
Ontem, estive dialogando com um amigo, em determinado momento, ele me perguntou se as atitudes que o senador Flávio Bolsonaro vem tomando junto ao governo dos Estados Unidos apoiando medidas que podem resultar em tarifas sobre produtos brasileiros e defendendo a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas por Washington favorecem politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou se podem custar votos ao próprio Flávio.
Respondi a ele que tenho minhas dúvidas, porque o Brasil convive há décadas com um fenômeno cultural e político que muitos intelectuais chamam de “complexo de vira-lata”, expressão popularizada por Nelson Rodrigues para descrever a tendência de parte da sociedade brasileira de considerar tudo o que vem de fora superior ao que é produzido aqui.
Por isso, não é fácil prever a reação do eleitorado. Uma parcela dos brasileiros pode enxergar a aproximação com os Estados Unidos como demonstração de força política internacional. Outra parcela pode interpretar essas iniciativas como uma forma de subordinar interesses nacionais às conveniências de uma potência estrangeira.
O fato é que Flávio Bolsonaro esteve em Washington defendendo a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, posição posteriormente adotada pelo governo americano. Além disso, o debate sobre novas tarifas de 25% sobre produtos brasileiros voltou ao centro das discussões comerciais entre os dois países.
A questão central não é sequer a gravidade dos crimes cometidos pelas facções algo que poucos contestam. O debate verdadeiro é outro: quais serão os efeitos econômicos e diplomáticos dessas decisões para o Brasil?
Especialistas têm alertado que classificações desse tipo podem ampliar riscos regulatórios para empresas que atuam em regiões dominadas pelo crime organizado, além de aumentar a percepção de insegurança jurídica em determinados setores econômicos. Autoridades brasileiras também manifestaram preocupação com possíveis impactos sobre investimentos e sobre a autonomia do país na condução de suas políticas de segurança pública.
No campo econômico, a eventual aplicação de tarifas americanas pode atingir segmentos da indústria exportadora brasileira e criar novas dificuldades para empresas que dependem do mercado dos Estados Unidos. Mesmo com exceções previstas para alguns produtos, a medida tende a elevar a tensão comercial entre os dois países.
O agronegócio brasileiro, por sua vez, vive de mercados globais. China, União Europeia, Oriente Médio e diversos países asiáticos representam parcelas fundamentais das exportações nacionais. A indústria brasileira também depende de uma rede complexa de parceiros comerciais espalhados pelo mundo. Apostar todas as fichas em uma única relação bilateral nunca foi uma estratégia livre de riscos.
Politicamente, o cálculo é igualmente incerto. Se parte do eleitorado enxergar essas iniciativas como defesa da soberania e do combate ao crime organizado, Flávio Bolsonaro poderá colher dividendos eleitorais. Se, porém, prevalecer à percepção de que interesses externos estão influenciando decisões que afetam a economia brasileira, o efeito poderá ser o contrário, fortalecendo o discurso nacionalista de Lula.
A história mostra que os brasileiros costumam tolerar muitas divergências ideológicas, mas raramente recebem bem aquilo que interpretam como interferência estrangeira em assuntos internos. É justamente nessa fronteira delicada entre cooperação internacional e dependência política que se encontra hoje uma das principais apostas da direita brasileira.
E talvez seja aí que esteja a resposta para a pergunta do meu amigo: não será a classificação de facções ou a disputa diplomática com Washington que decidirá a próxima eleição. O que definirá o voto do brasileiro será a percepção sobre quem está defendendo os interesses do país e quem está disposto à entrega ló a interesses estrangeiros.
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