
Pesquisa de doutorado compara trajetórias de escritores consagrados e emergentes do
estado e mostra que apenas 6 entre 146 autores em transição conseguiram se aproximar
do reconhecimento
Uma tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia
Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), orientado pela professora
Dra. Márcia da Silva Mazon, traçou uma verdadeira cartografia dos escritores
catarinenses, revelando como funciona, e por que é tão desigual, o mercado editorial do
estado.
Assinado pelo pesquisador Israel Aparecido Gonçalves, o estudo comparou as
trajetórias de escritores já consagrados em Santa Catarina, como Salim Miguel, Adriana
Lunardi, Cristovão Tezza, Godofredo de Oliveira Neto e Carlos Henrique Schroeder,
com as de escritores ainda em transição na carreira literária. A análise usou como base
teórica o sociólogo francês Pierre Bourdieu, especialmente seus conceitos de illusio,
trunfo, capital simbólico e espaço social.
Uma engrenagem desigual
A pesquisa partiu da hipótese de que as trajetórias individuais dos escritores refletem a
própria fragmentação do espaço literário catarinense, marcado por pequenas editoras,
poucas feiras de livros, academias de letras com baixa autonomia e premiações locais
sem critérios claros de avaliação.
Para testar essa hipótese, Israel Gonçalves combinou diferentes métodos de pesquisa: 19
entrevistas (presenciais, por e-mail e por videochamada), um questionário respondido
por 146 escritores catarinenses, mapeamento de editoras a partir de dados do Ministério
do Trabalho e Emprego, catalogação de 46 academias de letras do estado e observação
participante em feiras de livros de Joinville e Jaraguá do Sul.
Os números da desigualdade
Os resultados expõem uma assimetria estrutural entre os dois grupos analisados:
Dos 146 escritores em transição que responderam ao questionário, apenas seis
reuniram capital simbólico suficiente para se aproximar de uma posição de
reconhecimento no campo literário.
As editoras responsáveis por publicar os autores consagrados estão concentradas
no eixo Rio–São Paulo, enquanto os escritores em transição dependem
majoritariamente de edição de autor ou de pequenas editoras regionais.
A maioria dos escritores em transição está filiada a academias de letras recentes
e pouco institucionalizadas, enquanto os consagrados dispensam esse tipo de
filiação, recorrendo a instâncias de reconhecimento de alcance nacional.
Fragmentação como condição estrutural
Para o pesquisador, a conclusão central da tese é que o espaço social literário
catarinense é estruturalmente fragmentado e que essa fragmentação não é um efeito
colateral, mas a própria condição que molda as trajetórias dos escritores do estado,
mantendo a maioria deles em uma fronteira simbólica permanente entre a promessa e a
consagração.
A tese contribui para o entendimento sociológico do mercado editorial regional
brasileiro e oferece um retrato inédito de como pequenas editoras, feiras de livros e
academias de letras operam como instâncias de disputa por reconhecimento na literatura
catarinense.
Sobre o autor: Israel Aparecido Gonçalves é doutor pelo Programa de Pós-Graduação
em Sociologia Política da UFSC, é editor, professor de Ciência Política e pesquisador
do espaço social literário catarinense. E-mail para contato
contato@catarinadealexandria.com.br
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