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Limeira

Coluna “Ave, palavra!”: Cyro Costa, o Legislador Limeirense desconhecido.

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Por Karoline Rodrigues Firmino

Prezados leitoras/es,

Cyro Costa, o Legislador Limeirense desconhecido.

A presente coluna, que se inaugura hoje, tem por objetivo mergulhar no oceano da literatura de nossa terra limeirense em diálogo com grandes temas e autores nacionais e do mundo.

O nome, “Ave, palavra”, é uma homenagem ao livro póstumo de Guimarães Rosa (1908-1967), organizado por Paulo Rónai (1907-1992), e uma ode a essa arte, a essa luz que cega, às veredas atrás da verdade, do significado, da redenção e do pertencimento.

Inauguramos a coluna apresentando e fazendo apologia à ideia de Percy Shelley sobre os legisladores não reconhecidos do mundo, e pretendemos proporcionar algum conhecimento de escritores limeirenses desconhecidos e perdidos na história.

Em deferência à grande imperatriz dessa arte: “ave, Palavra!”

Cyro Costa: um legislador limeirense desconhecido.

“Dias maravilhosos em que os jornais vêm cheios de poesia…”

Mario Quintana

Enquanto os homens exercem seus podres poderes, existe uma despercebida espécie de legisladores em uma silenciosa e épica campanha nas estantes do tempo. E a despeito da muda empreitada, o poder que detém ultrapassa as fronteiras do espaço e do tempo; ultrapassa o poder dos impérios, das ditaduras e da submissão.

Percy Shelley, em sua obra A Defense Of Poetry (“Uma Defesa da Poesia”, em tradução livre) diz em sua última assertiva do ensaio apologético à imaginação: “poets are the unacknowledged legislators of the world” (“os poetas são os legisladores não reconhecidos do mundo”) 1 .

Uma frase simples, mas poderosa. Mas, ao mesmo tempo, dúbia e oblíqua, como toda boa poesia.

Os verdadeiros legisladores do mundo, podem dizer “eu não sou sério” e ser absolutamente sério. Podem dizer “só 10% é mentira” 2 , e ainda ter 110% de credibilidade. Porém, qual político poderia dizer “Serei sempre o que não nasceu para isso; Serei sempre só o que tinha qualidades;” 3 ou“Não, não creio em mim” 4 em um desabafo sincero e sem enredo ou 1 Percey Shelley. A Defense of Poetry. Disponível em: https://www.poetryfoundation.org/articles/69388/a-defence-of-poetry

2 Nome de documentário sobre Manoel de Barros (1916-2014), poeta conhecido pelos poemas das “inutilidades”, com obras como “Livro sobre o Nada”; “Memórias inventadas” e que dizia que “do que

escrevo, 90% é invenção, só 10% é mentira”.

3 Fernando Pessoa. Poesias de Álvaro de Campos: Tabacaria. disponível em:https://www.uel.br/pessoal/plnatti/Textos-escolhidos/Fernando%20Pessoa%20- %20Alvaro%20de%20Campos%20-%20Tabacaria%20Nao%20sou%20nada__.htm engodo? E, ainda assim, ser celebrado e eternizado? E ser lido nos quatro cantos do mundocom admiração? Que poder é esse?

Não, não provém dos milhares ou milhões de seguidores, não provém da riqueza (embora se possa dizer que os gregos podiam sofismar enquanto escravizaram outras populações e justificar o “santo” martírio alheio 5 – os primeiros burgueses?), não provém da aparência, não provém do sobrenome…

Vem da imagem 6 , da viva e poderosa imaginação, vem da Arte.

Mas há uma outra camada de verdade na poesia, um pouco mais concreta que a metafísica das leis naturais da vida: a histórica. E, acredite, há muito mais verdade em poemas do que muitos documentos oficiais.

Limeira possui alguns legisladores despercebidos e esquecidos no tempo. Um deles, o qualresgatamos das fileiras da literatura à espera da descoberta, chama-se Cyro Costa (1879-1937), que foi um poeta, conferencista, jornalista, advogado e cronista limeirense, porém com mais reconhecimento, em sua época, nas capitais Rio de Janeiro e São Paulo, sendo um ativo colaborador das revistas paulistanas “A Cigarra” e “Vida Moderna”, além de ter fundado, junto com Olavo Bilac e Martins Fontes, a Sociedade de Homens de Letras do Brasil.

O poeta também tem uma produção e atividade na religião espírita, e teve um pico de fama quando Chico Xavier psicografou, em programa de TV, um poema atribuído a ele 7 . Cyro Costa continua ainda hoje mais reconhecido na capital paulista do que em sua cidade natal, Limeira. Isso porque além do legado de suas contribuições literárias, há a inscrição de um excerto do poema “Mãe Preta” 8 no primeiro monumento a homenagear uma mulher negra em São Paulo, localizado ao lado da Igreja Nossa Senhora dos Homens Pretos, no Largo Paissandú 9 .

Além disso, Cyro Costa (também grafado como Ciro Costa), foi um dos cinco limeirenses a entrarem para a Academia Paulista de Letras, juntamente com Carlos Bacellar, Brasil Machado de Campos, Raul Briquet e Spencer Vampré.

Da produção literária de Costa, duas obras foram publicadas: i) a narrativa histórica da Revolução Esquecida de 1924, intitulada “Sob a Metralha…”, escrita e publicada conjuntamente com o historiador Eurico Goes, e ii) “Terra Promettida”, de 1938, uma obra póstuma de uma coletânea de poesias do autor, publicada pela editora José Olympio, no Rio de Janeiro.

4 Fernando Pessoa. Poesias de Álvaro de Campos: Tabacaria. disponível em:

https://www.uel.br/pessoal/plnatti/Textos-escolhidos/Fernando%20Pessoa%20-

%20Alvaro%20de%20Campos%20-%20Tabacaria%20Nao%20sou%20nada__.htm

5 Tema do livro “Dialética do Esclarecimento” de Theodor Ludwig-Wiesengrund Adorno e Max Horkheimer.

6 Octavio Paz em “O Arco e a Lira”,chama de imagem toda forma verbal que o poeta enuncia e que, reunida às demais, compõe o poema; comparações, metáforas, trocadilhos, paradoxos, tudo cabe ali.

O que a define não é a figura de retórica, mas o fato de que ela não se deixa traduzir em conceito: a imagem não explica nem substitui nada, e por isso é irredutível a qualquer paráfrase. Daí o escândalo lógico que Paz aponta: a imagem afronta o princípio de contradição ao afirmar que a pedra é pluma, que A é B. A linguagem comum precisa escolher entre um sentido e outro; a poética mantém os dois vivos ao mesmo tempo.

7 Disponível em: https://bibliadocaminho.com/ocaminho/TX/Pf/Pf17.htm

8 “(…) Na escravidão do amor, a criar filhos alheios,

Rasgou, qual pelicano, as maternas entranhas,

E deu, á Patria Livre, em holocausto, os seios!”

9 Disponível em: https://www.afrofile.com.br/lugares/estatua-da-mae-preta

A seguir transcrevemos o poema “Pae João”, um dos mais conhecidos do poeta (ou,

segundo Shelley, legislador despercebido) de Limeira.

Do taquaral á sombra, em solitaria furna,

Para onde, com tristeza, o olhar, curioso, alongo,

Sonha o negro, talvez, na solidão nocturna,

Com os Iimpidos areaes das solidões do Congo …

Ouve-lhe a noite a voz nostalgica e soturna,

Num suspiro de amor, num murmurejo longo …

E o rouco, surdo som, zumbindo na cafurna,

E' o urucungo a gemer na cadencia do jongo …

Bemdito sejas tu, a quem, certo, devemos

A grandeza real de tudo quanto temos!

Sonha em paz! Sê feliz! E que eu fique de joelhos,

Sob o fulgido ceo, a relembrar, magoado,

Que os fructos do café são globulos vermelhos

Do sangue que escorreu do negro escravizado!

Glossário

Taquaral: terreno ou plantação de taquaras, espécie nativa de bambu. Também usado

como sinônimo de bambuzal.

Furna: poço de desabamento; gruta ou, como utilizado no Nordeste do país, lugar ermo ou retirado (espaço físico isolado).

Soturno: “algo ou alguém melancólico, tristonho, sombrio ou que transmite uma sensação de medo e escuridão” 10 .

Murmurejo: “é a ação ou o resultado de murmurejar, significando um som confuso, baixo e indefinido, semelhante a um sussurro, ou o rumor produzido por águas correntes e folhas ao vento” 11

Cafurna: cova, caverna, lapa; por extensão, casebre ou esconderijo escuro. A palavra ecoa cafua, o cômodo escuro onde se trancavam os escravizados como castigo (associação que o poema explora ao pôr o negro justamente numa "solitaria furna).

Urucungo: nome dado ao berimbau, o arco musical de origem banto (angolana) trazido pelos escravizados; também grafado rucumbo ou macungo.

Jongo: dança e canto de origem banto (designa uma grande família etnolinguística e um tronco de línguas faladas na África central, meridional e oriental), praticada pelos escravizados nas fazendas de café do Vale do Paraíba e do interior paulista e fluminense, ao som de tambores e de pontos cantados em linguagem cifrada. A escolha da palavra não é ornamental: liga diretamente o poema ao mundo do cafezal.

Fúlgido: brilhante

10 Disponível em: https://www.dicio.com.br/soturno/

11 Disponível em: https://www.liriocatolico.com.br/dicionario_aulete/view/murmurejo/

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