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Quando a ciência vira opinião: o negacionismo climático de Flávio Bolsonaro no Jornal Nacional

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Por Fernando Garayo- Jornalista- Cientista político- Ambientalista

Platão no livro A República, apresenta a Alegoria da Caverna. Homens permanecem acorrentados desde o nascimento dentro de uma caverna, olhando para uma parede onde enxergam apenas sombras projetadas por objetos que passam atrás deles. Para aqueles prisioneiros, as sombras são a realidade. Eles não conhecem outra coisa. Até que um deles consegue se libertar.

A princípio, a luz do lado de fora o incomoda. Seus olhos precisam se adaptar. Aos poucos, ele percebe que aquilo que considerava realidade dentro da caverna era apenas uma aparência. Existe um mundo muito maior do lado de fora. E então acontece a parte mais perturbadora da alegoria: quando esse homem retorna à caverna para contar aos outros o que descobriu, eles não acreditam nele.

A sabatina de Flávio Bolsonaro no Jornal Nacional, na noite de sexta-feira (28), deixou uma pergunta incômoda para quem acompanha com seriedade o debate sobre o futuro do planeta: como alguém que pretende governar um país continental como o Brasil pode tratar uma das maiores ameaças da humanidade com tamanho desprezo pela ciência?

Não se trata apenas de uma divergência política. Não é uma questão de esquerda ou direita. Não é uma disputa entre Lula e Bolsonaro. É uma questão que ultrapassa governos, partidos e ideologias: o planeta está aquecendo, as atividades humanas são a principal causa desse aquecimento e as consequências já estão sendo sentidas.

Durante a entrevista, Flávio Bolsonaro demonstrou uma postura de negacionismo climático ao questionar a contribuição humana para o aquecimento global. A afirmação entra em choque com o conhecimento científico consolidado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), organismo das Nações Unidas que reúne e avalia milhares de estudos científicos sobre o tema. O IPCC aponta que as atividades humanas, principalmente a emissão de gases de efeito estufa, provocaram o aquecimento global observado nas últimas décadas.

Aqui está o ponto mais preocupante: quando um candidato à Presidência relativiza o problema climático, ele não está apenas expressando uma opinião pessoal. Está apresentando ao eleitor uma visão de mundo que pode orientar políticas públicas.

O esgoto não pode ser apresentado como solução para o aquecimento global

Questionado sobre mudanças climáticas, Flávio Bolsonaro citou o saneamento básico como uma de suas respostas. É preciso separar as coisas.

Tratamento de esgoto é absolutamente necessário.

Água tratada e saneamento são direitos fundamentais. Reduzem doenças, protegem rios, melhoram a qualidade de vida e representam uma das maiores necessidades de infraestrutura do Brasil. O próprio governo federal destaca que o saneamento melhora as condições de saúde da população e protege os recursos hídricos.

Mas isso não significa que construir estações de tratamento de esgoto seja, isoladamente, uma política capaz de enfrentar a crise climática.

Aliás, existe uma ironia na própria argumentação: o tratamento de esgoto também precisa ser pensado dentro da política climática, porque determinadas etapas desses sistemas podem gerar metano (CH₄) e óxido nitroso (N₂O), ambos gases de efeito estufa. O IPCC reconhece o esgoto como uma fonte potencial desses gases.

O Ministério do Meio Ambiente, inclusive, possui medidas específicas para reduzir emissões provenientes de efluentes sanitários, incluindo gerenciamento e aproveitamento energético do biogás produzido em sistemas de tratamento.

O debate sério é: como transformar o saneamento em uma política pública que, além de proteger a saúde e os rios, também reduza emissões?

O verdadeiro problema está no modelo de desenvolvimento

O aquecimento global não nasceu porque uma cidade deixou de construir uma estação de tratamento de esgoto. Ele está relacionado principalmente ao gigantesco aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera provocado pelas atividades humanas.

A queima de carvão, petróleo e gás; o transporte movido a combustíveis fósseis; a indústria; o desmatamento; as mudanças no uso da terra; determinadas práticas agropecuárias e outras atividades humanas aumentam a concentração de gases como dióxido de carbono, metano e óxido nitroso na atmosfera.

O próprio material oficial brasileiro sobre mudanças climáticas reconhece a relação entre o aumento dos gases de efeito estufa e o aquecimento do planeta, destacando o papel das atividades humanas e, especialmente do uso de combustíveis fósseis e das mudanças no uso da terra.

Precisamos discutir descarbonização da economia, transição energética, redução do desmatamento, proteção das florestas, transporte coletivo, eletrificação da frota, energias renováveis, eficiência energética, agricultura de baixo carbono e redução das emissões industriais.

Precisamos discutir, sobretudo, mudança de comportamento e mudança de modelo econômico, não existe tratamento de esgoto capaz de compensar uma política que incentive a destruição das florestas ou que ignore a emissão crescente de carbono.

O negacionismo é uma ameaça política

Há algo ainda mais grave. O negacionismo climático transforma um problema científico em uma guerra cultural. A ciência apresenta evidências. O negacionismo apresenta dúvidas.

A ciência mede temperaturas, concentrações atmosféricas, emissões e alterações nos ecossistemas. O negacionismo responde dizendo que tudo não passa de exagero.

Mas o clima não participa de eleição, a atmosfera não vota, a física não negocia, o dióxido de carbono não pergunta se quem o emitiu é de esquerda ou de direita, uma enchente não escolhe partido político.

As consequências das mudanças climáticas atingem ricos e pobres, embora os mais vulneráveis sejam geralmente os que mais sofrem.

Quando cidades são atingidas por enchentes, quando ondas de calor provocam mortes, quando secas castigam plantações, quando rios diminuem, quando incêndios florestais se multiplicam ou quando eventos extremos se tornam mais frequentes e intensos, não estamos diante de uma discussão acadêmica. Estamos diante da realidade.

A política precisa abandonar o conforto da mentira

A entrevista também expôs um problema recorrente da política brasileira: a capacidade de determinados discursos criarem uma realidade paralela na quais fatos inconvenientes simplesmente deixam de existir.

A checagem publicada pelo UOL Confere após a entrevista identificou diversas afirmações falsas ou enganosas feitas pelo candidato, entre elas a negativa da contribuição humana para o aquecimento global. A mesma verificação apontou problemas em outras declarações feitas durante a sabatina. Isso não significa que jornalistas devam escolher candidatos ou fazer campanha contra alguém. Significa apenas que fatos precisam continuar sendo fatos, independentemente de quem os pronuncia.

Uma entrevista de um candidato presidencial não pode se transformar em um espaço onde uma afirmação cientificamente refutada seja apresentada ao público como se tivesse o mesmo peso de décadas de pesquisa científica. Questionar a ciência é legítimo, ignorar as evidências não é ciência.

O Brasil precisa de um presidente que entenda o tamanho do desafio

O Brasil é uma das maiores economias do planeta. Temos uma das maiores extensões territoriais. Possuímos a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e outros biomas fundamentais para o equilíbrio ambiental. Temos potencial gigantesco para energia solar, eólica e outras fontes renováveis.Temos condições de liderar uma transição para uma economia de baixo carbono.

Mas, para isso precisamos de um governo que compreenda que mudança climática não é uma pauta de ambientalistas: é uma pauta econômica, social, sanitária, energética, agrícola e de segurança nacional.

Saneamento é fundamental, água tratada é fundamental, tratamento de esgoto é fundamental. Mas isso não pode ser usado como cortina de fumaça para evitar a discussão central: o que faremos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e impedir que continuemos acelerando o aquecimento do planeta?

É essa pergunta que um candidato à Presidência precisa responder. Não basta dizer que vai tratar esgoto. É preciso dizer como vai reduzir carbono? Como vai combater o desmatamento? Como vai acelerar a transição energética? Como vai transformar o transporte? Como vai reduzir emissões da indústria e da agropecuária? Como vai proteger as florestas? Como vai preparar as cidades para eventos climáticos extremos?

E, acima de tudo, é preciso reconhecer aquilo que a ciência já demonstrou: o comportamento humano está alterando o clima do planeta.

Negar isso não torna o problema menor. Apenas torna a solução mais distante.

Essa foi a parte mais preocupante da sabatina de Flávio Bolsonaro: não apenas aquilo que ele disse sobre o clima, mas a possibilidade de que milhões de brasileiros sejam convencidos de que a maior crise ambiental do nosso tempo pode ser resolvida com uma resposta que sequer enfrenta o coração do problema.

O planeta não precisa de políticos que neguem o incêndio enquanto discutem a cor da mangueira. Precisa de governantes dispostos a apagar o fogo.

 

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