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O Brasil diante do fantasma do nazifascismo: quando o voto vira motivo de perseguição

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Por Fernando Garayo- Jornalista e Cientista Politico

Membros das SA colam cartazes de boicote ao comércio judeu

Boicotar comerciantes por suas escolhas políticas, ameaçar empresas e exigir a demissão de trabalhadores que votaram em Lula não são manifestações banais de divergência. São sinais de intolerância que precisam ser enfrentados antes que a perseguição se transforme em algo ainda mais grave.

O Brasil precisa parar e refletir sobre o caminho perigoso que está sendo aberto pela radicalização de setores da extrema-direita. O que estamos presenciando ultrapassa os limites de uma disputa eleitoral. Quando cidadãos passam a ser perseguidos por seu voto, comerciantes são ameaçados por suas convicções políticas e empresários são estimulados a demitir funcionários porque escolheram Luiz Inácio Lula da Silva nas urnas, estamos diante de uma preocupante tentativa de transformar a divergência política em motivo de exclusão social e econômica.

O voto, em uma democracia, é livre. Cada cidadão tem o direito de escolher seu candidato sem precisar pedir autorização ao patrão, ao vizinho, ao cliente ou a qualquer grupo político. Ninguém deveria temer perder o emprego, ver seu comércio boicotado ou sofrer humilhações públicas simplesmente porque exerceu um direito garantido pela Constituição.

Entretanto, manifestações recentes nas redes sociais, com campanhas que incentivam o boicote a empresas e a demissão de trabalhadores identificados como eleitores de Lula, mostram até onde pode chegar a intolerância quando o adversário político deixa de ser visto como um cidadão com direitos e passa a ser tratado como um inimigo que precisa ser punido.

Uma reportagem publicada pelo JOTA em 28 de outubro de 2026 relatou o crescimento das denúncias de assédio eleitoral após o segundo turno e medidas do Ministério Público do Trabalho contra manifestações que incentivavam a perseguição de trabalhadores por suas convicções políticas. A mobilização não pode ser tratada como uma simples brincadeira de internet: ela afeta a dignidade humana, a liberdade de consciência e a própria convivência democrática.

A história já mostrou onde começa o caminho da perseguição

Há uma lição histórica que não podemos ignorar. Em 1º de abril de 1933, poucos meses depois de Adolf Hitler chegar ao poder na Alemanha, o regime nazista promoveu um boicote nacional contra estabelecimentos comerciais e profissionais judeus. Integrantes de organizações nazistas se posicionaram diante de lojas, intimidaram clientes e ajudaram a difundir a ordem de que os alemães não comprassem de judeus.

A perseguição não parou naquele dia. O regime avançou sobre o direito ao trabalho, restringiu oportunidades profissionais, expulsou judeus de funções públicas e destruiu progressivamente suas condições de sobrevivência econômica. A exclusão foi acompanhada por propaganda de ódio, leis discriminatórias, violência e desumanização de uma população inteira.

A documentação do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos registra que o boicote de abril de 1933 foi a primeira grande ação nacional coordenada do regime nazista contra os judeus e marcou o início de uma campanha mais ampla de exclusão econômica e social.

O que veio depois foi uma das maiores tragédias da história humana: o Holocausto, no qual seis milhões de judeus foram assassinados pelos nazistas e seus colaboradores, além da perseguição e do assassinato de milhões de outras vítimas.

É fundamental estabelecer uma distinção histórica: não se pode afirmar que toda campanha de boicote político seja nazista, nem que o Brasil esteja automaticamente repetindo o Holocausto. As circunstâncias históricas são diferentes. Mas é legítimo e necessário reconhecer que a identificação de pessoas, a organização de listas, a intimidação econômica e a exclusão baseada na identidade ou nas convicções podem funcionar como instrumentos de perseguição autoritária.

A história não deve ser usada para produzir comparações irresponsáveis. Deve servir para identificar sinais de perigo antes que seja tarde.

Da Alemanha dos anos 1930 ao Brasil de hoje: a intolerância muda de linguagem, mas ameaça os mesmos direitos

Existe uma pergunta que todo brasileiro comprometido com a democracia precisa fazer: que sociedade estamos construindo quando uma pessoa passa a ser considerada indigna de trabalhar, comprar ou vender simplesmente porque votou em determinado candidato?

Na Alemanha nazista, a propaganda procurava convencer a população de que os judeus eram responsáveis pelos problemas do país. A mentira repetida, a fabricação de inimigos e a desumanização de grupos inteiros ajudaram a preparar o terreno para medidas cada vez mais violentas.

No Brasil contemporâneo, os contextos e as proporções são diferentes, mas determinadas práticas merecem atenção redobrada: a circulação de listas de comerciantes supostamente alinhados a Lula, a convocação de boicotes, a exposição de trabalhadores nas redes sociais e o incentivo para que empresários investiguem a preferência política de seus funcionários.

A reportagem do JOTA publicada nesta quarta-feira, 28 de outubro, descreve justamente essa nova onda de retaliações políticas e as providências adotadas pelo Ministério Público do Trabalho diante de publicações que estimulavam demissões discriminatórias.

O perigo está na normalização dessas práticas. Primeiro, alguém sugere que não se compre em determinada loja. Depois, propõe-se que o proprietário seja exposto publicamente. Em seguida, defende-se que trabalhadores sejam demitidos por suas opiniões. Quando a sociedade começa a aceitar que direitos fundamentais dependam da posição política de cada pessoa, a democracia perde terreno. Não é preciso esperar que a perseguição chegue ao extremo para condená-la.

O trabalhador não é propriedade ideológica do patrão

Uma das faces mais perversas dessa radicalização é a tentativa de transformar a relação de emprego em instrumento de controle político.

O trabalhador vende sua força de trabalho, seu conhecimento e seu tempo. Não entrega ao empregador sua consciência, sua liberdade de pensamento ou seu direito de votar.

Um empresário pode ter suas preferências políticas. Um funcionário também. Ambos têm o direito de defender suas ideias dentro dos limites da lei. O que não se pode admitir é que a relação de poder econômico seja usada para intimidar alguém, exigir determinado voto ou retaliar uma escolha feita na urna.

A legislação brasileira protege a liberdade de consciência e de convicção política. A Constituição Federal assegura a igualdade, a liberdade de manifestação do pensamento e o pluralismo político. A legislação trabalhista também oferece instrumentos para enfrentar práticas discriminatórias.

O assédio eleitoral no ambiente de trabalho ocorre quando alguém utiliza sua posição de poder para constranger ou pressionar trabalhadores em razão de suas escolhas políticas. O Ministério Público do Trabalho atua para combater essas violações.

É preciso deixar claro: um funcionário não se torna inimigo do empresário porque votou em Lula, assim como um empresário não se torna inimigo do trabalhador porque votou em outro candidato. Uma democracia madura exige respeito às diferenças, não submissão ideológica.

O boicote político e a destruição da convivência social

O comércio brasileiro é formado por milhões de pessoas que trabalham diariamente para sustentar suas famílias. São pequenos comerciantes, empreendedores, profissionais liberais, prestadores de serviços e trabalhadores que dependem da circulação de dinheiro para sobreviver.

Quando uma campanha política tenta identificar e punir estabelecimentos por causa do voto de seus proprietários, o prejuízo pode atingir não apenas o empresário, mas também seus empregados, fornecedores e familiares.

E qual é a lógica por trás dessa perseguição? Se o comerciante não pensa como determinado grupo, ele não merece clientes. Se o trabalhador não vota como seu patrão, não merece emprego. Se o cidadão discorda da ideologia dominante, deve ser isolado. Essa lógica é incompatível com a democracia.

O consumidor tem liberdade para escolher onde comprar, inclusive por razões éticas ou políticas. Mas há uma diferença entre uma decisão individual de consumo e uma campanha organizada de intimidação, exposição pública e perseguição destinada a retirar de alguém seus meios de subsistência por causa de suas convicções. É essa fronteira que precisa ser compreendida. O Brasil não pode aceitar que as relações comerciais e profissionais sejam transformadas em trincheiras de uma guerra política permanente.

O nazifascismo não começa necessariamente com campos de concentração

Quando se fala em nazismo e fascismo, muitas pessoas imaginam imediatamente os campos de concentração, as tropas uniformizadas e as atrocidades da Segunda Guerra Mundial. Mas os regimes autoritários não se estabelecem apenas por meio da violência explícita.

Eles também avançam quando a sociedade se acostuma à perseguição de adversários, quando a mentira substitui os fatos, quando grupos inteiros são tratados como inimigos e quando a liberdade passa a ser considerada um privilégio reservado aos que pensam da maneira considerada correta.

Na Alemanha, o boicote aos negócios judeus foi seguido por restrições legais, exclusão profissional, confisco de propriedades, violência organizada, deportações e assassinatos em massa. O Holocausto foi resultado de um processo histórico complexo, conduzido por um Estado totalitário e marcado por uma política genocida.

Não devemos banalizar a palavra nazismo. Mas tampouco devemos ignorar comportamentos autoritários apenas porque ainda não alcançaram as dimensões das tragédias do passado. A vigilância democrática começa justamente quando percebemos que a liberdade do outro está sendo ameaçada.

Quando alguém defende o direito de perseguir trabalhadores por seu voto, está atacando um princípio que protege todos nós. Hoje, o alvo pode ser um eleitor de Lula. Amanhã, pode ser um eleitor de outro partido, um sindicalista, um jornalista, um professor ou qualquer pessoa que se recuse a obedecer a determinada orientação política. A liberdade não pode depender de quem venceu a eleição.

O silêncio também pode alimentar a intolerância

Outro aspecto preocupante é a reação daqueles que assistem a essas campanhas sem questionar seus métodos. É possível ser conservador, liberal, socialista, progressista ou pertencer a qualquer outra corrente política. A democracia não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige que todos reconheçam limites para o exercício do poder e respeitem os direitos fundamentais.

Um empresário que votou na direita não precisa concordar com Lula. Um trabalhador que votou na esquerda não precisa renunciar às suas convicções para manter o emprego. Um comerciante não deveria ser ameaçado por sua preferência eleitoral.

A questão central não é quem está à direita ou à esquerda. É saber se estamos dispostos a defender os direitos de quem pensa diferente de nós. É nesse momento que a democracia demonstra sua força — ou revela sua fragilidade.

Quando políticos, influenciadores ou empresários incentivam a perseguição de adversários, a sociedade precisa reagir com firmeza, sem violência e dentro da lei. As autoridades devem investigar eventuais abusos, os sindicatos precisam orientar os trabalhadores e a imprensa tem o dever de expor práticas que ameacem a liberdade e a dignidade humana.

O Brasil precisa escolher entre a convivência democrática e a política do ódio

O Brasil tem uma Constituição que protege o pluralismo político, uma sociedade marcada pela diversidade e uma história na qual a luta pela democracia custou muito caro. Não podemos permitir que o resultado de uma eleição seja transformado em autorização para humilhar, perseguir ou excluir milhões de cidadãos.

O voto de um brasileiro não lhe retira a dignidade. Sua preferência partidária não determina seu caráter. Sua posição política não apaga seus direitos.

A democracia não consiste em garantir liberdade apenas para os vencedores. Consiste em assegurar que os derrotados continuem tendo voz, direitos e proteção perante a lei — e que os vencedores não utilizem seu poder para perseguir os adversários.

O Brasil precisa levar a sério a radicalização da extrema-direita quando ela se manifesta por meio da intimidação econômica, da discriminação política e da tentativa de transformar cidadãos em inimigos. Não estamos afirmando que o país já vive sob um regime nazista. Estamos alertando que práticas autoritárias precisam ser enfrentadas antes que se tornem socialmente aceitas.

A história nos ensina que a perseguição cresce quando a sociedade se cala, quando o preconceito se transforma em política e quando a dignidade humana passa a ser negociável.

O Brasil não precisa que empresários demitam trabalhadores por suas ideias. Precisa de empresários que respeitem a liberdade, de trabalhadores protegidos contra a discriminação e de cidadãos capazes de conviver com quem pensa diferente.

Não precisamos de listas de inimigos. Precisamos de pontes entre brasileiros. Não precisamos de perseguição política. Precisamos de justiça.

Não precisamos de uma sociedade dividida entre os que podem trabalhar e os que devem ser excluídos por seu voto. Precisamos de uma democracia na qual todos tenham o direito de pensar, escolher e viver com dignidade.

O nazismo deixou uma lição dolorosa para a humanidade: nenhum povo está imune ao autoritarismo quando deixa de reconhecer a humanidade daqueles que considera adversários. Que o Brasil aprenda com a história, antes que a intolerância avance ainda mais. O verdadeiro teste da democracia não é a capacidade de vencer uma eleição. É a capacidade de respeitar os direitos de quem votou de maneira diferente.

A democracia se defende todos os dias, inclusive quando o alvo da perseguição pensa diferente de nós.

Fontes para consulta

 

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