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Elza Soares e Garrincha: um romance até hoje incompreendido

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Elza Soares e Garrincha: um amor e muitas histórias
Foto: Instagram

Adalberto Mansur / Agência ProImprensa

Em tempos de Copa do Mundo, uma boa leitura é o livro “Estrela Solitária, um Brasileiro Chamado Garrincha”, do jornalista Ruy Castro. Além da intrigante biografia de um dos principais jogadores do futebol mundial, a obra aborda passagens da vida da cantora Elza Soares.

O relato tem tudo a ver com a tese defendida pela também cantora Beth Carvalho. Para Beth, o futebol foi inventado pelos ingleses, mas o futebol com samba é coisa do Brasil. Sem jogadores na seleção que gostem de um pandeiro, um surdo ou um tamborim, o Brasil não ganha títulos, afirma Beth.

Voltando ao livro, Elza viveu um complicado relacionamento com Garrincha, que trocou o consumo recreativo de bebidas alcoólicas por uma dependência que gerou 15 internações. Negra, Elza teve uma infância pobre e vivenciou várias experiências de racismo. Esse cenário caótico não impediu a cantora de ser um modelo de protagonismo feminino, construído ao longo de 70 anos de carreira artística.

O livro, de 1996, conta que o relacionamento de 15 anos do casal começou poucos meses antes daquela que seria a Copa “do Garrincha”. Campeão em 1958, o camisa 7 da Seleção e do Botafogo do Rio assumiu o protagonismo no Mundial do Chile, após a contusão de Pelé.

Elza foi ao Chile. Nas folgas entre as partidas do Mundial de 1962, o casal se encontrava. Na época, o relacionamento era pouco comentado.

Alcoolismo derrota campeão

Diante de sua origem pobre n subúrbio do Rio de Janeiro, Elza precisou se desdobrar na vida e na carreira artística. O pai a obrigou a casar-se aos 12 anos, com um homem que, certa vez, disparou um tiro que feriu Elza. Com Garrincha, também seria vítima de violência do companheiro.

Aos 21 anos, ela já era viúva e mãe de 4 filhos. No sonho de ser cantora, passou por programas de calouro, e, em um deles, gerou uma das histórias icônicas. Em 1953, apresentou-se com um vestido emprestado, de manequim bem maior que o seu. Ary Barroso, que comandava o programa radiofônico, brincou:

– Com esse traje, de que planeta você vem?

– “Do Planeta Fome”, respondeu a cantora, remetendo às suas origens.

No mesmo ano de 1953, Garrincha chegava no Botafogo, após testes sem sucesso em outras equipes de futebol. Os dias de glória foram até 1962, diz Castro. Após o Mundial do Chile, “o anjo das pernas tortas” passou a sofrer com as contusões no joelho e a bebida.

Por isso, o livro aborda “o alcoolismo sob a ótica de um vencedor, um campeão destruído pela doença”, conta Castro, que também é alcoólatra.

O biógrafo descarta versões da época de que Elza se aproveitou do relacionamento para ganhar fama ou de que seria a culpada pela decadência do jogador. Ruy Castro afirma que, quando se conheceram, Elza já era uma estrela da música nacional. Pouco depois, a bebida deixou de ser “recreativa” para o jogador.

Por seus dribles, Garrincha ganhou outro apelido: “Alegria do Povo”. Os elogios o levavam a rejeitar tratamentos médicos.

Durante o relacionamento, Elza incentivava Mané a exigir contratos melhores, e os dirigentes do Botafogo chegaram a perguntar “quanto ela queria para abandonar” o jogador. Quando o caso veio à tona, Elza foi criticada por viver com um homem “casado e pai de 8 filhas”.

Garrincha “esperto”

Castro desconstrói a versão de um Garrincha “quase infantil”, com histórias como as de que teria ficado triste com um rádio comprado na Suécia que “só falava sueco” ou de que todo marcador se chamava “João”. Para João Saldanha, seu técnico no Botafogo, era “esperto, rápido e inteligente”.

Mas o sujeito simples também era criticado. A queixa de driblar sempre para a direita só existe em razão da falta de filmes dos anos 1950, justifica Castro. Se existissem, os filmes mostrariam um ponta com muitos recursos técnicos.

“As pessoas diziam que ele era ‘sem-vergonha’. Não havia a consciência de que o Garrincha era um homem doente. E a Elza foi considerada responsável pela bebida dele de forma totalmente injusta”, conta Castro.

Elza e Garrincha foram pais de um menino, que morreu com 9 anos em razão de um acidente automobilístico. A vinda dele para São Paulo jogar no Corinthians e o exílio dela na Itália – era perseguida pelo governo militar – não afastaram o jogador das bebidas.

Manoel Francisco dos Santos, o Garrincha, morreu no dia 20 janeiro de 1983, aos 49 anos. Elza morreu no mesmo dia, em 2022, aos 91 anos. Nas entrevistas, Elza confessou que Mané foi sua grande paixão, mas advertia: “eu nunca gostei de ser mulher de fulano. Eu sou eu”.

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