Por Fernando Garayo

Candidato ao Senado por São Paulo, ex-comandante da Rota foi investigado em inquéritos que somam 16 mortes; sua saída da tropa ocorreu após uma operação que terminou com seis mortos.
A campanha de Guilherme Derrite ao Senado por São Paulo recoloca no centro do debate eleitoral uma questão que acompanha sua trajetória desde os tempos em que vestia a farda da Polícia Militar: qual deve ser o limite entre o combate ao crime e a violência praticada pelo próprio Estado?
Derrite, ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo e ex-oficial da Rota Ostensiva Tobias de Aguiar (Rota), tornou-se uma das principais referências do discurso de endurecimento na segurança pública. Mas sua passagem pela tropa de elite da PM paulista também foi marcada por uma série de investigações sobre mortes ocorridas em operações policiais.
Segundo levantamento publicado pela revista Piauí e reproduzido por diferentes veículos, Derrite esteve envolvido, como policial participante das operações, em sete inquéritos relacionados a 16 mortes·.
A saída da Rota
O episódio mais grave ocorreu em uma operação que terminou com seis pessoas mortas. Três policiais militares foram posteriormente presos por acusações relacionadas à tortura e assassinato.
Foi esse caso que contribuiu para a saída de Derrite da Rota. Segundo a reportagem da Piauí, seus superiores consideraram excessiva a letalidade associada à atuação do então policial.
Anos depois, o próprio Derrite explicou sua saída em entrevista. Em tom direto, atribuiu o afastamento à quantidade de mortes nas ocorrências das quais participou, afirmando que havia “matado muito ladrão” e que recebeu uma ordem para deixar a unidade.
Portanto, a descrição mais precisa não é dizer que Derrite foi expulso da Rota, mas que foi convidado a deixar a unidade após uma operação de alta letalidade.
16 mortes sob investigação
O número de 16 mortes tornou-se um dos pontos mais controversos da trajetória do candidato. Os documentos analisados pela reportagem da Piauí apontaram seis primeiros inquéritos relacionados a dez mortes e um sétimo procedimento envolvendo outras seis vítimas.
O levantamento não permite concluir que Derrite tenha sido o autor dos disparos que mataram essas pessoas. O que os documentos demonstram é que ele participou das operações investigadas e esteve sob investigação nos sete procedimentos.
Essa distinção é fundamental para o jornalismo: investigação não equivale à condenação. Derrite nunca foi denunciado criminalmente por esses homicídios, e sua defesa contestou as acusações, classificando-as como infundadas.
O passado da Rota durante a ditadura
A discussão sobre Derrite também precisa ser colocada dentro de uma história muito maior: a própria formação da Rota e a tradição de violência policial em São Paulo.
A Rota foi criada em 1970, durante a ditadura militar. Estudos históricos apontam sua relação com a estrutura policial empregada no combate aos opositores do regime autoritário durante o regime militar.
É nesse contexto que ganha importância o trabalho do jornalista Caco Barcellos e seu livro Rota 66 — A História da Polícia que Mata, publicado em 1992.
Durante anos de investigação, Barcellos levantou milhares de casos de mortes provocadas por policiais militares paulistas entre 1970 e 1992. A obra tornou-se um dos mais importantes registros jornalísticos sobre a violência policial no Estado e recebeu o Prêmio Jabuti de Reportagem.
O caso que deu nome ao livro
O episódio que dá nome à obra aconteceu em 23 de abril de 1975, durante a ditadura militar. Três jovens de classe média alta da sociedade paulistana, Francisco Nogueira Noronha, de 17 anos; José Augusto Diniz Junqueira 19; e Carlos Ignácio Rodrigues Medeiros, de 22, foram perseguidos por policiais da Rota. Os três acabaram mortos. Um detalhe, os três jovens moravam em bairros nobres da capital paulista. Isto deixa claro que a violência policial não afeta somente meninos pobres, mas também a elite.
A versão apresentada inicialmente pelos policiais sustentava que havia ocorrido troca de tiros. A investigação, entretanto, encontrou contradições nessa narrativa e evidências que colocaram em dúvida a versão oficial, inclusive em relação às armas apresentadas como pertencentes às vítimas.
Os policiais envolvidos acabaram absolvidos pela Justiça Militar em 1981. Décadas depois, o episódio continuaria sendo considerado um dos símbolos da violência policial brasileira durante a ditadura.
A história da Rota não pode ser separada do ambiente político em que ela surgiu. A unidade nasceu em uma época em que o Estado brasileiro utilizava forças de segurança para combater organizações que enfrentavam a ditadura. Pesquisas históricas apontam que policiais da então Força Pública receberam treinamento militar para operações contra guerrilheiros urbanos antes mesmo da criação formal da Rota.
Essa herança é importante porque ajuda a compreender como determinados métodos de enfrentamento ao inimigo político acabaram sobrevivendo à própria ditadura e sendo posteriormente utilizados no combate ao crime comum.
O debate, portanto, não é apenas sobre Guilherme Derrite. É sobre qual modelo de polícia uma democracia deve possuir.
Da ditadura à democracia: a violência que permaneceu
O trabalho de Caco Barcellos revelou algo ainda mais perturbador: a violência letal não desapareceu com o fim do regime militar.
O livro identificou milhares de vítimas da Polícia Militar paulista entre 1970 e 1992. Segundo a pesquisa, muitas delas sequer tinham antecedentes criminais ou eram suspeitas de crimes violentos. O caso Rota 66 tornou-se, assim, uma espécie de metáfora para uma pergunta que permanece atual: quando a polícia recebe autorização social para matar, quem estabelece os limites?
Derrite e o discurso da “polícia linha-dura”. É justamente nesse ponto que a trajetória de Derrite ganha dimensão política.
O ex-policial construiu sua carreira pública em torno de um discurso de enfrentamento duro à criminalidade. Como secretário de Segurança Pública de São Paulo, também esteve no centro de debates sobre letalidade policial.
Sua passagem pela Rota tornou-se parte de sua própria identidade política. Em 2015, quando já estava afastado das ruas, Derrite chegou a ser alvo de procedimento administrativo por causa de um áudio no qual afirmava ser “vergonhoso” que um policial não tivesse participado de pelo menos três mortes ao longo de cinco anos. Posteriormente, ele afirmou que se arrependia da declaração e que não tinha orgulho das ocorrências nas quais alguém havia morrido.
A contradição é evidente: o mesmo passado que pode ser apresentado como prova de experiência operacional também pode ser questionada como símbolo de uma cultura policial excessivamente tolerante com a morte.
O grupo “Eu Sou a Morte”
Outra acusação grave aparece em depoimentos de Wallace Oliveira Faria, ex-policial militar condenado a 102 anos de prisão. Faria afirmou à Defensoria Pública que integrava um grupo de extermínio conhecido como “Eu Sou a Morte”, formado por policiais que atuavam na região de Osasco.
Segundo o depoimento, Derrite teria conhecimento das atividades do grupo e exerceria influência sobre seus integrantes. A acusação, entretanto, não resultou em denúncia contra Derrite, e deve ser tratada como alegação feita por um condenado, e não como fato judicialmente comprovado. Derrite negou as acusações e afirmou que elas eram infundadas.
O passado diante das urnas
Agora, anos depois, Guilherme Derrite apresenta-se ao eleitor paulista como candidato ao Senado. Sua experiência policial é parte central de sua imagem pública. Mas, a mesma trajetória produz uma pergunta inevitável para o eleitor: um candidato que construiu sua carreira política defendendo uma política de segurança mais dura deve também responder publicamente pelas controvérsias relacionadas à letalidade de sua própria atuação policial?
A resposta, em uma democracia, não deve ser dada pela propaganda eleitoral, nem por slogans de “bandido bom é bandido morto”. Deve ser dada pela transparência.
É preciso apresentar documentos, investigações, decisões judiciais, versões das vítimas, manifestações das famílias e explicações do próprio candidato.
Segurança pública não pode significar licença para matar. A história registrada por Caco Barcellos mostra que a violência policial não nasceu com Guilherme Derrite. Ela atravessa décadas, passou pela ditadura militar, atravessou a redemocratização e chegou ao século XXI.
A questão central para a sociedade brasileira é saber se pretende continuar reproduzindo uma cultura na qual a eficiência policial seja medida pela quantidade de mortos ou construir uma política de segurança baseada em investigação, inteligência, prevenção, tecnologia, valorização profissional e respeito absoluto à vida e à lei.
Derrite tem direito à defesa e à presunção de inocência em todas as acusações que lhe foram feitas. O eleitor, por sua vez, tem direito a conhecer toda a história.
E talvez essa seja a principal lição deixada por Rota 66: quando o Estado mata, não basta perguntar quem puxou o gatilho. É preciso perguntar quem deu a ordem, quem investigou quem fiscalizou quem protegeu e por que tantas mortes puderam ser tratadas como rotina.
Cinquenta anos depois do episódio que deu nome ao livro de Caco Barcellos, essa pergunta continua atravessando São Paulo. E agora chega novamente às urnas.
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