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Quando a saúde vira arma política e o contexto é jogado no lixo

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Por Fernando Garayo

Fernando Garayo-Jornalista- Cientista Politíco.

Há momentos em que a política brasileira parece ter perdido completamente o senso de proporção. Uma frase mal formulada sobre saúde pública vira combustível para uma guerra de narrativas. O contexto desaparece. A informação é triturada. E, no lugar do debate sobre saúde, prevenção e vida humana, aparecem aquilo que a política brasileira conhece muito bem: a exploração do escândalo.
Foi o que aconteceu com uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o exame de próstata.
Ao falar sobre a resistência dos homens em realizar exames urológicos, Lula comparou esse comportamento com a familiaridade das mulheres com consultas e procedimentos ginecológicos. A frase escolhida pelo presidente ao dizer que as mulheres “aprendem a tomar toque desde pequenas” foi, no mínimo, infeliz na forma.
Mas uma coisa é reconhecer que a expressão poderia ter sido melhor escolhida.
Outra, completamente diferente, é cortar a frase de seu contexto e transformá-la numa suposta defesa da pedofilia.
E foi exatamente essa transformação que tomou conta das redes sociais. O próprio contexto do discurso deixa claro que Lula estava falando de prevenção ao câncer de próstata e da resistência masculina ao exame. Ele havia acabado de mencionar uma cirurgia robótica de próstata realizada no Pará e falava da importância do diagnóstico e do tratamento do câncer. A fala estava inserida em um debate sobre saúde pública, não sobre sexualidade infantil.
A política do corte e cola
O problema da desinformação política moderna não está apenas na mentira completa, às vezes, ela nasce de uma frase verdadeira retirada do lugar onde fazia sentido.
Pega-se um trecho de dez segundos, elimina-se o minuto anterior e o minuto seguinte, acrescenta-se uma legenda provocativa e pronto: nasce uma narrativa completamente diferente daquela que existia originalmente. Foi o que ocorreu com a fala de Lula.
O deputado Nikolas Ferreira publicou o trecho acompanhado da frase: “Menina pequena não aprende a tomar toque nenhum, Lula!”. Segundo a decisão divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral, a publicação levou o eleitor a uma interpretação de que Lula estaria admitindo ou normalizando crimes contra crianças e adolescentes. A ministra Estela Aranha determinou a retirada do conteúdo em decisão liminar. Isso não significa que toda crítica à frase de Lula seja ilegítima. Não é.
Um presidente da República precisa saber que suas palavras têm peso. Uma expressão inadequada pode gerar interpretações equivocadas e merece ser criticada.
Mas crítica é uma coisa. Distorção deliberada de contexto é outra.
O debate verdadeiro é muito mais importante do que a guerra de memes.
É sobre prevenção.
É sobre homens que evitam procurar o médico.
É sobre câncer de próstata.
É sobre mulheres que precisam ter acesso adequado ao acompanhamento ginecológico.
É sobre educação sexual responsável.
É sobre crianças e adolescentes terem proteção contra qualquer forma de violência e abuso.
Transformar uma discussão de saúde em acusação de pedofilia não protege uma única criança. Ao contrário: desvia a atenção de problemas reais que precisam ser enfrentados.
O câncer de próstata, por exemplo, não desaparece porque políticos descobriram uma nova guerra cultural nas redes sociais. A doença continua existindo.
Os homens continuam precisando de acompanhamento médico. E o preconceito e o constrangimento relacionados ao exame continuam sendo obstáculos que precisam ser enfrentados com informação, não com disputa partidária.
E quando a régua não é a mesma? Aqui surge uma pergunta legítima para o debate político. Por que determinados setores do bolsonarismo foram tão rápidos para transformar uma frase de Lula em uma acusação relacionada à pedofilia, mas demonstraram outra disposição quando o assunto envolveu uma declaração do próprio Jair Bolsonaro sobre adolescentes venezuelanas?
Em 2022, Bolsonaro relatou que havia visto “menininhas” venezuelanas de 14 e 15 anos, disse que eram bonitas e afirmou: “pintou um clima”. Segundo o relato dele, depois entrou na casa onde estavam as adolescentes.
É importante não cometer o mesmo erro de que se está acusando os adversários: uma fala, por mais grave ou perturbadora que seja não permite automaticamente concluir que alguém praticou um crime sexual.
O que pode ser afirmado objetivamente é que a declaração existiu que envolvia adolescentes de 14 e 15 anos e que o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios posteriormente condenou Bolsonaro por danos morais coletivos, considerando que a fala objetificou e sexualizou as adolescentes. A decisão também determinou restrições relacionadas a manifestações com conotação sexual envolvendo crianças. Houve recurso da defesa.
Portanto, a discussão séria não precisa de exageros. A própria documentação do caso já é suficientemente grave para permitir o debate público.
Dois pesos, duas narrativas. É aí que aparece uma das características mais preocupantes da política brasileira: a utilização seletiva da indignação.
Quando uma declaração de adversário pode ser explorada eleitoralmente, transforma-se uma frase em escândalo nacional.
Quando uma declaração semelhante atinge o próprio campo político, surgem imediatamente às explicações sobre “contexto”, “brincadeira”, “fala mal colocada” ou “interpretação dos adversários”.
E aqui está a questão central: contexto deve valer para todos. Se devemos analisar cuidadosamente o que Lula quis dizer, devemos também analisar cuidadosamente o que Bolsonaro disse. Se não devemos acusar Lula de pedofilia simplesmente por causa de uma frase retirada de contexto, também não devemos transformar uma acusação contra Bolsonaro em condenação criminal sem prova de crime. A democracia exige a mesma régua.
Crianças e adolescentes não deveriam ser transformados em instrumentos de guerra política. A proteção da infância deveria estar acima de Lula, Bolsonaro, Nikolas, PT, PL, direita ou esquerda.
Quando uma criança é vítima de abuso, não existe disputa ideológica.
Existe crime.
Existe sofrimento.
Existe a obrigação do Estado e da sociedade de proteger aquela criança.
Por isso, banalizar a palavra “pedofilia” em uma briga eleitoral também é perigoso. Uma acusação tão grave não pode ser transformada em simples arma de propaganda.
Da mesma maneira, declarações públicas envolvendo adolescentes precisam ser analisadas com responsabilidade, sem relativização partidária. O que o Brasil precisa é de menos manipulação e mais informação.
A fala de Lula poderia ter sido melhor formulada? Sim. Isso é uma crítica legítima.
Mas transformá-la em uma suposta defesa da pedofilia não corresponde ao contexto documentado da declaração. O próprio TSE reconheceu, em decisão liminar, que a publicação de Nikolas Ferreira deslocou a discussão do campo da saúde pública para o campo de condutas criminosas. Essa é a maior lição desse episódio.
A política brasileira não pode continuar funcionando como uma máquina de transformar qualquer frase em arma eleitoral.
Um presidente precisa medir suas palavras.
Um deputado precisa medir suas acusações.
Um influenciador precisa medir aquilo que publica.
E o eleitor precisa ter o direito de conhecer o contexto antes de formar sua opinião.
Porque, quando a verdade é cortada em pedaços para caber numa postagem de rede social, quem perde não é apenas Lula ou Bolsonaro.
Quem perde é o cidadão.

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