Por Fernando Garayo

Se Lula for reeleito, será que os falsos “patriotas” vão pedir quartel de novo?
Eis uma pergunta que merece ser feita, com uma dose generosa de ironia, porque certas cenas do passado brasileiro parecem roteiro de comédia, não de uma democracia do século XXI.
Se Lula for reeleito, será que teremos novamente aquele espetáculo pitoresco de patriotas de porta de quartel, enrolados em bandeiras dos EUA e de Israel, pedindo intervenção militar para impedir que o resultado das urnas seja respeitado?
Será que os caminhões voltarão a virar barricadas?
Será que as rodovias serão novamente transformadas em extensão de acampamento político?
Será que aparecerão novamente os especialistas em democracia de WhatsApp, aqueles que descobrem, misteriosamente, que eleição só é legítima quando o candidato deles vence?
E, principalmente: será que alguém vai novamente achar que tanque de combustível é instrumento de manifestação política?
Não é exagero lembrar que isso aconteceu.
Depois da eleição de 2022, apoiadores de Jair Bolsonaro mantiveram acampamentos diante de quartéis e defenderam intervenção militar para impedir a posse de Lula. A própria denúncia da Procuradoria-Geral da República descreveu a mobilização como parte de uma tentativa de ruptura da ordem democrática.
E houve algo ainda mais grave.
Em dezembro de 2022, foi colocada uma bomba em um caminhão-tanque de combustível nas proximidades do Aeroporto de Brasília. Os envolvidos foram posteriormente condenados pela Justiça. A Câmara Legislativa do Distrito Federal registrou que os envolvidos tinham ligação com o acampamento bolsonarista diante do Quartel-General do Exército.
Ou seja: quando alguém disser que “isso nunca aconteceu”, convém recomendar uma pequena viagem pela memória, não precisa nem comprar passagem. Basta abrir os arquivos.
E ainda existe outro capítulo sombrio.
As investigações sobre a tentativa de golpe apontaram planos para impedir a posse de Lula e Geraldo Alckmin e, posteriormente, elementos relacionados a um plano para matar o presidente, o vice-presidente e o ministro Alexandre de Moraes. A condenação de Jair Bolsonaro em 2025 incorporou esses fatos ao conjunto de atos considerados pelo STF no processo sobre a tentativa de golpe.
Então fica a pergunta, em tom de provocação:
Se Lula ganhar novamente, será que teremos bis?
Vai ter gente novamente dormindo na porta dos quartéis?
Vai ter caminhoneiro sendo convocado para defender a “liberdade” bloqueando estrada?
Vai aparecer novamente algum imbecil dizendo que as Forças Armadas precisam “salvar o Brasil”?
Vai surgir novamente a teoria de que a urna só é democrática quando entrega o resultado desejado?
E será que os mesmos que passaram anos falando em “Deus, Pátria e Família” vão descobrir, mais uma vez, que democracia é uma coisa maravilhosa, desde que o resultado seja o deles?
O mais curioso é que a Constituição não possui uma cláusula dizendo:
“A eleição será válida somente se a turma do zap concordar.”
Também não existe artigo constitucional estabelecendo:
“Em caso de derrota eleitoral, o cidadão poderá acampar diante do quartel até aparecer um general disposto a cancelar a eleição.”
E muito menos existe dispositivo dizendo:
“Se perder no voto, pode tentar no caminhão-tanque.”
Democracia é exatamente o contrário.
É ganhar quando ganha.
É perder quando perde.
É respeitar o resultado quando ele contraria nossas preferências.
É reclamar, protestar, criticar, organizar oposição e disputar a próxima eleição, sem transformar quartel em palanque, estrada em barricada ou explosivo em ferramenta política.
Porque uma coisa é protestar.
Outra é tentar impedir uma eleição.
Uma coisa é discordar do governo.
Outra é tentar derrubá-lo pela força.
Uma coisa é defender uma candidatura.
Outra é imaginar que o país pertence ao candidato e que os milhões de brasileiros que votaram diferente precisam ser tratados como inimigos.
E aqui está a parte mais engraçada, se é que existe alguma graça nisso: a urna eletrônica não tem medo de acampamento.
Não se intimida com bandeira.
Não se assusta com caminhão.
Não muda de resultado porque alguém gritou “intervenção militar”.
E certamente não precisa de pastor, general, influencer ou político para explicar que voto é voto.
Se Lula vencer, quem não gostar terá quatro anos, ou o período constitucional correspondente para fazer oposição, criticar, protestar e tentar convencê-los do contrário.
O caminho é simples: organize-se, dispute, vote e tente vencer.
O que não dá é querer transformar derrota eleitoral em guerra civil de condomínio.
Porque democracia não é campeonato de futebol em que, depois da derrota, a torcida invade o campo para exigir que o juiz mude o placar.
E se alguém ainda estiver pensando em repetir o espetáculo de 2022, talvez seja bom avisar: o Brasil já viu esse filme.
Quartéis ocupados.
Rodovias bloqueadas.
Prédios públicos invadidos.
Bomba em caminhão-tanque.
Plano de ruptura institucional.
E, segundo as investigações e decisões judiciais posteriores, planos envolvendo autoridades da República.
A democracia pode até ter memória curta para alguns.
Os arquivos, porém, têm excelente memória.
Portanto, se Lula vencer, que venha a oposição.
Que venham as críticas.
Que venham os protestos.
Que venham os debates.
Que venha a disputa eleitoral.
Só uma coisa, por favor: deixem os quartéis para os militares, as rodovias para os motoristas e a bomba para o passado.
Porque, numa democracia, quando o resultado da urna desagrada, a resposta não é tanque. É voto.
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