Por Fernando Garayo

Nesta quinta-feira (11) inicia a Copa do Mundo de Futebol, o njnoticias em clima de Copa, durante está Copa do Mundo vai abordar as interferências política no decorrer das Copas. Toda semana vamos levar ao leitor um personagem do futebol brasileiro que foi perseguido pelo regime da ditadura militar no Brasil de 1964 a 1985. Vamos começar por João Saldanha figura histórica do jornalismo brasileiro na luta contra a ditadura e redemocratização do Brasil.
Antes de a Seleção Brasileira conquistar o tricampeonato mundial no México, em 1970, houve um personagem fundamental na construção daquela equipe histórica: João Saldanha. Jornalista, comentarista esportivo, treinador e militante político, ele foi o responsável por reorganizar a seleção após o fracasso na Copa de 1966 e conduzi-la com campanha perfeita nas Eliminatórias para o Mundial. Apesar dos resultados extraordinários, acabou demitido poucos meses antes da competição em meio a conflitos com a cúpula da CBD e com o regime militar.
Conhecido como “João Sem Medo”, apelido dado pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, Saldanha assumiu a Seleção Brasileira em 1969. O Brasil precisava recuperar a confiança após a eliminação precoce na Copa da Inglaterra. Em pouco tempo, o treinador montou uma equipe ofensiva e competitiva, baseada em jogadores como Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson, Rivellino e Carlos Alberto Torres.
Nas Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa de 1970, o desempenho foi impecável. A seleção venceu os seis jogos disputados, marcou 23 gols e sofreu apenas dois, obtendo 100% de aproveitamento. O feito transformou as chamadas “Feras de Saldanha” em favoritas ao título mundial.
Entretanto, o sucesso dentro de campo contrastava com as tensões políticas fora dele. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), João Saldanha era um crítico declarado da ditadura militar instalada no país desde 1964. Sua postura independente passou a incomodar o governo do general Emílio Garrastazu Médici, justamente no período mais repressivo do regime.
O episódio mais conhecido ocorreu quando Médici manifestou publicamente o desejo de ver o atacante Dario, o Dadá Maravilha, na seleção. Saldanha reagiu afirmando que o presidente deveria cuidar dos ministérios e que a escalação da equipe era responsabilidade do treinador. A resposta repercutiu nacionalmente e aprofundou o desgaste entre o técnico e o governo.
Além das divergências políticas, havia conflitos internos na comissão técnica e na direção da CBD, presidida por João Havelange. Em março de 1970, após uma sequência de resultados considerados abaixo da expectativa em amistosos, Saldanha foi demitido, apenas 78 dias antes da estreia brasileira na Copa do Mundo. Mário Zagallo assumiu o comando da equipe e manteve grande parte da base montada pelo antecessor.
A perseguição política ao treinador não se limitou à sua demissão. Diversos historiadores e pesquisadores apontam que a sua condição de comunista e opositor do regime pesou decisivamente para sua saída. O próprio Saldanha denunciaria posteriormente pressões, vigilância e interferências da ditadura em seu trabalho.
Um dos episódios menos conhecidos ocorreu durante os eventos relacionados à Copa do Mundo do México. Segundo relatos históricos sobre sua atuação política internacional, Saldanha aproveitou sua presença em atividades ligadas ao Mundial para denunciar violações de direitos humanos praticadas pela ditadura brasileira. Ele teria distribuído documentos e listas contendo nomes de presos políticos, desaparecidos e vítimas de tortura, buscando chamar a atenção da imprensa estrangeira para a repressão que ocorria no Brasil.
Embora não tenha comandado a seleção na fase final da Copa, a contribuição de João Saldanha para o tricampeonato é amplamente reconhecida. Foi ele quem estruturou a equipe, definiu a espinha dorsal do elenco e devolveu ao futebol brasileiro a confiança perdida após 1966. Muitos historiadores do esporte consideram que o título conquistado por Zagallo no México também carrega a marca do trabalho realizado por Saldanha.
Décadas depois, João Saldanha permanece como uma das figuras mais emblemáticas da história do futebol brasileiro: um técnico vitorioso, jornalista respeitado e opositor da ditadura que se recusou a submeter suas convicções políticas às conveniências do poder.
Fontes consultadas: UOL Esporte, GE/Globo, EBC, Correio 24 Horas, estudos acadêmicos da UFMG e registros históricos sobre a relação entre futebol e ditadura militar.
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