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A direita no poder, na América do Sul: por Israel Aparecido Gonçalves, cientista político

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Por Israel Aparecido Gonçalves, cientista político

Prof Israel Aparecido Gonçalves

A América do Sul vive uma virada à direita. Hoje, sete países são governados por
presidentes desse campo: Javier Milei, na Argentina; Santiago Peña, no Paraguai;
Daniel Noboa, no Equador; Rodrigo Paz, na Bolívia; José Antonio Kast, no Chile; Keiko
Fujimori, no Peru; e Abelardo De La Espriella, na Colômbia. Como cientista político,
proponho uma pergunta simples, longe da torcida: o que esses governos entregaram?
Apenas Argentina, Paraguai e Equador têm quase três anos de mandato; os demais
ainda estão nos primeiros meses. Mesmo assim, já é possível enxergar um padrão.
Todos seguem o mesmo roteiro: discurso de "mão dura" na segurança, com
Forças Armadas nas ruas e estados de exceção; ajuste fiscal, corte de subsídios e
redução do Estado; flexibilização das leis trabalhistas; e alinhamento com os Estados
Unidos. A questão é saber se esse roteiro melhorou a vida das pessoas.
Na segurança, o resultado é ambíguo. A Argentina registrou 3,6 homicídios por
100 mil habitantes em 2025, a menor taxa de sua história, e o Paraguai caiu para 6,1.
No Chile, os homicídios recuaram 11,5% no primeiro semestre de 2026. Mas é preciso
apontar que na Argentina, a queda vem desde 2015, e no Chile começou ainda no
governo Boric (2022-2026). O caso que desmonta o discurso é o Equador: mesmo com
a "mão dura" de Noboa, 2025 foi o ano mais violento da história do país, com 9.252
homicídios. Ou seja, militarizar não é sinônimo de reduzir a violência.
Na educação pública, não há sinais de melhora, pelo contrário. Na Argentina, o
orçamento das universidades para 2026 é 42% menor, em termos reais, do que o de
2023, e o salário docente perdeu 34% desde a posse de Milei. No Chile, Kast tentou
limitar a gratuidade universitária e recuou diante dos protestos estudantis. A exceção
positiva é o Paraguai, com o programa Hambre Cero de alimentação escolar.
Na qualidade de vida, o quadro varia. A pobreza caiu no Equador, de 28% para
21,4%, e no Paraguai, de 19,6% para 16%. Na Argentina, depois do pico de 52,9% em
2024, a pobreza baixou, mas voltou a subir para 32,3% em 2026, e o desemprego
chegou a 7,9%, o maior desde 2021. A reforma trabalhista aprovada em fevereiro
tornou mais barato contratar e demitir e levou a negociação salarial para dentro de
cada empresa, enfraquecendo o trabalhador. Na Bolívia, o fim dos subsídios aos
combustíveis gerou inflação de 14% e a pior crise econômica desde os anos 1980.
Na liberdade de imprensa, o sinal é negativo. No ranking de 2026 da Repórteres
Sem Fronteiras, a Argentina caiu 11 posições e o Equador, 31, a maior queda das
Américas. Enquanto isso, Brasil, Uruguai e a Colômbia de Petro melhoraram ou ficaram
estáveis.
O balanço, portanto, é de muita promessa e entrega desigual. A direita sul-
americana venceu com o discurso da ordem e da eficiência, mas os números mostram
que a segurança não se resolve só com farda, que o ajuste fiscal cobra seu preço na
educação e no bolso do trabalhador e que a democracia perde quando a imprensa é
pressionada. Cabe ao eleitor, inclusive o brasileiro, olhar para os vizinhos antes de
escolher o próprio caminho.
Dados: INDEC (Argentina), INEC (Equador), INE (Paraguai), Ministério da Segurança
Pública do Chile, InSight Crime, Chequeado e Repórteres Sem Fronteiras (2026).
Israel Aparecido Gonçalves é Doutor em Sociologia e Ciência Política pela
Universidade Federa de Santa Catarina (UFSC) e Mestre em Ciência Política pela
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

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