Por Fernando Garayo

A política é território de ideias, a ser debatidas por vias democráticas com o respeito de quem pensa diferente, e opiniões opostas. O lugar onde adversários se encontram, discordam, disputam votos e apresentam ao eleitor suas diferentes visões de país. Mas, quando a divergência abandona o campo do argumento e passa para a intimidação, para a ameaça e para a agressão, quem perde não é apenas uma pessoa. Perde a democracia.
O episódio envolvendo a ex ministra do Meio Ambiente, e candidata ao senado por São Paulo, Marina Silva durante uma caminhada de campanha no centro de São Paulo, na segunda-feira (17), é um daqueles acontecimentos que deveriam provocar indignação em qualquer democrata, independentemente de partido ou ideologia. Marina Silva foi abordada de maneira agressiva por um homem durante o ato de campanha com o candidato ao governo Fernando Haddad. Segundo relatos, ele chegou a encostar nela e precisou ser contido por pessoas que acompanhavam a caminhada. Marina, que estava fisicamente fragilizada por uma lesão na coluna, acabou sendo acolhida em um comércio próximo.
Não é preciso concordar com Marina Silva para defendê-la.
Marina é uma mulher cuja trajetória política ultrapassa as fronteiras partidárias. Ex-ministra do Meio Ambiente, ambientalista reconhecida internacionalmente e candidata ao Senado por São Paulo, ela construiu sua história dentro da democracia e da disputa política. Pode ser criticada, questionada, confrontada politicamente. Mas jamais deveria ser intimidada ou agredida por aquilo que pensa.
E aqui está o ponto fundamental: adversário político não é inimigo.
O inimigo da democracia é justamente a ideia de que o adversário precisa ser destruído.
É perigoso quando a política começa a ser apresentada como uma guerra entre “os bons” e “os maus”. Quando um lado passa a acreditar que representa o bem absoluto e que o outro encarna o mal absoluto, desaparece a possibilidade do diálogo. E, quando desaparece o diálogo, sobra a violência.
É assim que começa.
Primeiro, chama-se o adversário de inimigo.
Depois, transforma-se o adversário em ameaça.
Em seguida, passa-se a justificar a humilhação, a perseguição, a intimidação, e finalmente, alguém acredita que tem o direito de colocar as mãos sobre o outro.
É exatamente essa fronteira que a sociedade não pode permitir que seja ultrapassada.
A violência que começa nas palavras
Não se pode afirmar, sem prova, que o homem que abordou Marina tenha agido por determinação de uma organização ou partido político. As informações divulgadas até agora identificam o episódio como uma abordagem agressiva e uma tentativa de intimidação, e não permite atribuir responsabilidade coletiva a todo um campo político.
Mas isso não significa que o episódio deva ser tratado como algo menor. Existe uma atmosfera política que precisa ser observada com enorme preocupação.
A violência verbal das redes sociais, a desumanização do adversário, as campanhas de ódio, as mentiras transformadas em munição política e a ideia de que qualquer ataque é aceitável contra quem pensa diferente podem criar um ambiente em que a agressão física deixa de parecer absurda.
A palavra prepara o terreno. A violência física apenas atravessa a porta.
Por isso, é necessário combater a cultura do ódio antes que ela se transforme em algo ainda mais grave.
E esse combate não pode ser seletivo.
Não pode valer apenas quando a vítima é alguém de quem gostamos.
Se um militante de esquerda agride um adversário de direita, é errado.
Se um militante de direita agride alguém de esquerda, também é errado.
Se um bolsonarista é atacado por um lulista, é errado.
Se um lulista é atacado por um bolsonarista, também é errado.
Democracia não pode funcionar com dois pesos e duas medidas.
Marina não precisa ser unanimidade
Talvez essa seja justamente a grandeza da democracia: ninguém precisa ser unanimidade.
Pode-se discordar de Marina Silva.
Pode-se discordar de Fernando Haddad.
Pode-se discordar de Lula, Bolsonaro, Tarcísio, Flávio Bolsonaro, Simone Tebet ou qualquer outro candidato.
O eleitor tem o direito de rejeitar todos eles.
Tem o direito de protestar.
Tem o direito de criticar.
Tem o direito de votar em outro candidato.
Tem até o direito de fazer oposição dura.
O que não tem é o direito de transformar a divergência em violência.
O governador Tarcísio de Freitas, adversário político de Marina e integrante de outro campo da disputa eleitoral, também condenou o episódio e afirmou que divergências, críticas e protestos fazem parte da democracia, mas não podem se transformar em violência, agressão ou intimidação.
Essa deveria ser uma posição elementar.
Não é preciso estar do mesmo lado para defender o outro quando ele é vítima de violência.
Aliás, é justamente quando defendemos o direito de quem pensa diferente que demonstramos acreditar verdadeiramente na democracia.
A política não é um campeonato entre santos e demônios
Há uma doença perigosa contaminando o debate político brasileiro: a necessidade de transformar tudo em uma disputa moral absoluta.
“Nós somos o bem.”
“Eles são o mal.”
“Nós somos patriotas.”
“Eles são inimigos da pátria.”
“Nós defendemos Deus.”
“Eles são contra Deus.”
“Nós somos honestos.”
“Eles são todos criminosos.”
Esse tipo de discurso pode ser eleitoralmente conveniente, mas é democraticamente destrutivo.
Porque ninguém possui o monopólio do bem.
Nenhum partido é dono da verdade.
Nenhuma ideologia é proprietária da virtude.
E nenhum político deveria ser tratado como salvador da pátria.
A democracia existe justamente porque seres humanos são diferentes, possuem interesses diferentes, histórias diferentes e visões diferentes sobre o futuro.
Democracia não é fazer com que todos pensem iguais. É permitir que pessoas que pensam diferentes possam continuar vivendo juntas.
E isso exige civilidade.
Exige limites.
Exige respeito.
O Brasil precisa baixar a temperatura
A eleição de 2026 será uma disputa importante. Haverá confrontos, acusações, debates duros, críticas e certamente momentos de grande tensão.
Que assim seja.
A democracia suporta o conflito. O que ela não suporta é a transformação do conflito político em violência.
Que os candidatos disputem votos.
Que apresentem suas propostas.
Que seus partidos façam oposição.
Que os jornalistas questionem.
Que os eleitores cobrem.
Que as ruas sejam ocupadas.
Que as redes sociais sejam utilizadas para o debate.
Mas que ninguém confunda liberdade com licença para agredir.
Que ninguém transforme adversário em inimigo.
Que ninguém ache que está autorizado a atacar alguém simplesmente porque acredita estar lutando “pelo bem”.
Porque a história já ensinou, inúmeras vezes, que os maiores perigos começam quando alguém acredita possuir o monopólio da verdade e passa a enxergar o outro como alguém que precisa ser eliminado do caminho.
O episódio contra Marina Silva deveria servir de alerta.
Hoje foi Marina. Amanhã pode ser qualquer outro.
E quando a violência política se torna normal, ela não escolhe partido.
A democracia não pertence à esquerda, à direita, ao centro, a partido A ou a partido B. A democracia pertence a todos.
Por isso, defender Marina neste momento não significa necessariamente defender Marina politicamente.
Significa defender o direito de Marina existir, falar, caminhar, fazer campanha e disputar votos.
E esse direito precisa valer para todos.
Uma democracia verdadeiramente forte não é aquela em que todos concordam.
É aquela em que mesmo discordando profundamente, ainda somos capazes de olhar para o outro e reconhecer nele um cidadão, e não um inimigo.
É justamente disso que o Brasil mais está precisando neste momento: menos ódio, menos demonização e mais democracia.

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