Por Fernando Garayo

Há momentos em que a história parece caminhar em círculos. Muda-se a tecnologia, aceleram-se as comunicações, multiplicam-se as vozes nas redes sociais, mas certos preconceitos insistem em sobreviver como fantasmas que se recusam a abandonar a casa da civilização. Um deles ressurge sempre que mulheres são acusadas de “votar errado” simplesmente porque exercem sua liberdade política.
Não se trata apenas de uma divergência eleitoral. Trata-se de uma velha tentação autoritária: admitir a democracia apenas quando ela confirma as próprias convicções. Quando o voto feminino produz um resultado indesejado, deixa de ser visto como expressão legítima da soberania popular e passa a ser tratado como erro, ignorância ou manipulação. Nesse instante, o problema já não é a mulher; é a própria democracia.
O filósofo Immanuel Kant afirmava que a dignidade humana repousa na autonomia, na capacidade de cada pessoa pensar por si mesma e agir segundo sua própria razão. Negar à mulher o direito de formar livremente seu juízo político significa negar-lhe precisamente aquilo que Kant reconhecia como fundamento da condição humana: a autonomia moral.
Também Hannah Arendt advertia que toda política verdadeiramente humana nasce da pluralidade. O espaço público existe porque homens e mulheres pensam de maneira diferente. Uma sociedade que deseja apenas vozes obedientes transforma a política em mera confirmação do poder e converte o cidadão em espectador de si mesmo.
Ao longo da história, mulheres precisaram enfrentar séculos de exclusão para conquistar o direito ao voto. No Brasil, essa conquista foi reconhecida em 1932. Não foi um presente; foi fruto de lutas sociais, intelectuais e políticas. Desqualificar o voto feminino significa, ainda que indiretamente, desrespeitar essa trajetória histórica.
É nesse contexto que ganha relevância a conhecida reflexão do ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Em um evento realizado em 2019, ele afirmou que, se todas as nações fossem governadas por mulheres por alguns anos, provavelmente haveria melhorias significativas nos padrões de vida e nos resultados sociais. A observação não era uma demonstração científica, mas uma provocação política sobre estilos de liderança e sobre a necessidade de ampliar a participação feminina nos espaços de poder.
Essa reflexão dialoga com diversos estudos sobre representação política, que indicam que ampliar a participação das mulheres fortalece a diversidade de perspectivas e enriquece os processos democráticos. Não porque mulheres sejam moralmente superiores aos homens, mas porque nenhuma democracia amadurece excluindo metade da humanidade.
Acusar mulheres de “votarem errado” revela menos sobre elas do que sobre quem faz a acusação. É a dificuldade de conviver com a liberdade do outro. É a incapacidade de aceitar que cidadania não é obediência, mas consciência.
A democracia não exige unanimidade; exige respeito. O voto feminino não precisa coincidir com expectativas ideológicas para ser legítimo. Ele basta ser livre.
Talvez seja esse o maior ensinamento da filosofia política: a liberdade deixa de existir quando alguém acredita possuir o monopólio da verdade. E toda vez que uma mulher deposita seu voto na urna segundo sua própria consciência, ela reafirma não apenas um direito individual, mas uma conquista coletiva da humanidade.
Referências
- Immanuel Kant. Fundamentação da Metafísica dos Costumes.
- Hannah Arendt. A Condição Humana.
- Barack Obama. Declaração em evento de liderança em Singapura (2019), repercutida pela imprensa internacional.
- Tribunal Superior Eleitoral. História da conquista do voto feminino no Brasil.
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