20.7 C
Limeira

Eleições nos EUA: a democracia contra a mentira

- PUBLICIDADE -spot_img

Precisa ler isso...

Por Israel Aparecido Gonçalves

Prof Israel Aparecido Gonçalves

Nesta terça-feira, 3 de novembro de 2026, os Estados Unidos encerram o processo eleitoral que vai recompor a Câmara dos Representantes, um terço do Senado e 36 governos estaduais. Para
o Brasil e para o mundo, o que importa é o recado que o eleitor norte-americano dará a Donald Trump. Diferentemente do Brasil, onde elegemos todos os cargos no mesmo dia, lá a Câmara é
renovada a cada dois anos, e a eleição de meio de mandato, as midterms, funciona como um verdadeiro plebiscito sobre o governo. Seria como se votássemos para deputado e senador em 2028,
no meio do novo mandato do presidente Lula.

E a história pesa contra quem governa. Desde 1945, praticamente todos os presidentes perderam cadeiras na Câmara nas midterms; as exceções são Bill Clinton, em 1998, e George W.Bush, em 2002. A ciência política explica: o eleitor insatisfeito se mobiliza mais para punir do que o satisfeito para premiar. O próprio Trump perdeu cerca de 40 cadeiras e a maioria na Câmara em 2018. Hoje a margem é estreita: os republicanos têm 218 das 435 cadeiras, contra 214 democratas, e
53 dos 100 senadores. Aos democratas bastam três cadeiras a mais na Câmara e quatro no Senado.
Trump vai perder espaço no parlamento, e por méritos próprios. O Trump do segundo mandato é mais belicoso e intervencionista. Em 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra contra o Irã, que respondeu fechando o Estreito de Ormuz e levou a guerra ao bolso do eleitor norte-americano: o combustível disparou e a inflação passou de 3,0% na posse para 4,2% em maio, com os preços subindo acima dos salários há um ano. O tarifaço não reindustrializou o país nem baixou o custo de vida e foi derrubado pela própria Suprema Corte, por 6 votos a 3; ainda assim, Trump insistiu numa nova tarifa global de 10%. Somam-se a violência e as perseguições do ICE, que cobram seu preço: Trump teve 48% do voto latino em 2024, mas hoje 67% dos latinos o desaprovam. Os cortes no funcionalismo e em programas sociais, como o Medicaid, completam o quadro.

O resultado é a menor aprovação do mandato: apenas 37,3% aprovam o governo e cerca de 60% o reprovam. Os democratas lideram a intenção de voto para o Congresso por 51,4% a 43,2%, e mais de 43 milhões de pessoas já votaram antecipadamente, 10 milhões a mais que em 2022, sinal de motivação num país de voto facultativo. Como a apuração é lenta, algumas cadeiras podem levar mais de uma semana para ser definidas.

Minha projeção é de virada na Câmara, com ganho democrata de cerca de 35 cadeiras, de 214 para 249, maioria suficiente para fiscalizar o governo, ocupar as comissões e barrar Trump. No Senado a disputa é mais dura, mas Kansas, Maine, Alasca e até o Texas, onde James Talarico lidera Ken Paxton por 49% a 43%, podem levar os democratas a 51 cadeiras ou mais. Se apenas a Câmara virar, repete-se 2018: Trump segue desgastado e com menos projetos aprovados. Se as duas Casas virarem, o recado obrigará a rever tarifas, cortes sociais e guerras externas. Impeachment, não creio: a condenação exige dois terços do Senado. Mas, a partir de 3 de novembro, o debate passa a ser asucessão de 2028.

Não será fácil. Em Israel, o Likud de Netanyahu aparece como o partido mais votado, ainda que sem maioria; no Brasil, Lula venceu com 64 milhões de votos, mas Flávio Bolsonaro fez quase 60 milhões. A extrema direita tem base robusta. E há um alerta: Trump é um contumaz mentiroso sobre o processo eleitoral. Em 2020, suas alegações de fraude foram rejeitadas em dezenas de processos e terminaram na invasão do Capitólio. Para os cientistas políticos Levitsky e Ziblatt, rejeitar as regras do jogo é o primeiro sinal do autoritarismo. Trump, Netanyahu e o bolsonarismo compartilham essa lógica: quando ganham, as urnas valem; quando perdem, tudo é fraude.

Israel Aparecido Gonçalves é Doutor em Sociologia e Ciência Política pela Universidade Federal
de Santa Catarina (UFSC) e Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos
(UFSCar). Organizador da coleção Sociologia e Direito, no sexto volume, pela editora Catarina de
Alexandria, 2026. Comentarista de política no site NJ Notícias.

Banner Publicitário

Descubra mais sobre NJ Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Mais notícias...

Deixe uma resposta

- PUBLICIDADE -spot_img

Ultimas Notícias