Por Fernando Garayo

O debate presidencial da TV Globo não morreu simplesmente por causa da Justiça. Ele morreu, sobretudo, porque, diante de uma mudança no cenário, Flávio Bolsonaro decidiu não entrar no ringue.
Houve, sim, decisões judiciais que alteraram as regras do debate. Primeiro, uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral determinou que a Globo não exibisse o púlpito vazio reservado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora pudesse informar sua ausência. Depois, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, determinou a inclusão de Renan Santos, candidato do Missão.
Mas existe um detalhe político que não pode ser escondido atrás da palavra “censura”. Depois da decisão que abriu espaço para Renan Santos, Flávio Bolsonaro anunciou que não participaria do debate. Sua campanha atribuiu a desistência às decisões judiciais e afirmou que havia censura eleitoral. Foi justamente aí que o debate morreu.
Porque, se a questão era enfrentar Lula, como vinha sendo sustentado pela campanha de Flávio, por que a entrada de Renan Santos seria motivo suficiente para abandonar o programa? A pergunta é inevitável. Se Renan entrou, por que Flávio saiu? Foi essa contradição que o episódio deixou exposta.
O jornalista Leonardo Sakamoto resumiu a situação no Canal UOL com uma provocação direta: para ele, o debate não foi morto pela Justiça, mas pela desistência de Flávio diante da entrada de um adversário. Na avaliação de Sakamoto, bastaria o candidato dizer: “Beleza, eu encaro o Renan”.
É uma interpretação jornalística, não uma sentença sobre a intenção de Flávio. Mas é uma pergunta legítima para qualquer eleitor. Porque democracia não é escolher apenas o adversário conveniente. Debate é justamente o contrário.
É sentar diante de quem pensa diferente, ouvir críticas, responder perguntas, defender propostas e, principalmente, aceitar que o eleitor veja como cada candidato reage quando é pressionado.
Renan Santos, depois do cancelamento, chegou a desafiar Flávio para um confronto em qualquer lugar, dizendo que poderia discutir somente propostas.
A cena é simbólica: um candidato dizendo que aceita o confronto e outro justificando sua ausência pelas decisões judiciais. Enquanto isso, quem ficou sem resposta foi o eleitor. A Justiça interferiu? Sim. Mas isso não explica tudo, mas é preciso reconhecer os fatos.
As decisões judiciais realmente modificaram o cenário do debate. A inclusão de Renan Santos foi determinada pelo STF depois de uma disputa sobre os critérios de participação, e outras decisões também interferiram na forma como a Globo poderia conduzir o programa. A emissora acabou cancelando o debate. Portanto, seria incorreto fingir que o Judiciário não teve participação na crise. Teve.
Mas, também seria simplista colocar toda a responsabilidade pelo cancelamento exclusivamente sobre a Justiça. Houve desistências políticas.
Lula já havia anunciado que não participaria e, no mesmo horário, participou de uma entrevista no Flow. Flávio também anunciou que não iria. Com a ausência dos principais candidatos, a Globo acabou cancelando o encontro.
Portanto, a história completa é mais complexa do que o discurso de “a Justiça matou o debate”.
O Judiciário alterou as regras.
Os candidatos tomaram decisões.
E o eleitor ficou sem o confronto.
A política do adversário escolhido
Durante a campanha, Flávio já havia demonstrado preferência por determinados confrontos. No debate da Band, em agosto, ele não compareceu e argumentou que queria enfrentar adversários que considerava realmente representativos de um projeto político que, segundo ele, estaria destruindo o país. Mas democracia não funciona com adversário escolhido a dedo.
Quem disputa a Presidência precisa estar preparado para responder a quem também disputa a Presidência.
Não existe debate democrático sob medida.
Não existe confronto democrático em que o candidato possa dizer:
“Com esse eu debato. Com aquele, não.”
O eleitor não deveria ser privado do confronto porque um candidato não gostou da composição do palco.
Um debate presidencial deveria ser um dos momentos mais importantes de uma eleição. Ali deveriam estar propostas sobre saúde, educação, segurança, economia, emprego, relações internacionais, agricultura, meio ambiente, combate à pobreza e democracia.
Mas o palco acabou vazio. Não porque faltassem candidatos, havia candidatos dispostos a participar. O problema foi que os principais nomes decidiram não estar ali. E quando os candidatos deixam o palco, quem perde não é a televisão. Quem perde é o eleitor.
Porque propaganda eleitoral mostra aquilo que o candidato quer mostrar. Entrevista escolhida oferece perguntas, mas dentro de um formato controlado. Redes sociais permitem que cada político fale diretamente para sua própria audiência.
O debate, porém, tem outra natureza.
É confronto.
É imprevisibilidade.
É pergunta inesperada.
É réplica.
É tréplica.
É o momento em que o discurso preparado precisa sobreviver ao contraditório.
“Fui”
A frase atribuída por Sakamoto ao episódio, “Com a decisão de entrar Renan Santos, Flávio fala: “Fui”, tornou-se uma síntese provocativa do que aconteceu”. Pode parecer apenas uma frase de efeito. Mas ela resume a pergunta que ficou para a campanha de Flávio Bolsonaro:
Se a sua candidatura está preparada para governar o Brasil, por que a entrada de mais um candidato no debate seria suficiente para fazê-la abandonar o palco?
Não cabe ao jornalista responder essa pergunta pelo eleitor. Cabe ao eleitor fazê-la.
Essa é a grande ironia de uma eleição que deveria ser marcada pelo confronto de ideias: no momento em que mais se precisava de debate, sobrou explicação.
Sobrou acusação de censura.
Sobrou disputa jurídica.
Sobrou guerra de narrativas.
E faltou aquilo que uma democracia deveria oferecer ao cidadão: candidatos frente a frente, falando sobre o Brasil e respondendo por suas próprias ideias.
O debate não morreu apenas porque houve decisões judiciais. Ele morreu também porque candidatos decidiram não participar.
E, no caso de Flávio Bolsonaro, a entrada de Renan Santos transformou uma questão jurídica em uma pergunta política incontornável: era realmente a Justiça que estava impedindo o debate, ou o candidato simplesmente não quis enfrentar aquele debate nas novas condições?
Essa resposta pertence a Flávio. Mas a pergunta pertence ao eleitor.
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