Por Fernando Garayo

Há uma pergunta que o Brasil precisa fazer com serenidade, mas também com coragem: o que acontece com a democracia quando uma determinada corrente religiosa deixa de querer apenas converter pessoas e passa a querer governar pessoas?
Não se trata de questionar a fé dos milhões de brasileiros evangélicos, muito menos o direito de pastores, bispos, apóstolos e fiéis participarem da vida pública. A Constituição garante a liberdade de consciência e de crença e o livre exercício dos cultos religiosos. Ao mesmo tempo, estabelece que o Estado não pode estabelecer ou manter relações de dependência ou aliança com igrejas.
A questão é outra: quando a religião se transforma em projeto de poder, quem não pertence a essa religião passa a ser governado por qual fé?
Nas últimas décadas, setores pentecostais e neopentecostais construíram uma presença política cada vez mais organizada. Isso é um fato institucional: existe no Congresso uma Frente Parlamentar Evangélica, oficialmente registrada, e ela possui participação significativa na Câmara e no Senado. Em 2025, a própria Câmara informou que a frente reunia 219 deputados e 26 senadores.
Participação política, por si só, não representa ameaça à democracia. O problema aparece quando a lógica deixa de ser “cristãos também podem participar da política” e passa a ser “o Estado deve ser governado segundo determinada interpretação cristã”.
São coisas completamente diferentes. Uma democracia não pode funcionar pela lógica de que quem tem a maioria religiosa possui autorização para impor sua doutrina aos demais. O Estado brasileiro não pertence aos evangélicos.Também não pertence aos católicos, aos espíritas,aos umbandistas, aos praticantes do candomblé, aos judeus, muçulmanos ou budistas,aos ateus e agnósticos. O Estado pertence a todos.
É exatamente por isso que a Constituição estabelece a liberdade de consciência e de crença. E onde ficam os outros brasileiros? Essa é a pergunta mais importante.
Se um governo passar a legislar prioritariamente de acordo com a doutrina de determinada igreja, como ficará o católico que pensa diferente? Como ficará o espírita? Como ficará o terreiro de umbanda? Como ficará o candomblé? Como ficará aquele que não acredita em Deus?
Como ficará a mulher que não aceita determinada interpretação religiosa sobre seu corpo? Como ficará o cidadão que possui outra compreensão sobre família, educação, sexualidade, costumes ou liberdade individual?
A democracia existe justamente para impedir que uma maioria transforme suas convicções particulares em obrigação para todos. A fé pode orientar a vida de quem acredita. A lei, entretanto, precisa respeitar também quem não acredita.
Esse é o significado político do Estado laico. Quando Jesus sai do púlpito e o político ocupa o altar. Existe ainda uma transformação simbólica que merece ser discutida. Em determinados ambientes religiosos, o púlpito espaço tradicionalmente destinado à pregação da fé passou a dividir espaço com discursos eleitorais, alianças partidárias e campanhas políticas.
E isso está ocorrendo particularmente evidente nas eleições de 2026. Reportagem da Folha de S.Paulo registrou a presença do candidato Flávio Bolsonaro em igrejas evangélicas e descreveu a tensão entre manifestações religiosas e propaganda eleitoral. A matéria também relata aparições do candidato em templos ligados a lideranças evangélicas.
É nesse ponto que cabe uma metáfora incômoda: Jesus Cristo corre o risco de sair do centro do púlpito para dar lugar ao candidato. O pastor deixa de falar apenas de Evangelho e passa a falar de eleição, o culto transforma-se em comício, a Bíblia vira argumento eleitoral, o voto passa a ser apresentado como demonstração de fé, e o político deixa de ser apenas um político. Ele passa a ser apresentado como alguém escolhido para cumprir uma missão divina. É uma mudança perigosa para a própria religião. Porque quando o político ocupa o espaço de Jesus, a política começa a adquirir uma aura de religião e o político começa a adquirir uma aura de salvador. E nenhuma democracia deveria depender de salvadores.
A aproximação entre Flávio Bolsonaro e determinados setores evangélicos tornou-se um dos elementos relevantes da atual disputa política. Reportagem publicada semana passada mostrou a proximidade de Flávio e Michelle Bolsonaro com a Comunidade das Nações, liderada pelo bispo JB Carvalho. A reportagem também registrou que Carvalho já havia defendido, em livro, a retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida, embora não haja evidência de que Flávio compartilhe integralmente dessas posições.
Não se pode atribuir automaticamente ao candidato todas as posições de uma liderança religiosa com quem ele mantém proximidade. Mas é legítimo perguntar qual projeto de país está sendo construído quando determinados grupos religiosos passam a atuar de maneira organizada para eleger um presidente e um Congresso afinados com suas convicções? E essa pergunta vale para qualquer religião e qualquer partido.
Não é uma questão contra os evangélicos. É uma questão a favor da democracia. A democracia não é uma igreja. O Brasil pode ter um presidente evangélico, católico, espírita, presidente de qualquer religião, e pode ter um presidente sem religião. O que ele não pode ser é presidente apenas dos seus irmãos de fé.
O presidente da República não recebe o governo de uma igreja. Recebe-o da Constituição e do povo. A própria Constituição determina que todo poder emana do povo e estabelece o pluralismo político como fundamento da República. Também determina que o presidente, ao tomar posse, deve defender e cumprir a Constituição, observar as leis e promover o bem geral do povo brasileiro.
Portanto, o presidente não governa para os que frequentam seu templo. Governa para todos. Inclusive para aqueles que discordam dele, para aqueles que votaram no adversário, para aqueles que não possuem religião.
A história mostra que misturar poder político absoluto com autoridade religiosa pode produzir consequências graves. Quando um governante passa a ser apresentado como instrumento direto da vontade de Deus, contestá-lo deixa de parecer uma discordância política e pode passar a ser interpretado como uma afronta religiosa. É aí que mora um dos grandes perigos. Porque democracia depende da possibilidade de dizer:”Eu discordo do presidente”.
Religião fundamentalista pode transformar essa frase em: “Você está contra aquilo que Deus quer”. E quando a divergência política é transformada em pecado, a democracia começa a perder oxigênio. O adversário deixa de ser adversário. Passa a ser inimigo. E o inimigo, na lógica do fanatismo, pode deixar de merecer respeito.
A questão também precisa ser colocada aos católicos. Se uma coalizão política religiosa assumir o controle do Estado para impor uma determinada interpretação evangélica da sociedade, o católico terá liberdade para continuar defendendo suas próprias tradições?
O debate recente envolvendo Nossa Senhora Aparecida demonstra como questões religiosas podem rapidamente adquirir dimensão política.
Um antigo projeto apresentado pelo pastor e então deputado Victório Galli pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título legal de Padroeira do Brasil. O projeto foi arquivado em 2008. O próprio Galli voltou a defender, em setembro de 2026, que o tema poderia ser discutido em razão do caráter laico do Estado.
O episódio mostra algo fundamental: a disputa religiosa também pode atingir símbolos religiosos de outras tradições. Hoje pode ser Nossa Senhora Aparecida. Amanhã pode ser outra manifestação religiosa. E depois outra. Por isso, defender o Estado laico não significa defender uma religião contra outra.
Significa defender todas contra a transformação do Estado em instrumento de qualquer uma delas. Há uma questão ainda mais profunda, o Brasil não é formado apenas pelas religiões majoritárias. Umbanda e candomblé fazem parte da história cultural e religiosa brasileira. Seus praticantes têm exatamente os mesmos direitos constitucionais de qualquer outro cidadão.
Se uma igreja conquistasse poder político suficiente para transformar seus valores particulares em legislação obrigatória, qual seria o espaço para religiões de matriz africana? E para o espírita? E para o ateu? É justamente para responder a essas perguntas que a liberdade religiosa precisa existir não apenas no discurso, mas também na estrutura do Estado.
Estado laico não é Estado contra Deus. É Estado que não escolhe qual Deus deve governar seus cidadãos. A política pode entrar na igreja. Mas a igreja não pode capturar o Estado. É perfeitamente legítimo que um pastor vote, que um bispo vote, que um padre vote, que um católico seja candidato, um evangélico seja deputado, um espírita seja senador, um ateu seja presidente. A liberdade política é de todos.
O problema começa quando alguém diz que determinado candidato é o candidato de Deus e, portanto, votar contra ele seria votar contra Deus.
Nesse momento, o eleitor deixa de ser cidadão e passa a ser tratado como fiel. E o voto deixa de ser escolha política para virar profissão de fé. É aí que o púlpito deixa de formar consciência e começa a formar curral eleitoral.
Jesus não precisa de mandato, a maior ironia de todo esse processo seja justamente religiosa. Jesus não disputou eleição, não fundou partido, não criou bancada parlamentar, não ocupou gabinete, não pediu voto.
E, segundo os Evangelhos, quando foi tentado pelo poder, recusou transformar sua missão espiritual em instrumento de dominação política. Por isso, quando um projeto político tenta ocupar o espaço da religião, talvez seja necessário perguntar: quem está usando quem? A política está sendo usada pela fé? Ou a fé está sendo usada pela política?
Quando o candidato passa a ser tratado como escolhido por Deus, quando o púlpito vira palanque e quando a identidade religiosa passa a determinar quem é amigo e quem é inimigo, a pergunta deixa de ser eleitoral. Passa a ser democrática.
O Brasil precisa escolher entre a Constituição e a teocracia?Não!
Essa escolha já está feita pela própria Constituição. O Brasil é uma República democrática, fundada no pluralismo político, na liberdade de consciência e de crença e na igualdade perante a lei.
Cristãos podem participar da política, católicos podem participar, espíritas podem participar, umbandistas podem participar, candomblecistas podem participar, ateus podem participar. Todos podem tentar convencer a sociedade de suas ideias.
O que nenhum grupo deveria pretender é transformar sua interpretação particular de Deus em Constituição para os demais.
Porque o Brasil não é uma igreja. É uma República. É justamente aí que está a maior diferença entre uma sociedade guiada pela fé e uma sociedade governada pela religião: a primeira permite que cada cidadão tenha sua fé. A segunda corre o risco de exigir que todos tenham a mesma.
E quando o político ocupa o lugar que deveria pertencer à consciência, o problema já não é apenas a política. É a própria liberdade. Jesus Cristo não precisa ser retirado das igrejas.
Mas é necessário impedir que políticos sejam colocados no lugar de Cristo, porque quando o candidato vira objeto de devoção, a democracia deixa de ser uma escolha entre projetos de país e começa a se transformar em uma disputa entre dogmas.
E nenhum político deveria ser confundido com Deus.
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