
Está semana um amigo de décadas faleceu devido a um AVC hemorrágico, durante seu velório presenciei uma cena que ficou gravada em minha mente. A dor de uma mãe que estava ali preste a enterrar seu único filho. Quando eu voltava para casa aquela imagem em mente me fez pensar! Nenhuma mãe merece passar por essa dor!
Há dores que parecem escapar à linguagem, como se o próprio verbo se recusasse a dar forma ao abismo. A morte de um filho é uma dessas fraturas do mundo — um acontecimento que não apenas fere, mas desorganiza o sentido das coisas. Não é apenas a ausência que se impõe, mas a inversão brutal da ordem esperada da vida. Pais não deveriam enterrar filhos; essa é uma intuição quase universal, uma espécie de lei silenciosa inscrita naquilo que entendemos como justiça natural.
Ao testemunhar uma mãe viúva despedindo-se de seu único filho, você não viu apenas o luto — viu a ruptura de um projeto inteiro de existência. Como escreveu Arthur Schopenhauer, “a vida oscila como um pêndulo entre a dor e o tédio”, mas há momentos em que o pêndulo parece travar definitivamente no extremo da dor. Nesses instantes, a filosofia deixa de ser exercício intelectual e passa a ser tentativa de sobrevivência.
O sofrimento de uma mãe que perde um filho carrega algo de ontológico, algo que toca o próprio fundamento do ser. Simone de Beauvoir, ao escrever sobre a morte de sua mãe em Uma Morte Muito Suave, descreve como o luto não é apenas a perda do outro, mas uma transformação irreversível de quem fica. No caso de uma mãe, essa transformação é ainda mais profunda: perde-se não só uma pessoa amada, mas uma parte constitutiva de si mesma. O filho não é apenas alguém no mundo — é alguém que foi mundo dentro dela.
Há também uma dimensão ética e quase metafísica nessa dor. Emmanuel Levinas afirmava que o outro é aquilo que nos convoca à responsabilidade infinita. O filho, nesse sentido, é talvez o “outro” mais radical: aquele por quem se daria a própria vida sem hesitação. Quando esse outro desaparece, não é apenas a presença que falta — é a própria possibilidade de exercer esse amor que se torna órfã. O luto, então, não é só saudade; é amor sem destino.
E, ainda assim, a vida segue — o que pode parecer uma crueldade. Albert Camus, em O Mito de Sísifo, fala do absurdo como esse confronto entre a busca humana por sentido e o silêncio do universo. Não há resposta satisfatória para “por que tanta dor?”, e talvez essa seja a verdade mais difícil de aceitar: o mundo não se organiza segundo a nossa noção de justiça.
Mas há algo que resiste — uma espécie de dignidade silenciosa no ato de continuar. Não porque a dor diminua ou faça sentido, mas porque o amor que existiu não desaparece com a morte. Ele se transforma em memória, em ausência carregada de presença. Como escreveu Rainer Maria Rilke, “o belo é o início do terrível que ainda conseguimos suportar”.
Talvez o maior escândalo da morte de um filho seja justamente esse: ela revela que amar profundamente é também expor-se à possibilidade da dor mais radical. E, ainda assim, ninguém escolheria não amar.
No fim, não há resposta que console plenamente. Há apenas a tentativa — humana, imperfeita — de dar algum contorno ao indizível. E talvez, ao reconhecer que certas dores não têm explicação, mas apenas testemunho, a gente se aproxime um pouco mais daquilo que nos torna humanos: a capacidade de sentir, de sofrer e, apesar de tudo, de continuar.
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