Por Fernando Garayo
Gafe de Sergio Moro ao citar uma “Santa Casa de Cascavel” que não existe expõe um problema maior da política brasileira: o risco de discursos construídas sobre informações falsas, imprecisas ou não verificadas seduzirem o eleitorado.
Há erros políticos que podem ser tratados como simples gafes. Outros, porém, merecem uma reflexão mais profunda. Quando um candidato utiliza uma informação supostamente concreta para defender uma proposta de governo, e essa informação não corresponde à realidade, o episódio deixa de ser apenas uma trapalhada de campanha e passa a envolver uma questão essencial para a democracia: até que ponto o eleitor pode confiar naquilo que está ouvindo?
Foi o que aconteceu com o senador Sergio Moro, candidato ao Governo do Paraná. Durante uma sabatina no programa Jornal da Manhã, da Jovem Pan News, em 17 de agosto de 2026, Moro afirmou que havia visitado uma “Santa Casa de Cascavel” e conversado com representantes da instituição sobre um déficit de aproximadamente R$ 500 mil por mês.
O problema é que não existe um hospital com esse nome “Santa Casa” em Cascavel, no Paraná.
A cidade possui importantes instituições hospitalares, entre elas o Hospital Universitário do Oeste do Paraná (HUOP), o Hospital Uopeccan e o Hospital São Lucas, mas nenhuma delas é denominada Santa Casa de Cascavel.
Em uma conversa informal, trocar o nome de uma instituição pode ser apenas um lapso de memória. Mas Moro não mencionou simplesmente o nome de um hospital. Ele afirmou ter estado no local, conversado com sua direção e recebido daquela suposta direção uma informação financeira específica: um déficit mensal de R$ 500 mil.
Ou seja, a referência ao hospital inexistente foi utilizada como exemplo concreto para sustentar uma proposta para a saúde pública.
O episódio foi registrado por veículos paranaenses e repercutiu porque Moro buscava apresentar-se como alguém que percorreu o Estado durante seus quatro anos de mandato como senador e conhecia de perto a realidade dos municípios e dos hospitais.
Um eleitor escolhe um governador, presidente, senador ou prefeito acreditando nas informações apresentadas durante a campanha. Se números, fatos, instituições e acontecimentos são apresentados de maneira incorreta, o cidadão pode tomar uma decisão política baseado em uma realidade que não existe.
Nos últimos anos, especialmente no ambiente político bolsonarista, o Brasil assistiu à transformação da política em uma disputa permanente pela narrativa. Não basta mais apresentar um programa de governo. É preciso construir uma história.
Nessa lógica, fatos passam a disputar espaço com vídeos editados, frases fora de contexto, informações falsas, teorias conspiratórias, ataques às instituições e versões fabricadas para confirmar aquilo que determinado grupo político já deseja acreditar.
O problema é que uma mentira repetida milhares de vezes pode parecer verdade. E as redes sociais transformaram esse mecanismo em uma poderosa ferramenta eleitoral.
Uma informação falsa publicada por um político pode ser compartilhada milhares de vezes antes que alguém tenha tempo de verificá-la. Quando a correção aparece, muitas vezes chega tarde demais.
O eleitor já recebeu a mentira, já comentou,compartilhou, incorporou aquela informação à sua visão de mundo.
O eleitor não pode ser tratado como massa de manobra
É justamente por isso que a responsabilidade dos candidatos deveria ser ainda maior em 2026. O eleitor brasileiro não precisa de políticos que lhe contem histórias bonitas. Precisa de candidatos capazes de apresentar fatos, números, projetos e diagnósticos verificáveis.
Se um candidato afirma que visitou determinado hospital, é legítimo perguntar qual hospital. Se afirma que uma instituição tem determinado déficit, é legítimo perguntar de onde veio o número.
Se promete resolver um problema, é necessário saber quanto custará de onde vão vim os recursos e qual será o impacto para os cofres públicos. A democracia não pode ser transformada em um concurso de quem conta a história mais convincente.
A situação de Cascavel deveria provocar uma discussão muito maior do que a simples ridicularização de uma gafe eleitoral.
É fácil transformar o episódio em meme, o mais difícil e muito mais importante, é perguntar: como alguém pretende governar um Estado se não consegue identificar corretamente uma instituição que apresenta como exemplo de sua experiência política?
A pergunta não é partidária. Ela deveria ser feita a qualquer candidato, de qualquer partido, da esquerda, do centro ou da direita.
Quem pretende administrar dinheiro público precisa demonstrar domínio da realidade.
Quem pretende administrar hospitais precisa conhecer a rede hospitalar, quem pretende administrar educação precisa conhecer as escolas, quem pretende governar um Estado precisa conhecer seus municípios, e quem pretende convencer o eleitor precisa respeitar a inteligência do eleitor.
A mentira é mais perigosa quando confirma aquilo que queremos acreditar
As pessoas não acreditam necessariamente em uma mentira porque ela é bem construída. Muitas vezes acreditam porque querem que ela seja verdadeira.
Se alguém já acredita que determinado grupo político é responsável por todos os problemas do país, qualquer vídeo que confirme essa crença será recebido como verdade. Se alguém acredita que determinada instituição é inimiga do povo, qualquer acusação contra ela poderá ser compartilhada sem verificação.
Se alguém acredita que um político representa a “salvação” do país, seus erros podem ser relativizados.
É assim que nasce a política da fé cega, política não deveria exigir fé, deveria exigir fiscalização.
O episódio da “Santa Casa de Cascavel” oferece uma lição simples para as eleições de 2026. Antes de compartilhar uma declaração política, o cidadão deveria fazer quatro perguntas: Quem disse? Qual é a fonte? Existe documento ou dado que comprove? Outros veículos independentes confirmaram?
Essa cultura de verificação é uma das maiores defesas da democracia contra a desinformação. Não importa se a informação favorece Lula, Bolsonaro, Moro, Tarcísio, Caiado, um candidato de esquerda ou um candidato de direita. Se for falso, é falso. Se for verdadeiro, deve ser comprovado.
O Brasil já viveu momentos em que a política foi dominada pelo medo, pela propaganda e pela manipulação. O desafio de 2026 é não permitir que as redes sociais transformem a eleição em uma guerra de versões onde vence aquele que grita mais alto ou produz o vídeo mais viral.
O caso da suposta “Santa Casa de Cascavel” é pequeno diante dos grandes problemas brasileiros. Mas justamente por isso ele é simbólico.
Uma pequena informação falsa pode parecer insignificante. Um nome errado pode parecer apenas uma gafe. um número sem comprovação pode parecer apenas uma estatística. Mas, quando essas pequenas distorções se acumulam, elas constroem uma realidade paralela.
E uma sociedade que escolhe seus governantes baseada em uma realidade paralela corre o risco de acordar tarde demais para descobrir que votaram em promessas, discursos e fantasias, e não em fatos.
A política brasileira não precisa de mais salvadores, precisa de candidatos que respeitem a verdade, precisa, sobretudo, de eleitores que não tenham medo de perguntar: “Onde está a prova?”.
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