidentes foram à relação construída entre setores evangélicos conservadores e Jair Bolsonaro.

Isso não significa, obviamente, que todo evangélico seja bolsonarista.

Nem que toda igreja evangélica tenha o mesmo comportamento.

Muito menos que religião e política devam viver em universos separados.

Religiosos são cidadãos.

Podem votar.

Podem ser candidatos.

Podem defender suas ideias.

Podem participar do debate público.

O problema começa quando a fé deixa de ser uma convicção pessoal e passa a ser apresentada como instrumento de obediência política coletiva.

Aí o eleitor deixa de perguntar:

“Qual proposta eu considero melhor?”

E começa a perguntar:

“Em quem meu pastor mandou votar?”

É uma pequena diferença de frase.

Mas uma gigantesca diferença de democracia.

E Deus entra na urna?

Imagine a cena.

O cidadão entra na cabine.

Fecha a cortina.

Olha para o número.

E pensa:

“Será que Deus está vendo?”

Bem…

Se Deus estiver vendo, provavelmente estará mais interessado no caráter de quem vota do que na propaganda de quem pede voto.

A Constituição brasileira garante a liberdade de consciência e de crença e o livre exercício dos cultos religiosos. Ao mesmo tempo, determina que União, Estados e municípios não estabeleçam cultos nem mantenham relações de dependência ou aliança com igrejas ou seus representantes.

É justamente essa separação que protege os dois lados.

Protege o Estado da religião transformada em poder absoluto.

E protege a própria religião do Estado.

Porque Estado laico não significa Estado ateu.

Significa que ninguém precisa ser cristão para ser brasileiro.

Nem católico.

Nem evangélico.

Nem espírita.

Nem judeu.

Nem muçulmano.

Nem de religião alguma.

A Constituição pertence a todos.

O problema não é a fé

E aqui está a parte que talvez incomode mais os religiosos democratas — e deveria tranquilizá-los.

O problema não é a fé.

O problema é o poder exercido em nome da fé.

Uma pessoa pode entrar numa igreja no domingo, levantar as mãos, cantar, chorar, rezar, agradecer, pedir um milagre e sair dali querendo ser uma pessoa melhor.

Nada há de errado nisso.

O problema começa quando alguém sobe ao púlpito e diz:

“Deus quer que você vote em fulano.”

E, pior:

“Quem não votar em fulano está contra Deus.”

Nesse momento, não estamos mais diante de uma pregação.

Estamos diante de uma tentativa de transformar convicção religiosa em mecanismo de controle político.

E democracia não combina muito bem com obediência cega.

Democracia pressupõe cidadãos.

Não rebanhos eleitorais.

Talvez Jesus não reconhecesse o templo

É aí que a história do Templo volta para nos assombrar.

Jesus viu uma casa de oração transformada em mercado.

Hoje, a pergunta poderia ser:

o que ele diria ao encontrar a fé transformada em produto, o púlpito transformado em palanque e o fiel transformado em eleitor cativo?

Não sabemos.

E seria desonesto colocar palavras contemporâneas na boca de Jesus.

Mas sabemos o que os Evangelhos narram.

Ele entrou no Templo.

Viu o comércio.

Derrubou as mesas.

Espalhou o dinheiro.

Expulsou os vendedores.

E chamou atenção para a transformação da casa de oração em lugar de exploração.

Talvez essa seja a parte da Bíblia que alguns preferem ler baixinho.

Porque é relativamente fácil pregar sobre o Jesus que perdoa.

Mais difícil é encarar o Jesus que entra no templo e derruba a mesa.

Principalmente quando a mesa está cheia de dinheiro.

E se ele aparecesse hoje?

Talvez encontrasse uma máquina de cartão.

Um QR Code.

Uma campanha de sete dias.

Uma promessa de prosperidade.

Um candidato ungido.

Uma bandeira partidária.

Uma live.

Um pedido de PIX.

E alguém gritando:

“É para a obra de Deus!”

Talvez Jesus perguntasse:

“Que obra?”

E alguém responderia:

“É para eleger o escolhido.”

Então talvez viesse a pergunta seguinte:

“Escolhido por quem?”

Silêncio.

Porque esse é o ponto.

Deus pode ser objeto de fé.

Não deveria ser utilizado como título de propriedade sobre a consciência alheia.

O altar não é palanque

O Brasil não precisa escolher entre fé e democracia.

Pode ter as duas.

Aliás, deve.

O cristão pode ser democrata.

O ateu pode ser democrata.

O católico pode ser democrata.

O evangélico pode ser democrata.

O religioso pode defender sua fé na praça pública.

Mas ninguém deveria receber procuração divina para governar a consciência dos outros.

Porque quando alguém diz:

“Eu não estou falando por mim. Estou falando em nome de Deus”,

A pergunta seguinte deveria ser inevitável:

“E quem autorizou você?”

Talvez seja essa a pergunta que deveria estar escrita na porta de todo templo.

Antes do PIX.

Antes do voto.

Antes da campanha.

Antes do palanque.

Antes da promessa.

Porque, no fim das contas, a grande ameaça nunca foi a pessoa que acredita em Deus.

A ameaça começa quando alguém acredita que Deus lhe deu o direito de mandar nos outros.

E talvez seja exatamente aí que Jesus voltaria a olhar para a mesa.

Não para ver quanto dinheiro há em cima.

Mas para perguntar:

“O que vocês fizeram com a minha casa?”

E, convenhamos, dependendo do templo…

talvez fosse melhor começar a guardar as mesas.

Fontes: Evangelhos de Mateus 21, Marcos 11 e João 2; Constituição Federal, arts. 5º e 19.

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