
A TV Record decidiu ouvir o ex-marido de Maria da Penha, mesmo diante das restrições judiciais que pesavam sobre ele. A entrevista acabou provocando uma reação da Justiça que determinou sua prisão preventiva e proibiu a exibição do conteúdo.
A pergunta que fica é inevitável:
Por que uma grande emissora decidiu oferecer palco justamente a quem estava proibido de se manifestar sobre o caso?
Não se trata de defender censura. Criminosos podem e devem ser entrevistados quando isso for relevante para o jornalismo. Mas existe uma diferença entre investigar um crime e oferecer uma plataforma para que o condenado tente reconstruir a narrativa de sua própria história.
E essa discussão acontece depois da enorme controvérsia envolvendo o documentário da Brasil Paralelo sobre o caso Maria da Penha, produção acusada de apresentar uma narrativa parcial e distorcida sobre a história.
Até quando a vítima será obrigada a disputar sua própria história com quem a violentou?
Maria da Penha ficou paraplégica após uma tentativa de homicídio. Sua luta ajudou a mudar a legislação brasileira e deu nome a uma das principais leis de proteção às mulheres.
Ela não deveria precisar enfrentar novamente, décadas depois, uma batalha pela narrativa.
O microfone é da imprensa. Mas o poder do microfone exige responsabilidade.
Porque há uma diferença fundamental entre dar voz e dar palco.
E quando o agressor ganha o palco, é preciso perguntar:
Quem está perdendo a voz?
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