
O Brasil acorda todos os dias como quem pisa em vidro. A violência deixou de ser manchete isolada para se tornar paisagem. Ela se repete com nomes, rostos e histórias que insistem em voltar — como se o país estivesse preso a um ciclo que se alimenta do ódio e da indiferença.
Quando mulheres são mortas dentro de casa, o crime costuma ser descrito como “tragédia familiar”. Mas casos como o de Tatiane Spitzner, jogada do quarto andar pelo marido em Guarapuava, em 2018, mostram que não há nada de íntimo ou acidental nisso. Houve histórico de agressões, pedidos de socorro ignorados, alertas desprezados. O feminicídio, ali, foi o último ato de uma violência anunciada — legitimada por uma cultura que relativiza o controle, o ciúme e a brutalidade masculina.
A mesma lógica atravessa o caso de Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro em 2018. Embora não se trate de violência doméstica, sua execução simboliza o ódio direcionado às mulheres que ousam existir no espaço público com voz, posição e enfrentamento. Marielle foi morta porque representava tudo o que o discurso do ódio combate: mulher, negra, periférica, defensora de direitos humanos. O silêncio e a leniência política que se seguiram também matam.
Nos hospitais, espaços que deveriam ser santuários da vida, a barbárie também encontrou abrigo. Logo no inicio deste ano, vieram à tona investigações envolvendo técnicos de enfermagem acusados de matar pacientes em hospitais públicos, utilizando sedativos e medicamentos em doses letais. Idosos e pacientes vulneráveis morreram sob os cuidados de quem jurou preservar a vida. Não foi apenas falha profissional — foi a ruptura completa da ética, facilitada por um sistema adoecido e por uma sociedade anestesiada diante da morte.
Esses episódios não surgem no vácuo. Eles se inserem num período em que o país foi governado por uma retórica que normalizou a crueldade. Durante a pandemia da Covid-19, enquanto centenas de milhares morriam o então presidente Jair Bolsonaro ironizava vítimas, desdenhava do luto e transformava a morte em estatística descartável. Quando o chefe de Estado ridiculariza o sofrimento, autoriza simbolicamente que outros façam o mesmo — em casa, no trabalho, no hospital.
A política do ódio não cria assassinos, mas cria permissões. Permissão para o homem achar que manda no corpo da mulher. Para o profissional esquecer que lida com vidas. Para o cidadão acreditar que empatia é fraqueza. O bolsonarismo construiu uma pedagogia da violência: armou discursos, desarmou consciências e ensinou que o outro é inimigo.
Cada mulher morta, cada paciente assassinado, cada corpo descartado carrega mais do que a marca do agressor direto. Carrega a assinatura de um tempo histórico em que a brutalidade foi exaltada como virtude política. O Brasil não vive apenas uma crise de segurança — vive uma crise moral, alimentada por anos de ódio institucionalizado.
Enquanto o país não enfrentar essa herança, continuará enterrando vítimas e repetindo discursos vazios. Porque nenhuma sociedade sobrevive quando a vida perde valor — e o ódio vira política de Estado.
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