
O linguista e pensador político Noam Chomsky há décadas provoca desconforto ao afirmar que o governo dos Estados Unidos é “a organização terrorista mais significativa do mundo”. A frase, contundente e polêmica, não busca equiparar formalmente um Estado a grupos terroristas tradicionais, mas denunciar aquilo que Chomsky entende como uma política sistemática de violência, dominação e destruição praticada sob o manto da legalidade internacional.
A crítica de Chomsky desmonta uma narrativa largamente difundida: a de que os Estados Unidos agem sempre como defensores da democracia, da liberdade e da paz mundial. Para o autor, essa imagem é cuidadosamente construída pelos meios de comunicação e pela diplomacia internacional para ocultar práticas que, se realizadas por países rivais, seriam prontamente classificadas como terrorismo.
Quando um governo financia guerras ilegais, arma grupos insurgentes, sustenta ditaduras violentas e promove intervenções que deixam milhares de civis mortos, como isso deve ser chamado? Para Chomsky, o nome é claro: terror de Estado.
A história recente oferece exemplos abundantes. Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos apoiaram golpes militares em países da América Latina, como Chile e Brasil, patrocinando regimes autoritários responsáveis por torturas, assassinatos e desaparecimentos. Em nome do combate ao comunismo, Washington financiou a repressão e ajudou a sufocar experiências democráticas populares.
No Chile, o golpe contra Salvador Allende abriu caminho para a ditadura de Augusto Pinochet, marcada pela violência brutal contra opositores. Na visão crítica de Chomsky, não se tratou apenas de interferência geopolítica, mas de terrorismo institucionalizado: o uso da violência para impor interesses políticos e econômicos.
No Oriente Médio, a lógica se repetiu. As guerras no Iraque e no Afeganistão foram justificadas por discursos de segurança global, mas resultaram em devastação humana e estrutural. Milhares de civis mortos, cidades destruídas, sociedades desestabilizadas. A promessa de liberdade veio acompanhada de bombas.
A grande provocação de Chomsky está justamente em inverter a lente moral dominante. Normalmente, o termo “terrorismo” é reservado aos inimigos do Ocidente, a atores não estatais que usam violência para intimidar populações. Mas quando essa mesma lógica de intimidação é aplicada por grandes potências, com drones, sanções, bloqueios e invasões, o vocabulário muda: chama-se “intervenção humanitária”, “operação militar” ou “defesa estratégica”.
Essa diferença semântica não é neutra. Ela revela quem detém o poder de nomear a violência. Quem domina a narrativa decide quais mortes são lamentáveis e quais são aceitáveis.
É por isso que a crítica de Chomsky continua atual e necessária. Ela não exige concordância absoluta, mas obriga a uma reflexão incômoda: por que a violência praticada por Estados poderosos costuma ser naturalizada, enquanto a violência dos inimigos é demonizada?
Ao chamar os Estados Unidos de maior organização terrorista do mundo, Chomsky não pretende produzir mero choque retórico. Ele denuncia a hipocrisia estrutural da ordem internacional, na qual os poderosos se arrogam o direito de destruir nações inteiras enquanto mantêm o monopólio moral do discurso sobre paz e democracia.
Esse debate é essencial porque rompe com a ingenuidade política. Nenhuma potência age apenas por altruísmo. Por trás dos discursos de liberdade, frequentemente estão interesses econômicos, estratégicos e imperiais.
A opinião de Chomsky pode parecer radical, mas talvez radical seja aceitar como normal que um país intervenha militarmente em várias partes do mundo, apoie governos repressores e provoque sofrimento em massa sem que isso seja chamado pelo nome.
Se terrorismo é o uso da violência para impor medo e submissão, então a pergunta que Chomsky nos deixa é perturbadora: quando essa violência parte de uma superpotência, por que hesitamos em reconhecê-la?
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