
A declaração do governo dos Estados Unidos de que a supremacia americana na America Latina “nunca mais será questionada” expõe uma mudança profunda na política externa de Washington e provoca preocupação sobre a soberania dos países latino-americanos
A América Latina voltou ao centro da estratégia geopolítica dos Estados Unidos e desta vez com uma mensagem que dificilmente poderia ser mais explícita.
Após a operação militar americana na Venezuela, em janeiro de 2026, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, afirmou que a “dominância americana no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionada”. Segundo ele, a nova estratégia de segurança nacional de Washington representa uma retomada do poder americano sobre a região.
A declaração não é apenas uma frase de efeito. Ela representa uma mudança de linguagem, sobretudo de postura em relação à América Latina.
Trump também afirmou que a tradicional Doutrina Monroe, formulada em 1823, havia sido “superada” por algo muito maior, que passou a chamar de “Donroe Doctrine”, numa referência ao próprio nome. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, reforçou a mensagem ao declarar que a Doutrina Monroe estava de volta “em pleno efeito”.
O que está por trás da declaração?
Durante dois séculos, os Estados Unidos construíram uma relação de forte influência sobre a América Latina. A Doutrina Monroe surgiu originalmente como uma advertência às potências europeias para que não voltassem a interferir ou colonizar países do continente.
Com o crescimento do poder americano, entretanto essa doutrina passou a servir também como justificativa para uma política de predominância dos Estados Unidos sobre o Hemisfério Ocidental.
No século XX, essa influência foi acompanhada por intervenções políticas, militares e econômicas em diferentes países latino-americanos. A Guerra Fria aprofundou esse processo, especialmente diante do temor americano de que governos alinhados à União Soviética ganhassem espaço na região, como ocorreu com Cuba.
Venezuela virou símbolo dessa nova política
A ação americana contra o governo de Nicolás Maduro demonstrou que Washington está disposto a utilizar instrumentos muito mais contundentes para defender seus interesses no continente. A operação provocou críticas internacionais e levantou questionamentos sobre soberania, direito internacional e os limites da intervenção de uma potência sobre outro país.
O episódio também mostrou que a disputa pelo controle político da América Latina está diretamente relacionada à competição global entre Estados Unidos e China.
A presença chinesa na região cresceu significativamente nas últimas décadas, especialmente por meio de comércio, investimentos, infraestrutura, energia e financiamento. Para Washington, a ampliação dessa presença representa um desafio estratégico.
América Latina não é quintal dos Estados Unidos
A frase de Trump provoca uma pergunta fundamental: quem decidiu que a América Latina pertence à esfera de domínio dos Estados Unidos?
Os países latino-americanos são Estados soberanos. Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela, Peru e todas as demais nações da região possuem direito de estabelecer suas próprias relações diplomáticas, comerciais e estratégicas.
A tentativa de transformar o continente em uma espécie de quintal dos Estados unidos entra em choque com uma ordem internacional baseada na soberania dos Estados.
Não se trata apenas de dizer que os Estados Unidos possuem interesses na região. Todas as grandes potências possuem interesses econômicos e estratégicos em diferentes partes do mundo.
A diferença está em afirmar que a supremacia de uma potência não poderá mais ser questionada.
Essa linguagem remete muito mais à lógica das esferas de influência do século XIX e da Guerra Fria do que à ideia contemporânea de relações internacionais baseadas em soberania e igualdade entre os Estados.
Brasil terá de lidar com uma nova realidade
O país é a maior economia da América Latina, possui enormes reservas minerais, petróleo, produção agrícola, biodiversidade e uma posição estratégica no Atlântico Sul.
Ao mesmo tempo, mantém relações comerciais relevantes tanto com os Estados Unidos quanto com a China.
Uma política americana que procure limitar a presença chinesa na América Latina poderá colocar países como o Brasil diante de escolhas difíceis.
O desafio será preservar a autonomia da política externa brasileira em um cenário no qual as grandes potências estarão cada vez mais interessadas em influenciar as decisões econômicas, políticas e estratégicas do continente.
O fantasma do passado voltou?
A história latino-americana conhece bem os efeitos da interferência das grandes potências.
Golpes de Estado, intervenções militares, apoio a regimes autoritários e disputas ideológicas marcaram profundamente o século XX.
Por isso, a recuperação explícita da Doutrina Monroe desperta lembranças que muitos países da região prefeririam deixar no passado.
A China se transformou em potência econômica global. Os países latino-americanos ampliaram suas relações comerciais e diplomáticas com diferentes blocos. O BRICS ganhou importância. E a própria América Latina passou a buscar maior autonomia nas relações internacionais.
Portanto, Washington pode desejar recuperar seu antigo quintal, mas isso não significa que os demais países estejam dispostos a aceitar passivamente essa condição.
Uma nova batalha pela América Latina
A declaração de Trump talvez seja uma das frases que melhor resumem a nova disputa geopolítica do continente, de um lado os Estados Unidos querem reafirmar sua histórica influência sobre o Hemisfério Ocidental, do outro a China e outras potências ampliam sua presença econômica e estratégica.
No meio dessa disputa estão os países latino-americanos que precisam decidir se serão apenas território de disputa entre grandes potências ou se conseguirão construir uma política externa própria.
A questão é se os países latino-americanos aceitarão que alguém de fora determine com quem eles devem ter relações comerciais e diplomáticas.
Quando um presidente americano afirma que a supremacia de seu país no Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionada”, a frase deixa de ser apenas uma declaração diplomática.
Ela é um aviso.
E, para a América Latina, talvez seja também um chamado para recordar que soberania não é concessão de nenhuma potência estrangeira.
É um direito.

Descubra mais sobre NJ Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.






