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Minha conversa com Barbosa diz muito sobre goleiros na Copa e no Brasil

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Adalberto Mansur
Agência ProImprensa
Barbosa e eu, na banca de jornais em Praia Grande, em 2000
Crédito: Angela Mansur

Se você não identificou, esse na foto sou eu. Ao lado, está Barbosa, o goleiro do Brasil na tragédia do Maracanã na Copa do Mundo de 1950. A imagem, feita em 2000, me traz recordações sobre tudo o que marca a vida dos goleiros.

Inclusive eu, que me divertia no gol em rachões e no time do Jornal de Limeira. Como jornalista esportivo, entendi que goleiros no Brasil são tratados de uma forma diferente. Uma grande atuação é vista como “obrigação” ou sequer comentada. Já as críticas ao atacante que falha nas conclusões somem se ele conseguir balançar as redes.
O Brasil que estreia na Copa do Mundo sábado, 13, contra Marrocos tem um trio de goleiros de alto nível. O titular Alisson e o reserva imediato Ederson estão na lista dos mais caros do futebol mundial. Também gosto do Weverton, do Grêmio, mas com uma passagem de mais de 450 jogos pelo Palmeiras que reúne vários títulos e atuações importantes.
Dito isso, falemos do histórico encontro. Em julho de 2000, o “Maracanaço” completava 50 anos. No início do ano, a imprensa buscava uma entrevista com Barbosa, na época com 79 anos. Ouvir centenas de vezes a pergunta sobre o gol de Gigghia que decretou a derrota brasileira em pleno Maracanã não era problema para ele. Já dava até palestras contando sua trajetória.
Pela TV Globo, soube que o goleiro vivia em Praia Grande, no litoral de São Paulo, mesmo destino das minhas férias do Jornal. Chegando à cidade, pergunto a algumas pessoas, até que o garçom de um restaurante aponta para uma banca de jornais. Nela, o jornaleiro confirma:
– Hoje ele não apareceu. Mas venha sim! Ele gosta de ficar aqui porque tem ar condicionado. Ele gosta de conversar.
Passo algumas vezes, até que vejo Barbosa na banca. Unindo os espíritos de jornalista e de fã, vou até ele e me apresento. Digo que queria conversar, mas estar diante de uma pessoa que viveu a história, e sofreu com ela, me faz travar.
Se falasse de Brasil e Uruguai, tudo bem! Mas buscava, sim, algo que o remetesse a Limeira, um amistoso por aqui, uma citação da Inter ou Independente. Barbosa relata que não se recordava de ter disputado uma partida na cidade. Fala de Campinas, da Ponte Preta – de camisa similar ao seu Vasco da Gama, onde jogou por 20 anos.
Longe da tristeza, Barbosa demonstrava serenidade. Dois anos antes, a esposa falecera, após 54 anos de casamento. O casal tinha uma filha adotiva, Tereza Borba – que cuidava do pai em Praia Grande.
Outro drama, antes da Copa de 1954
Em entrevistas, Tereza diz que o pai havia superado o “Maracanaço”. Seguiu jogando em alto nível e era presença certa no Brasil da Copa de 1954, mas fraturou a perna em uma partida contra o Botafogo (RJ). Após o fim da carreira e sem temer fantasmas, trabalhou por um tempo na administração do Maracanã.
Pedi a Barbosa para tirar uma foto, e minha esposa Angela fez o clique. Nem reparei que estava sem camisa, voltando da praia. Meu colega Rogério Rueda ajudou com a IA para “colocar” uma camiseta em mim na imagem que acompanha esta postagem.
Dura realidade, 50 anos depois
Fim de entrevista. Retornei feliz ao hotel em que estávamos. As perguntas que pretendia fazer vieram somente após a conversa com Barbosa, mas o roteiro impediu um segundo encontro.
Talvez tenha sido melhor porque a realidade ainda era dura, meio século depois. “Frangueiro”, reagiu a pessoa mais idosa do meu grupo de passeio, que tinha 20 anos na época do “Maracanaço”. “Quem é Barbosa?”, me perguntou dias depois o jovem artefinalista do Jornal, quando montávamos a página com a reportagem.
Talvez a resposta para o jovem esteja nas palavras do jornalista Armando Nogueira: “A criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro. Era um goleiro magistral. Fazia milagres, desviando de mão trocada bolas envenenadas. O gol de Ghiggia caiu-lhe como uma maldição. E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo”.
Barbosa morreu em abril de 2000, três meses antes do episódio do Maracanã completar 50 anos. A tudo isso soma-se a revelação feita pelo goleiro Jefferson, com passagem pelo Botafogo (RJ). Em 2019, ele contou na TV que um dirigente da CBF tentou barrar sua convocação para o Mundial Sub-20 de 2003.
“A seleção não pode ter um goleiro negro”, teria afirmado o dirigente, numa alusão implícita ao episódio de Barbosa, que, como Jefferson, também era negro.
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