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Narcotráfico sem fronteiras: América do Sul precisa combater também quem produz a droga

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Fernando Garayo-Jornalista- Ambientalista- Cientista Politico

Há um ponto importante na sua argumentação que merece ser separado em duas questões: o combate às organizações criminosas brasileiras e a responsabilidade dos países produtores e das rotas internacionais de drogas.

A declaração de 22 de setembro de 2026, liderada pelos Estados Unidos no chamado Escudo das Américas, reuniu Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago, além dos EUA. PCC e Comando Vermelho foram incluídos entre 24 organizações classificadas no documento como ameaças/narcoterroristas. O Brasil não aderiu.

Minha avaliação é que existe, sim, uma questão legítima de coerência nessa discussão, mas eu faria uma correção importante na sua tese.

Não é correto dizer que esses países, de forma geral, são “os maiores produtores de drogas do mundo”. Porém, é factual que a produção de cocaína está fortemente concentrada na região andina, especialmente Colômbia, Peru e Bolívia. O próprio Relatório Mundial sobre Drogas 2026 da ONU aponta Colômbia, Peru e Brasil como os principais países de partida de carregamentos de cocaína entre 2020 e 2024; e afirma que a cocaína que parte do Brasil normalmente tem origem no Peru ou na Bolívia e, em menor medida, na Colômbia.

Na Bolívia, por exemplo, a ONU registrou 36.400 hectares de cultivo de coca em 2025, crescimento de 7% em relação a 2024.

Portanto, há uma questão que precisa ser colocada: Não existe combate sério ao narcotráfico sem combater simultaneamente quem produz, quem transporta, quem financia, quem lava o dinheiro e quem compra a droga.

E isso vale para o Brasil também. O PCC e o Comando Vermelho são organizações criminosas brasileiras e devem ser responsabilizados pelos crimes que cometem. Mas, isso não significa que o problema do narcotráfico possa ser explicado exclusivamente como um problema “brasileiro”.

A própria ONU descreve o Brasil como importante país de trânsito e também mercado consumidor, enquanto registra que a cocaína que entra nas rotas brasileiras tem origem nos países andinos.

O ponto mais interessante da discussão

Existe uma diferença enorme entre dizer: “O PCC e o Comando Vermelho são organizações criminosas brasileiras que precisam ser combatidas.” E dizer: “O Brasil é o responsável pelo narcotráfico que atravessa a América do Sul.”

A segunda afirmação não corresponde à complexidade documentada pelas organizações internacionais. E há outro detalhe relevante: a declaração dos 14 países não transforma automaticamente PCC e CV em organizações terroristas segundo a legislação brasileira. Cada país deverá implementar as medidas de acordo com sua própria legislação. O documento prevê congelamento de ativos, restrições migratórias e de vistos e responsabilização por apoio material ou logístico.

Por isso,  a crítica mais consistente não seria simplesmente dizer que os países “não podem cobrar o Brasil”. Eles podem, e devem  cobrar o Brasil quando houver crimes e organizações brasileiras atuando internacionalmente.

O Brasil também tem o direito de cobrar reciprocidade.

Se há cocaína entrando no território brasileiro através de fronteiras com Bolívia, Peru e Colômbia, então o combate precisa envolver controle das áreas de cultivo, laboratórios, fronteiras, portos, aeroportos, rotas financeiras e lavagem de dinheiro nesses países.

E há uma ironia importante: a declaração coloca na mesma estratégia organizações brasileiras, cartéis mexicanos, grupos colombianos e organizações de outros países, mas os fluxos do narcotráfico são justamente transnacionais. Não existe uma fronteira política que consiga separar produção, transporte, financiamento e consumo.

Por isso, uma política realmente regional deveria ser algo como: Colômbia combate a produção e as organizações em seu território. Bolívia combate o cultivo ilegal e as rotas que atravessam seu território. Peru faz o mesmo.
Brasil combate PCC, CV, lavagem de dinheiro, armas e distribuição.
Estados Unidos e Europa combatem o mercado consumidor e o sistema financeiro que movimenta bilhões.

Isso é muito diferente de simplesmente apontar o dedo para o país vizinho. E há ainda uma dimensão geopolítica que merece atenção: Trump está tentando transformar o combate ao narcotráfico em um instrumento de coordenação política e de segurança dos Estados Unidos na América Latina. A declaração dos 14 países é também um movimento diplomático, não apenas policial. O Brasil decidiu não aderir e Lula defendeu na ONU cooperação internacional contra o crime, mas sem intervenção estrangeira e sem abrir mão da soberania brasileira.

Em resumo: a classificação das facções brasileiras pode ser discutida juridicamente e politicamente, mas o combate ao narcotráfico não pode ser reduzido à existência do PCC e do CV. A cadeia começa muito antes de a droga chegar ao território brasileiro e termina muito depois que ela sai daqui. Se a proposta é uma guerra continental contra o narcotráfico, a responsabilidade também precisa ser continental.

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