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João Saldanha e a entrevista que não foi ao ar

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Adalberto Mansur
Agência ProImprensa
Saldanha: popularidade em alta e polêmica com Médici
Crédito: Site Vermelho.org.br

Ainda na faculdade de Jornalismo, me empolguei a participar do primeiro congresso da área. Era um encontro da Associação dos Cronistas Esportivos do Estado (Aceesp) ou do Sindicato dos Jornalistas. Certeza mesmo é o local: Piracicaba.

No congresso, Saldanha se mostrou tranquilo, bem diferente dos seus comentários no futebol e nas transmissões dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Numa das pausas, Saldanha falou a um grupo de jornalistas sobre profissão e futebol. Sem gravador para fazer o registro, só anotava as falas. Depois, um colega de Piracicaba salvou minha pele:
– Vou levar a fita na rádio e peço uma cópia para você!
Com a fita em mãos, cheguei para meu chefe na rádio regional onde trabalhava e contei o ocorrido. Ele reagiu:
– Vamos soltar a entrevista no domingo, no plantão antes da jornada esportiva.
Mas a entrevista não foi ao ar, e um colega explicou:
– Preferimos não divulgar! Você sabe, o Saldanha é comunista e acho que o dono da rádio não ia gostar.
Entendi o recado. Vida que segue!
A fase treinador
Na série da Netflix sobre a Copa de 1970. Rodrigo Santoro ganha elogios no papel de Saldanha. A fidelidade ao personagem inclui seu vício de fumante.
Em fevereiro de 1969, Saldanha foi convidado a ser treinador da Seleção. Ele tinha apenas uma passagem – com título – como treinador do Botafogo nos anos 1950. No jornalismo, era respeitado. Até o jornal “chapa branca” “O Globo” e a TV Globo abriam espaço para seus comentários. Juntava comunicação fácil, conhecimento técnico e críticas ácidas.
As críticas incomodavam João Havelange, presidente da CBD. Muitos avaliam que o convite para a seleção era para que “quebrasse a cara”. Sem conhecimento, estaria logo fora do cargo e sem espaço na imprensa, aos 52 anos de idade.
Foram tempos difíceis na função. A seleção sofria nas eliminatórias e amistosos. A ousadia de juntar jogadores que vestiam a “camisa 10” em seus clubes foi a saída encontrada diante das mudanças no esporte. Pelé, Rivelino e Gerson eram as “feras de Saldanha”.
Seu lado simpático surgia nos comércios do Rio, quando era visto trocando ideia com torcedores. Já o temperamento era explosivo. O costume de andar armado, por temor de perseguição política, gerou episódios tensos com Yustrich, treinador do Flamengo e crítico de seu trabalho, e o lendário goleiro Manga – a quem chamou de “vendido” após uma partida.
O comunista na seleção incomodava o presidente da República Emílio Garrastazu Médici e a ditadura. Médici era apaixonado por futebol, enquanto Saldanha viu no golpe de 1964 “o início de um longo e tenebroso inverno”.
A cada tropeço da equipe, surgiam manchetes tipo “Saldanha vai cair” ou “as feras viraram gatinhos de madame”. Havia um pensamento: se caísse, Saldanha não teria emprego na imprensa e poderia ser perseguido pelos militares.
Pelé “míope”, Dadá “vetado”
Do outro lado, a popularidade impressionava. Chegou a ser “garoto propaganda” da loteria esportiva da Caixa Federal, lançada nos anos 1970. Uma pesquisa da agência MPM mostrava que Saldanha era a pessoa mais confiável do meio futebolístico para divulgar a loteria governamental.
O jeito foi criar polêmicas no elenco. Pelé teria miopia e, por isso, seria sacado por Saldanha. Médici também teria sugerido a convocação do atacante Dario, o Dadá Maravilha.
– “Não ponho gente no ministério. E não vão botar gente no meu time, não!”, respondeu Saldanha. “O Pelé com miopia joga melhor que todos nós juntos”.
Não teve jeito: dois meses antes da Copa, a CBD anunciou Zagallo como técnico. Na linha do tempo, Saldanha estava de volta à imprensa poucos dias após a dispensa. Já o tricampeonato de futebol veio, com Zagallo e os jogadores, incluindo Dario, sendo recebidos por Médici em Brasília.
Saldanha e Médici, juntos, seria uma foto inimaginável. Talvez Saldanha não tivesse espaço ainda hoje. Nos comentários, muitas vezes chamava um jogador de “aquele lateralzinho”. Candidato a vice-prefeito do Rio pelo PCB, reagiu a uma militante dos direitos humanos que questionou qual seria a política municipal para os indígenas.
– “Vamos incentivar o Cacique de Ramos”, respondeu, citando o bloco carnavalesco e deixando claro que havia outras prioridades na cidade.
Saldanha embarcou para a Copa de 1990 em uma cadeira de rodas, debilitado pelas doenças gerada pelo consumo de cigarro. Morreu em Roma, trabalhando para a TV Manchete no Mundial.
Creio que, se fosse citar a história da entrevista que fiz com ele e que não foi ao ar, Saldanha daria nomes aos bois. Mas, pessoalmente, preferi ser pragmático e guardar forças para outras batalhas.
Viva, Saldanha!
Nota – artigo escrito com apoio de material levantado na Internet, especialmente o documentário “João sem Medo”, da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), que está disponível gratuitamente no Youtube.

 

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