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O ESTADO COMO MOTOR DO DESENVOLVIMENTO: NEOLIBERALISMO, INTERVENCIONISMO E A EXPERIÊNCIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

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Adriano Francisco Denardi

Israel Aparecido Gonçalves

A defesa do liberalismo econômico como modelo universal sempre encontrou
contradições profundas na prática histórica das nações que mais o pregaram. A Inglaterra do
século XVIII, apresentada como baluarte do livre mercado, não hesitou em recorrer ao
protecionismo quando seus interesses estavam em jogo — a Lei Calicó de 1721, que proibiu a
comercialização de tecidos indianos mais baratos, é um exemplo eloquente. Os Estados Unidos
seguiram o mesmo caminho: a Lei Smoot-Hawley, promulgada durante a Crise de 1929,
sobretaxou produtos importados entre 20% e 60%, contradizendo o discurso livre-cambista que o
país exportava ao restante do mundo. A máxima popular resume bem essa lógica: faça o que eu
digo, não faça o que eu faço.
Após o colapso do socialismo soviético nos anos 1980, os Estados Unidos, consolidados
como potência hegemônica, impuseram ao centro-sul da América Latina o chamado Consenso de
Washington (1988): uma agenda neoliberal de austeridade fiscal, abertura de mercados e redução
do Estado social. Os resultados foram socialmente trágicos. Paradoxalmente, os períodos de
maior desenvolvimento econômico e social na América Latina — notadamente no Brasil com
Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek — ocorreram justamente sob governos altamente
intervencionistas, que conduziram projetos nacionais de industrialização e infraestrutura. A
Argentina, que na última ditadura militar (1976–1982) abraçou o receituário neoliberal com
abertura de mercados e desmonte trabalhista, colheu retração industrial e aumento explosivo da
dívida externa.
No Brasil, a agenda neoliberal dos anos 1990 conviveu com avanços sociais pontuais —
o governo Fernando Henrique Cardoso criou o Bolsa Escola, o Auxílio-Gás e o Bolsa
Alimentação, programas que seriam unificados no Bolsa Família durante os 14 anos dos
governos do Partido dos Trabalhadores. Nesse período, políticas afirmativas como a lei de cotas
raciais impulsionaram significativamente os indicadores sociais. O desmonte dessa trajetória teve
início em 2016 com o governo Michel Temer: o desemprego atingiu 12%, o salário-mínimo
perdeu poder de compra e a inflação de alimentos avançou. O cenário se agravou na gestão

Bolsonaro, com o desemprego chegando a 14,7% e o Brasil retornando ao Mapa da Fome da
ONU, em meio à pandemia de COVID-19.
A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022 representou uma inflexão política
explícita ao neoliberalismo. Ao assumir o governo em 2023, Lula recolocou o Estado brasileiro
no centro da estratégia de desenvolvimento, retomando investimentos públicos em infraestrutura,
habitação, educação e transferência de renda. O contraste com o modelo adotado
simultaneamente pela Argentina de Javier Milei — que elegeu o desmonte total do Estado como
programa de governo — tornou-se um experimento comparado involuntário de duas visões
radicalmente opostas sobre o papel do poder público na economia.
Os resultados desse contraste são ilustrativos. Na Argentina de Milei, o desemprego
registrou 7,8% no primeiro trimestre de 2026, a informalidade atingiu recordes próximos a 44%
e 28,2% da população vive abaixo da linha da pobreza — 8,3% destes em situação de extrema
pobreza. No Brasil de Lula, o cenário é oposto: o desemprego recuou para menos de 5%,
patamar típico de países desenvolvidos; o PIB cresceu 2,9% em 2024 e 2,3% em 2025, com PIB
total projetado em US$ 2,64 trilhões; e o salário-mínimo registrou ganho real acima da inflação.
O dado mais simbólico é o IDH: em 2024, o Brasil alcançou 0,805, ingressando pela primeira
vez na categoria de países com desenvolvimento humano muito alto, com o maior avanço
registrado justamente no setor de educação.
A experiência recente de Brasil e Argentina demonstra, com dados concretos, que a
atuação do Estado como propulsor do desenvolvimento econômico e social não é uma opção
ideológica entre outras — é uma condição estrutural para a redução das desigualdades e a
melhoria das condições de vida da população. O governo Lula, ao posicionar-se explicitamente
como alternativa ao neoliberalismo, recoloca na agenda pública latino-americana um debate que
a história já respondeu, embora o discurso do livre mercado insista em ignorar: o mercado,
deixado a si mesmo, não distribui — concentra.

Adriano Francisco Denardi é professor de História.

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