
O bolsonarismo transformou o lema “Deus, Pátria e Família” em uma espécie de marca registrada. No discurso, trata-se de um compromisso com valores morais, identidade nacional e soberania. Na prática, porém, o movimento liderado por Jair Bolsonaro expõe uma contradição difícil de ignorar: um nacionalismo que se curva com frequência a interesses e símbolos estrangeiros.
Basta observar as manifestações de seus apoiadores. Em nome da “pátria”, muitos se enrolam nas bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, adotam slogans importados e reproduzem agendas políticas que pouco dialogam com a realidade brasileira. Não se trata aqui de cooperação internacional — algo natural entre países —, mas de uma admiração quase incondicional, que beira a subserviência simbólica. Que tipo de patriotismo é esse que se afirma exaltando outras nações?
Essa postura não surgiu por acaso. Durante seu governo, Jair Bolsonaro alinhou o Brasil de forma quase automática aos interesses de Donald Trump, abrindo mão de uma tradição diplomática historicamente reconhecida por seu equilíbrio e autonomia. O Itamaraty, que já foi referência em pragmatismo, passou a operar sob uma lógica ideológica, muitas vezes guiada mais por afinidades políticas do que por interesses estratégicos do país.
A dimensão religiosa desse alinhamento também merece crítica. O bolsonarismo instrumentalizou a fé cristã, transformando o “Deus” do lema em ferramenta política. Nesse contexto, o apoio irrestrito a Israel passou a ser apresentado quase como um dever religioso, especialmente entre setores evangélicos. Trata-se de uma simplificação grosseira de questões complexas, que mistura teologia, geopolítica e ideologia de maneira conveniente.
O problema é que a realidade não se encaixa tão facilmente nesse discurso. Episódios de violência e desrespeito em zonas de conflito — como relatos de ações de soldados israelenses contra símbolos cristãos no Líbano — escancaram uma contradição incômoda. Ainda que cada caso exija verificação rigorosa, o ponto central permanece: por que tais situações raramente geram indignação entre aqueles que dizem defender, acima de tudo, os valores cristãos? A resposta parece óbvia: a fé, nesse contexto, é menos um princípio e mais um instrumento.

O mesmo vale para a admiração pelos Estados Unidos. O bolsonarismo construiu uma imagem idealizada do país — forte conservador e economicamente liberal — ignorando suas próprias contradições internas. Ao importar esse modelo de forma acrítica, o movimento desconsidera as especificidades sociais, econômicas e culturais do Brasil, propondo soluções que muitas vezes aprofundam desigualdades em vez de resolvê-las.
Há ainda uma ironia difícil de ignorar: enquanto o bolsonarismo denuncia o “globalismo” e se apresenta como defensor da soberania nacional, ele próprio adere a uma espécie de globalismo seletivo, no qual apenas determinadas influências estrangeiras são celebradas — justamente aquelas que reforçam sua visão de mundo. É uma soberania de conveniência, que vale apenas quando não contraria suas alianças ideológicas.
No fim das contas, o que se vê é uma inversão do próprio lema que o movimento diz defender. O “Deus” é instrumentalizado, a “Pátria” é relativizada e a “Família” é usada como retórica mobilizadora. O bolsonarismo não apenas esvazia esses conceitos — ele os transforma em slogans úteis para um projeto de poder que, muitas vezes, coloca a ideologia acima do interesse nacional.
Se há algo que o Brasil precisa discutir com seriedade, é justamente essa distância entre discurso e prática. Porque patriotismo que se manifesta com bandeiras estrangeiras não é afirmação de identidade — é sinal de dependência. E fé que se dobra a conveniência política deixa de ser valor para se tornar ferramenta.
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