Artigo de opinião- Por Fernando Garayo

Proteger famílias do vício em apostas é uma questão humanitária, não eleitoreira. Se os clubes brasileiros querem mais dinheiro, deveriam cobrar do Congresso mudanças estruturais no futebol, em vez de defender um modelo que transforma a paixão esportiva em negócio de apostas.
O futebol brasileiro sobreviveu por décadas sem as bets. Sobreviveu sem patrocínios milionários de casas de apostas, sem camisas estampadas com marcas de apostas esportivas e sem transformar cada partida em uma oportunidade para alguém apostar o dinheiro do aluguel, da alimentação ou da educação dos filhos.
Os grandes clubes foram construídos, conquistaram títulos, revelaram craques, formaram torcidas e escreveram a história do esporte muito antes de as empresas de apostas invadirem os estádios, as transmissões esportivas e as camisas dos jogadores.
Por isso, diante da discussão sobre a proibição das bets, uma pergunta precisa ser feita aos dirigentes do futebol brasileiro: por que tanta reclamação agora?
O futebol não nasceu com as bets, não dependeu delas durante a maior parte de sua história e não pode condicionar sua sobrevivência à exploração da vulnerabilidade econômica e emocional de milhões de brasileiros.
A discussão precisa ir além dos balanços financeiros dos clubes. Estamos falando de famílias endividadas, trabalhadores que comprometem salários, pessoas que perdem economias e lares destruídos pela dependência em jogos de azar.
Quando a saúde financeira de uma indústria depende de pessoas que não conseguem parar de apostar, o problema deixa de ser apenas econômico. Torna-se uma questão social e humanitária.
- Não é eleitoreira. É uma questão de humanidade.
A decisão anunciada em 25 de setembro de 2026, por meio de medida provisória, proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos online. A medida entrou em vigor com a publicação, mas precisa ser apreciada pelo Congresso para continuar valendo.
Diante disso, há quem tente reduzir a discussão a uma disputa eleitoral, como se proteger a população dos efeitos das apostas fosse apenas uma estratégia de campanha.
É legítimo discutir o momento da decisão, seus efeitos econômicos, a arrecadação pública e a segurança jurídica. Também é necessário cobrar transparência e avaliar os efeitos da medida sobre empregos e contratos.
Mas existe uma questão que não pode ser ignorada: o sofrimento das famílias. Quando um trabalhador compromete o salário em apostas, quando uma mãe vê o dinheiro da alimentação desaparecer em uma plataforma de jogos ou quando um pai entra em um ciclo de dívidas tentando recuperar o que perdeu, não estamos diante de uma simples escolha de entretenimento.
Estamos diante de um problema que atinge a dignidade humana.
O Ministério da Saúde e o governo federal têm tratado o vício em apostas como uma questão de saúde pública, e o pacote anunciado incluem medidas de proteção aos endividados e combate às operações ilegais.
Uma política pública não deve ser julgada apenas pelo calendário eleitoral, mas também pelo número de famílias que consegue proteger.
Se a proibição pretende impedir que mais brasileiros sejam arrastados para o endividamento e para a dependência, sua discussão precisa partir desse objetivo humanitário, sem dispensar o debate sobre sua eficácia e seus efeitos práticos.
A proteção da população não pode ser subordinada aos interesses comerciais de empresas ou às receitas publicitárias de instituições esportivas.
- Os clubes sobreviveram antes das bets. E sobreviverão depois delas.
A reação de dirigentes e setores do futebol à proibição merece uma reflexão.
Segundo levantamento citado na imprensa esportiva, os clubes brasileiros recebem aproximadamente R$ 1 bilhão por temporada em patrocínios de casas de apostas. É uma quantia expressiva, que ajuda a explicar a resistência à medida.
Onde estavam as bets quando o Santos revelava Pelé? Quando o São Paulo conquistava seus primeiros títulos mundiais? Quando o Flamengo formava a geração de Zico? Quando o Corinthians, o Palmeiras, o Grêmio, o Internacional e tantos outros clubes construíam suas histórias?
Não existiam essas plataformas. E o futebol brasileiro existia, movimentava multidões, revelava craques e conquistava o mundo.
Os clubes tinham outras fontes de receita: bilheteria, sócios, venda de jogadores, patrocínios de empresas de diferentes setores e direitos de transmissão.
O futebol não deixou de existir porque não havia casas de apostas estampadas nas camisas.
O que mudou foi a dimensão dos negócios, o tamanho das folhas salariais e a dependência de determinadas receitas comerciais.
Se os dirigentes construíram orçamentos contando com dinheiro de apostas, precisam explicar por que fizeram dessa receita uma condição para manter suas administrações.
A pergunta é simples: se uma atividade comercial desaparece e ameaça a sobrevivência financeira de uma instituição centenária, o problema está necessariamente na atividade que desapareceu ou também está no modelo de gestão que criou essa dependência?
A história do futebol brasileiro demonstra que há outras formas de financiar o esporte. A tarefa agora é reconstruí-las.
- A Lei Pelé e o passe: por que não discutir uma reforma?
Existe uma questão estrutural que os clubes deveriam levar ao Congresso Nacional: a legislação que rege a formação, a contratação e a transferência de jogadores.
A Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998) extinguiu o antigo passe, desvinculando, em linhas gerais, o vínculo esportivo do vínculo de trabalho do atleta. A mudança representou uma transformação profunda nas relações entre jogadores e clubes.
Antes, o clube detinha o chamado passe e podia dificultar a transferência do atleta mesmo depois do encerramento do contrato de trabalho.
Com o fim desse sistema, o jogador passou a ter maior liberdade profissional, embora os clubes tenham mecanismos legais para receber valores por transferências e pela formação de atletas.
É preciso reconhecer os dois lados dessa história: o atleta é um trabalhador, tem direito à liberdade profissional e não pode ser tratado como propriedade de uma instituição. Ao mesmo tempo, um clube que investe anos na formação de um jogador precisa ter condições de recuperar esse investimento e obter retorno financeiro.
É justamente por isso que os dirigentes deveriam pressionar o Congresso por uma reforma moderna da legislação esportiva.
Uma discussão séria poderia examinar:
- Mecanismos mais eficientes de compensação financeira aos clubes formadores, especialmente os menores.
- Regras que assegurem participação proporcional na valorização e nas transferências dos atletas revelados pelas categorias de base.
- Contratos de formação transparentes, com proteção dos direitos trabalhistas e profissionais dos jogadores.
- Instrumentos que permitam aos clubes negociar seus atletas dentro de regras claras, sem retirar do jogador sua liberdade de trabalho.
E aqui cabe uma provocação aos dirigentes: por que não transformar a recuperação de mecanismos legítimos de valorização dos clubes formadores em uma grande pauta nacional?
O antigo passe não deve ser simplesmente restaurado como se o jogador fosse propriedade do clube. Mas o Congresso pode e deve discutir uma legislação que concilie a liberdade do atleta com a justa remuneração de quem investiu em sua formação.
O futebol brasileiro revela talentos extraordinários. Muitos clubes pequenos gastam dinheiro com alojamento, alimentação, transporte, profissionais e infraestrutura para formar jogadores que, posteriormente, são negociados por valores milionários.
Uma parcela maior e mais justa desse resultado precisa chegar a quem efetivamente formou o atleta.
Essa é uma discussão muito mais profunda sobre o futuro do futebol do que a simples defesa dos patrocínios das bets.
- O dinheiro das apostas não pode valer mais do que as famílias
Não se trata de negar a importância econômica do futebol, nem de ignorar que a saída dos patrocinadores provocará dificuldades para determinados clubes.
É necessário que o Congresso e o governo discutam medidas de transição, especialmente para instituições que possuem contratos em vigor e compromissos financeiros assumidos.
O próprio debate público já inclui propostas de renegociação de dívidas e alternativas para os clubes diante da mudança.
Mas uma coisa é buscar soluções para proteger o esporte. Outra é colocar a sobrevivência de um modelo comercial acima da proteção das pessoas.
O futebol tem uma responsabilidade social enorme. Entra diariamente nas casas brasileiras, influencia crianças e adolescentes e mobiliza milhões de torcedores.
Quando as camisas dos clubes se transformam em vitrines permanentes de empresas de apostas, a mensagem comercial chega também a públicos vulneráveis.
Não basta colocar uma advertência sobre os riscos do jogo e continuar incentivando apostas em cada transmissão, em cada intervalo e em cada espaço publicitário.
A paixão pelo futebol não pode ser utilizada como instrumento para estimular comportamentos que comprometem a renda das famílias.
O torcedor deveria poder assistir a uma partida sem ser tratado como um apostador em potencial.
- O Congresso precisa escolher entre a dependência e a modernização
Os dirigentes têm todo o direito de defender os interesses financeiros de suas instituições. Podem apresentar estudos, questionar os efeitos econômicos da medida provisória e participar do debate legislativo.
O que não faz sentido é apresentar o fim das bets como se fosse o fim do futebol brasileiro.
O Congresso Nacional tem a oportunidade de discutir um novo modelo de financiamento do esporte, fortalecer as categorias de base, aperfeiçoar os mecanismos de compensação pela formação de atletas e estabelecer regras de gestão financeira mais responsáveis.
Os clubes precisam olhar para dentro de suas administrações, diversificar receitas e investir naquilo que sempre foi uma das maiores riquezas do futebol nacional: a capacidade de revelar jogadores.
Se o Brasil é reconhecido mundialmente por seus talentos, por que não criar condições para que a formação desses atletas seja uma fonte sustentável de receita para os clubes?
Por que não pressionar os parlamentares para aperfeiçoar a legislação esportiva, em vez de concentrar toda a energia política na tentativa de preservar os patrocínios das casas de apostas?
O futebol brasileiro já sobreviveu a crises econômicas, mudanças de moeda, inflação, administrações desastrosas e transformações profundas no mercado esportivo.
Sobreviverá também a uma mudança no financiamento comercial.
O que não pode sobreviver é a ideia de que o sofrimento financeiro das famílias seja um preço aceitável para manter as contas dos clubes em dia.
O futebol é patrimônio cultural do povo brasileiro. Não pertence às casas de apostas, aos patrocinadores ou aos dirigentes. Pertence também às crianças que sonham em serem jogadores, aos trabalhadores que lotam os estádios e às famílias que encontram no esporte uma forma de alegria e convivência.
Que os clubes defendam suas receitas, mas que também defendam seus torcedores.
Que cobrem do Congresso uma legislação esportiva capaz de valorizar a formação de atletas e garantir sustentabilidade financeira.
E que compreendam, acima de tudo, que nenhuma camisa, nenhum contrato de publicidade e nenhum balanço financeiro vale mais do que a dignidade de uma família brasileira.
“O futebol não precisa das bets para existir. Precisa de gestão responsável, valorização dos seus talentos e respeito ao torcedor”.
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