Por: Fernando Garayo- Jornalistaa e Cientista Político

Existe uma diferença profunda entre combater o crime organizado e transformar um país inteiro em refém de interesses políticos internacionais. O debate levantado pela família Bolsonaro ao pressionar para que o PCC e o Comando Vermelho sejam classificados como organizações terroristas pelos Estados Unidos não nasce apenas da preocupação com a segurança pública. Nasce também de uma estratégia política que flerta perigosamente com a submissão da soberania brasileira aos interesses geopolíticos estrangeiros.
O Brasil tem um dos maiores e mais complexos sistemas de combate ao crime organizado do mundo. A Polícia Federal, o Ministério Público, as polícias estaduais e as Forças Armadas conhecem profundamente a estrutura dessas facções. O problema brasileiro nunca foi falta de legislação. O problema sempre foi corrupção estrutural, ausência do Estado em regiões periféricas, desigualdade social histórica e infiltração do crime em setores da economia formal e da política.
Transformar PCC e Comando Vermelho em “organizações terroristas internacionais” pode parecer, à primeira vista, uma solução dura e eficiente. Mas a realidade geopolítica é muito mais cruel do que os slogans eleitorais vendidos em lives e palanques.
Quando um país aceita que organizações internas sejam enquadradas como terrorismo internacional sob tutela dos Estados Unidos, ele abre espaço para interferências externas em sua política de segurança, em seu sistema financeiro e até em suas relações diplomáticas. O conceito de “combate ao terror”, especialmente após o 11 de Setembro, tornou-se uma ferramenta global de expansão de influência norte-americana. Basta olhar o que aconteceu em países da América Latina e do Oriente Médio após a entrada do discurso antiterrorista: aumento da vigilância internacional, pressão econômica, sanções indiretas e dependência crescente de inteligência estrangeira.
A consequência econômica para o Brasil pode ser devastadora, o mercado financeiro internacional reage violentamente quando um país passa a ser associado globalmente ao terrorismo. Investidores não fazem distinções filosóficas entre facção criminosa e instabilidade institucional. O que enxergam é risco. E risco afasta capital.
Empresas internacionais podem rever investimentos no Brasil. Bancos estrangeiros podem endurecer operações financeiras. O custo de crédito internacional aumenta. O dólar sofre pressão. O país passa a carregar um selo silencioso de “território contaminado pelo terror”. Não é teoria. É exatamente o que ocorre em economias marcadas por conflitos internos reinterpretados como ameaça internacional.
Além disso, classificar essas organizações como terroristas pode gerar efeitos jurídicos imprevisíveis para milhões de brasileiros pobres que vivem em regiões dominadas pelo crime organizado. Nos Estados Unidos e em outros países, legislações antiterrorismo permitem monitoramento extremo, bloqueio de ativos, restrições financeiras e ampliação de vigilância. O combate ao crime deixa de ser apenas policial e se transforma em doutrina permanente de exceção.
E aqui mora o maior perigo: governos autoritários adoram estados de exceção.
A família Bolsonaro construiu sua trajetória política baseada no medo. Medo do comunismo. Medo das universidades. Medo da imprensa. Medo das minorias. Medo das instituições. Agora tenta transformar o medo do crime em plataforma internacional de poder.
Mas o bolsonarismo nunca apresentou um projeto verdadeiro de segurança pública. Durante anos governando o país, não desmontou financeiramente as facções, não reduziu estruturalmente o tráfico de armas, não atacou a lavagem de dinheiro do narcotráfico nem reformou o sistema prisional — principal universidade do crime organizado brasileiro.
Quanto maior o medo social, maior a chance de vender líderes autoritários como “salvadores da pátria”. É a lógica clássica do populismo radical: criar um inimigo absoluto para justificar medida cada vez mais extrema.
O mais irônico é que setores da extrema-direita brasileira, que vivem discursando sobre patriotismo e soberania nacional, agora pedem praticamente uma chancela internacional sobre problemas internos do Brasil. É um nacionalismo que ajoelha. Uma falsa defesa da pátria que aceita entregar parte da autonomia brasileira em troca de capital político eleitoral.
A história mostra que nenhum país se fortalece abrindo mão de sua soberania estratégica para agradar interesses externos. Nenhuma democracia amadurece alimentando permanentemente o discurso do medo. Nenhuma nação constrói futuro tratando segurança pública como espetáculo ideológico.
O Brasil precisa combater o PCC e o Comando Vermelho com inteligência, investigação financeira, controle de fronteiras, cooperação internacional equilibrada e fortalecimento institucional. Mas transformar o país numa plataforma continental da guerra antiterrorista pode produzir exatamente o contrário do que prometem: mais instabilidade, mais dependência externa, mais tensão institucional e mais fragilidade econômica.
No fundo, a pergunta que fica é perturbadora.
Até onde a família Bolsonaro está disposta a levar o Brasil para sobreviver politicamente?
Porque chega um momento em que o país precisa decidir se continuará refém de uma máquina permanente de radicalização ou se reconstruirá sua capacidade de pensar segurança pública sem fanatismo, sem submissão externa e sem transformar a democracia em combustível eleitoral para projetos pessoais de poder.
E talvez por isso o debate já não seja apenas sobre a família Bolsonaro.
Talvez o debate seja sobre a sobrevivência institucional do próprio Brasil.
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