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Coluna: Mulher Real em Foco Sobreviventes: Vamos falar sério?

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Por Simone Portela

Dra. Simone Portela

O voto feminino não é apenas um direito formal garantido nas urnas; ele é o resultado tangível de décadas de suor, coragem e enfrentamento liderado por mulheres que vieram antes de nós. Pioneiras que marcharam, enfrentaram a violência de Estado, foram presas e ridicularizadas para que hoje a nossa voz política tivesse peso legal. Votar é um ato de memória e de responsabilidade coletiva com o futuro. Principalmente para as mulheres que conquistaram ao longo do tempo o direito de votar. Por isso mesmo, a consciência política exige que esse direito seja exercido em favor de quem realmente constrói pontes para a garantia e a ampliação de direitos, elegendo representantes que defendam a vida, a integridade e a emancipação das mulheres na sociedade.

É fundamental compreender que votar vai muito além de preencher uma cédula ou apertar uma tecla na urna: é a urgência de escolher quem de fato representa as nossas causas, ecoa as nossas dores cotidianas e carrega no olhar e na prática a vivência das lutas que enfrentamos para existir.

Nesse cenário, torna-se urgente olhar de forma crítica para fenômenos eleitorais, o que nós mulheres estamos fazendo com esse direito tão precioso?

Na última eleição chama a atenção expressiva votação obtida por Eduarda Campopiano. Eleita com uma votação massiva — alcançando milhões de votos no estado de São Paulo e mais de 12.671 mil votos na cidade de Limeira — a parlamentar, que atualmente é vereadora na cidade de Praia Grande, representa um paradoxo perigoso para a agenda dos direitos femininos.

Sendo uma jovem branca de família tradicional, sua trajetória e discursos ecoam privilégios que muitas vezes ignoram as opressões estruturais sofridas pela imensa maioria das mulheres brasileiras, em especial as mulheres negras e periféricas que não nasceram em berço esplêndido e que carregam o peso real da desigualdade social.

A própria parlamentar se beneficia do caminho aberto pelas pioneiras — sem o qual não teria sequer o direito de votar, quanto mais o de ser eleita — mas escolhe atuar no desmonte do legado que viabilizou sua trajetória.

O pior mesmo não é a postura da Deputada recém eleita, mas, a postura das mulheres eleitoras, que creio serem a grande maioria jovens que acompanham sua atuação como influencer. Essas mulheres, ainda hoje em situação de vulnerabilidade aprovaram seus argumentos confiando o seu voto a quem não deseja ser sua voz em nenhum lugar. Que na verdade faz um discurso para jogar fora toda a luta galgada até aqui.

O ponto mais grave e alarmante dessa postura política é a defesa de pautas que flertam com o negacionismo social, como a narrativa em torno da não existência ou do questionamento da gravidade do feminicídio. Minimizar o assassinato de mulheres motivado pelo gênero é desrespeitar milhares de vidas interrompidas e rasgar o pacto civilizatório básico de proteção à vida.

Tenho certeza de que as mães e pais que perderam suas filhas para o feminicídio brutal conhecem com certeza a existência desse crime, assim como as dores e as sequelas insuperáveis que ficarão por toda a vida.

Dar palco a quem tem se ascendido politicamente com um discurso antifeminista enquanto se utiliza de espaços conquistados justamente graças à luta histórica das mulheres é uma contradição profunda. A ascensão de figuras que combatem os mecanismos de proteção às mulheres evidencia o quanto o voto, quando descolado da consciência social e da empatia de classe e gênero, pode ser instrumentalizado contra a própria base que o sustenta.

E pautas negacionistas, antissociais, antitrabalhistas perduram até esse momento para o segundo turno dessas eleições de 2026. As mulheres e muitos homens estão lutando para perder os direitos historicamente conquistados.

E com esse novo fenômeno concluo dizendo que o maior problema das pessoas e a falta de consciência a que classe pertencem.

A submissão a projetos políticos que atendem apenas às elites nos perpetua em um ciclo de subalternidade, no qual a classe dominante dita as regras e restringe qualquer possibilidade real de ascensão e participação democrática da maioria.

Além disso, pode-se lembrar que no sistema proporcional, votos dados a candidaturas com discursos antifeministas ajudam a eleger bancadas inteiras voltadas ao desmonte de políticas sociais.

O legado das nossas ancestrais exige vigilância constante: votar em quem defende as nossas causas e acolhe as nossas dores é a única forma de garantir que o passado de lutas não seja transformado em um retrocesso institucionalizado.

Abre o olho meu povo, abre o olho mulheres!

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