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Quando a vacina vira inimiga: o negacionismo que pode devolver ao Brasil as doenças do passado

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Por Fernando Garayo

Sarampo volta a preocupar no Brasil. Foto Redes Sociais,

O Brasil esta vivendo um fenômeno profundamente irracional. Doenças que durante décadas foram combatidas pela ciência, pela medicina e pelo esforço coletivo começam novamente a ameaçar a população porque uma parcela da sociedade decidiu transformar a vacinação em uma disputa ideológica.

O Brasil havia conquistado em 2016 a certificação internacional de eliminação da circulação do vírus do sarampo. Em 2019 porém, perdeu essa certificação diante da reintrodução do vírus e das baixas coberturas vacinais. Depois da mudança de governo em 2023, que voltou a investir nas campanhas de vacinação e recuperar os índices necessários em 2024 o pais voltou a ser reconhecido como livre da transmissão da doença.

Agora, em agosto de 2026, o sarampo novamente está batendo à porta, São Paulo já registrou 23 casos neste ano, contra apenas dois em 2025. A cobertura da tríplice viral no Estado está muito abaixo dos 95% considerados necessários para uma proteção coletiva adequada: 77,5% na primeira dose e apenas 65,5% na segunda, segundo dados preliminares da Secretaria Estadual da Saúde.

O Ministério da Saúde informa que já são 24 casos de sarampo registrados no Brasil em 2026, relacionados à importação do vírus, sendo 21 ainda acompanhados em São Paulo.

O passado que insiste em voltar

A história das vacinas é justamente a história de doenças que deixaram de fazer parte do cotidiano porque milhões de pessoas foram imunizadas.

A poliomielite, responsável pela chamada paralisia infantil, foi eliminada do Brasil graças à vacinação. Mas, isso não significa que o perigo tenha desaparecido para sempre. Em 2026, a própria Anvisa alertou para o alto risco de reintrodução do poliovírus no país em razão das baixas coberturas vacinais.

O mesmo raciocínio vale para o sarampo e para outras doenças imunopreveníveis, como difteria, rubéola e coqueluche.

A medicina não fez essas doenças desaparecerem por mágica! Foram vacinas, campanhas públicas, profissionais de saúde, pais levando que levaram seus filhos aos postos para tomar as vacinas, foi o SUS que fornece a vacina gratuitamente. Sobretudo uma decisão coletiva de proteger não apenas o indivíduo, mas também a comunidade.

O legado do negacionismo na pandemia

É impossível discutir o atual ambiente de desconfiança em relação às vacinas sem lembrar o comportamento do governo de Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19.

Bolsonaro repetidamente questionou a vacinação, atacou a obrigatoriedade da imunização e fez declarações que alimentaram dúvidas sobre a segurança e a eficácia das vacinas. Em novembro de 2020, por exemplo, questionou publicamente a CoronaVac e relacionou sem evidência estabelecida um episódio ocorrido durante os testes aos possíveis efeitos da vacina.

Enquanto cientistas, médicos e profissionais de saúde tentavam convencer a população de que a vacinação era fundamental para reduzir o impacto da Covid-19, parte do discurso político oficial estimulava a desconfiança.

Quando um presidente da República coloca sob suspeita uma vacina desenvolvida por pesquisadores, laboratórios e instituições científicas, a mensagem que chega à população é muito mais poderosa do que qualquer campanha publicitária do Ministério da Saúde.

A autoridade política empresta legitimidade à dúvida, e a dúvida, quando disseminada em escala, pode custar vidas.

A política não pode escolher a ciência que lhe convém

É perfeitamente legítimo discutir políticas públicas de vacinação, cobrar transparência dos governos, perguntar sobre efeitos adversos, protocolos, aquisição de vacinas e atuação das autoridades sanitárias.

O que não é legítimo é substituir evidências científicas por teorias conspiratórias.

Não existe “opinião” capaz de transformar um vírus em algo menos contagioso. Não existe voto capaz de alterar a biologia, não existe discurso de palanque capaz de tornar uma criança imune ao sarampo, não existe ideologia capaz de impedir a poliomielite de voltar se a cobertura vacinal cair suficientemente.

E o fantasma volta justamente em ano eleitoral

Em 2026, brasileiros escolherão presidente, governadores, senadores e deputados federais e estaduais. E, como já ocorreu em outros ciclos eleitorais, temas relacionados à saúde pública estão voltando a ser utilizados como combustível para a guerra política nas redes sociais.

É preciso ficar atento, vacina não pode virar cabo eleitoral, não pode ser utilizada para atacar adversários nem para criar inimigos imaginários.

E, principalmente não pode ser transformada em símbolo de identidade política, porque quando uma pessoa deixa de vacinar uma criança para demonstrar fidelidade a um grupo político, quem paga a conta não é o político que fez o discurso.

É a criança, a família, o sistema público de saúde, o profissional que precisará enfrentar um surto que poderia ter sido evitado, e alguém que pode morrer.

O sarampo está dando o aviso

O que está acontecendo em São Paulo deveria ser tratado como um alerta nacional.

A resposta das autoridades tem sido ampliar a vacinação. Mais de 7,2 milhões de doses da tríplice viral já foram distribuídas pelo país em 2026, segundo o Ministério da Saúde, e cerca de 2,9 milhões haviam sido aplicadas até o início de agosto. Em São Paulo 3,2 milhões de doses foram destinadas ao reforço do abastecimento.

Mas, nenhuma campanha governamental será suficiente se parte da população continuar acreditando que imunização é uma questão de opinião política.

Vacina é uma das maiores conquistas da humanidade, ela não precisa ser defendida por um partido! Precisa ser defendida pela razão.

Não podemos deixar a política ressuscitar doenças

O Brasil já viu o que acontece quando a confiança nas vacinas desmorona, o sarampo voltou à cobertura contra doenças importantes caiu, a poliomielite voltou a ser uma ameaça de reintrodução.

É uma ironia dolorosa conseguimos vencer doenças que nossos avós temiam, corremos o risco de devolvê-las aos nossos filhos por causa de vídeos, discursos políticos, fake news e teorias conspiratórias disseminadas nas redes sociais.

Precisamos refletir nestas eleições de 2026, queremos eleger políticos ou queremos eleger também a desinformação para governar nossas decisões de saúde?

Porque o negacionismo não termina no discurso, ele chega ao posto de saúde, à sala de aula, à maternidade, aos hospitais, e pode chegar ao cemitério.

Que ninguém se engane: o sarampo que reaparece em São Paulo não é apenas um problema sanitário. É também um aviso sobre o preço que uma sociedade paga quando transforma a ciência em objeto de disputa política.

A vacina não promete um mundo sem doenças, ela oferece algo muito mais concreto: a possibilidade de impedir que doenças conhecidas, preveníveis e evitáveis voltem a destruir vidas.

E isso deveria estar acima de qualquer eleição, de qualquer partido e de qualquer político.

Porque vírus não vota. Mas gente morre quando a política decide ignorar a ciência.

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