Por Fernando Garayo

Dando continuidade a nossas publicações de como interferências política no decorrer das Copas perseguiu e vigiaram atletas, nosso personagem de hoje vem das Minas Gerais: estamos falando de Eduardo Gonçalves de Andrade o “Tostão”. “Tostão” se formou em medicina em 1981, hoje exerce a função de comentarista esportivo além de ter publicado vários livros, o mais vendido foi sua autobiografia “Tempos vividos, sonhados e perdido”.
Quando se fala da histórica conquista da Copa do Mundo de 1970, no México, os nomes de Pelé, Jairzinho, Rivelino, Carlos Alberto Torres e Tostão surgem imediatamente na memória dos brasileiros. Considerada por muitos a maior seleção de futebol de todos os tempos, aquela equipe entrou para a história dentro de campo. Fora dele, porém, alguns de seus jogadores conviveram com a vigilância e a desconfiança do regime militar que governava o Brasil.
Entre eles estava Tostão, então principal estrela do Cruzeiro e um dos mais inteligentes jogadores da geração tricampeã. Diferentemente da imagem do atleta alheio aos acontecimentos políticos, o mineiro sempre demonstrou interesse pelas questões sociais e manteve posições críticas em relação ao autoritarismo instaurado após o golpe militar de 1964.
Documentos e pesquisas históricas apontam que declarações de Tostão chamaram a atenção dos órgãos de repressão. Em maio de 1970, às vésperas da Copa do Mundo, o jogador concedeu entrevista ao jornal alternativo O Pasquim, uma das principais publicações de oposição à ditadura. Na conversa, defendeu a liberdade de expressão e fez observações que foram consideradas inconvenientes pelos setores mais conservadores do regime.
A entrevista provocou desconforto nos bastidores políticos e esportivos. Segundo pesquisadores do período, houve preocupação entre autoridades militares com a repercussão das declarações de um dos principais atletas da Seleção Brasileira. Em uma época marcada pela censura, pela perseguição política e pela repressão a opositores, qualquer manifestação pública que fugisse ao discurso oficial era vista com suspeita.
Além das declarações públicas, estudos sobre os arquivos dos antigos Departamentos de Ordem Política e Social (DOPS) indicam que personalidades do esporte também eram monitoradas pelos órgãos de inteligência. Atletas considerados questionadores ou identificados com posições progressistas passaram a ser observados pelas estruturas de segurança do Estado.
A situação de Tostão contrastava com o esforço da ditadura para transformar a Seleção Brasileira em símbolo de unidade nacional. O governo do general-presidente Emílio Garrastazu Médici enxergava o futebol como uma poderosa ferramenta de propaganda política. A conquista do tricampeonato mundial acabou sendo amplamente explorada pelo regime para fortalecer a imagem do governo perante a população.
Décadas depois, o próprio Tostão manifestaria desconforto com a apropriação política daquela conquista. Em entrevistas e artigos, o ex-jogador ressaltou que a vitória da Seleção pertencia ao povo brasileiro e aos atletas, não ao regime que governava o país.
As tensões também se refletiam no ambiente esportivo. No Cruzeiro, Tostão teve divergências com o técnico Dorival Knipel, conhecido como Yustrich, cuja disciplina rígida e métodos autoritários renderam comparações com a lógica militar predominante na época.
Mesmo sob vigilância e pressão, Tostão seguiu como peça fundamental da campanha brasileira no México. Atuando ao lado de Pelé, Jairzinho e Rivelino, ajudou a construir uma das equipes mais admiradas da história do futebol mundial.
Sua trajetória revela uma faceta menos conhecida da Copa de 1970: a de jogadores que, mesmo em um ambiente de forte controle político, não abriram mão de expressar suas opiniões. Mais de cinco décadas depois, a história de Tostão ajuda a compreender como futebol e política estiveram profundamente entrelaçados durante os anos mais duros da ditadura militar brasileira.
Fontes históricas consultadas: Museu do Futebol, pesquisas acadêmicas sobre os arquivos do DOPS, reportagens do El País Brasil, Superesportes, Ludopédio e estudos sobre a relação entre futebol e ditadura militar no Brasil.
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